Um dia na vida de um valorizador profissional

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Sérgio chegou ao trabalho reclamando do trânsito. Disse que o aterro estava impossível, que a cidade estava cheia de barbeiros, que não dá pra entender de onde esses motoristas vêm, que os ônibus no Rio se comportam como motos. Que hoje em dia alguém tinha que ser um herói pra chegar na Avenida Chile, que ele tinha tido que acordar as cinco e meia da manhã, que esse país não tinha mais jeito, que ele nem queria ver como ia ser na copa. Declarou que era impossível estacionar nessa cidade cheia de flanelinhas, que o carioca era um fracasso enquanto projeto de ser humano, que a América do Sul estava fadada a ir da barbárie a decadência sem um estágio intermediário de civilização. Na verdade Sérgio havia acordado sete e meia, passado pelo aterro em dez minutos e estacionado numa vaga para deficientes.

Na reunião Sérgio comentou sobre o relatório. Disse que tinha sido um trabalho extenuante, que ele quase não tinha dado conta, que havia sido um esforço sobre-humano. Mencionou as horas extras, as noites mal dormidas, os finais de semana que não pôde aproveitar com a família porque precisava revisar dados, corrigir planilhas, confirmar informações. Disse que agradecia a confiança demonstrada por ser incumbido de um trabalho tão crítico mas que achava que atividades como aquelas deveriam ser divididas entre mais de uma pessoa porque nem todos seriam capazes de dar conta de algo dessa magnitude sozinhos da mesma forma que ele, Sérgio, conseguiu fazer. Na verdade Sérgio havia apenas montado uma lista de itens pro café da manhã da gerência. Copiando de uma outra lista que ele achou no google.

No almoço Sérgio confidenciou a amigos que estava muito doente. Falou sobre dores no corpo, mencionou cansaço, dificuldades para respirar, palpitações, tremores e mudanças inexplicáveis de temperatura. Usou seguidamente o termo secreções – para desagrado do amigo que comia estrogonofe – descreveu noites de agonia, dores de cabeça, mal estar e total incapacidade para se mover em algumas manhãs. Disse que não sabia por quanto tempo poderia aguentar, que isso não era vida, que tinha medo de estar com alguma doença muito grave. Sérgio estava com um resfriado. Dos leves.

Chegando em casa entregou o presente de aniversário da filha e disse que, para que ela pudesse entender melhor o valor daquele agrado, ele deveria explicar o quão cansativo e extenuante o processo de compra foi. Falou sobre a distância entre a casa e o único shopping onde a boneca poderia ser encontrada, falou sobre filas enormes, sobre o suor necessário para obter o dinheiro para aquele presente, sobre o drama da negociação com atendentes e balconistas grosseiras. Falou sobre como quando tinha a idade dela jamais ganharia um presente caro como aquele, mencionou que aquilo era fruto do carinho imenso que ele tinha por ela, pontuou que nem toda menina tinha um pai tão bom quanto ele. Na verdade o presente tinha sido comprado num saldão virtual do Ponto Frio por 25 reais e a garota queria era um autorama.

Na cama Sérgio virou para a esposa e comentou. Disse que não tinha sido fácil, disse que aquela ereção foi quase dolorosa, que pareceu que o sexo tinha durado anos, que era quase impossível atuar naquelas condições. Falou que odiava ficar suado daquele jeito, que estava tendo que tomar seis viagras batidos no leite pra conseguir dar conta, que não sabia por mais quanto tempo podia aguentar. Falou que ela andava muito pesada, que ele não estava sentindo direito as pernas, que talvez tivesse quebrado alguma coisa, que eles precisavam dar um tempo nessas coisas. Na verdade Sérgio receberia na terça-feira seguinte a papelada do divórcio.

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10 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Gente bizarra, Sem Categoria, vida profissional

10 Respostas para “Um dia na vida de um valorizador profissional

  1. Henrique

    Puta cara chato esse Sérgio, hein? Fala sério.
    E, João, cara, tu não sabe o aperto que foi deixar esse comentário aqui. Primeiro que o computador estava atualizando o Windows, foi uma demora para ligar. Abri o Firefox, mais atualização. Tentei entrar no site, o pessoal do T.I. aqui da empresa bloqueou a porra toda, tive que burlar o negócio e olha que eu nem entendo nada disso, deu uma trabalheira danada. Quando achei que estava indo, o Firefox, ele de novo, falou que o site não era confiável. Tive que confirmar umas 17 vezes que tinha noção do risco que estava correndo e , quando fui abrir o texto, a energia acabou. Cara, que pessoal esse da Cemig, hein? Brincadeira. 25 minutos depois fiz tudo de novo, li o texto e agora estou deixando o comentário. Pra você ver, queria ter leitores dedicados como eu no meu blog também.

  2. Jônathas Lucas Souza

    Realmente um ótimo blog, grande texto.
    Sem falsa valorização.

  3. Fatos meramente ilustrativos e sem nenhuma semelhança com personagens da vida real.

  4. JuninhO

    É triste como eu sofro com tanta gente assim.

  5. Na verdade todos temos momentos de Sergio na vida, ao menos você me deixou pensando e toda vez que estiver reclamando das coisas, vou me perguntar se estou overreacting!

  6. ThiagoFC

    Aposto que o hoje o Sérgio está dedicando o dia de hoje para falar como o Corinthians sempre ganha as coisas roubando, que a máfia do apito tá chegando na Conmebol, e que todo brasileiro que lê a Veja e adere às marchas anti-corrupção tem mais é que pintar a cara de verde e amarelo e torcer pro Boca Juniors na próxima quarta-feira, porque o Boca será o Brasil em campo.
    Na verdade, Sérgio tem mais é que tomar no cu, porque é um ressentido com o próprio time que não ganha nem campeonato estadual, ganhou uma Libertadores há mais de dez anos e desde então vive na miséria, e acha que o título continental é o argumento máximo e definitivo que pode haver numa discussão sobre futebol.

    • ThiagoFC

      Ah, e o Sérgio gosta de manifestar essa opinião no mural dos amigos corinthianos no Facebook. Se o amigo reclamar que ele tá enchendo o saco, ele vai lá e dá um unfriend.
      Não que tenha acontecido com ninguém hoje, muito menos comigo.

  7. Mateus

    Lembrou-me uma citação: “quem é bom em desculpas, não é bom em mais nada”. Ri alto com a piada do estrogonofe, acontece muito isso…

  8. Marcia Annia Walker P. da Silva e meio de Castro Vaz Kenobi

    Não tenho mais ideia espirituosas pra comentários. Então mais uma vez é a água no feijão pra mostrar que continuo lendo e curtindo e que pode sim ir lá em casa sem aviso, me forçando a deixar de lado minha bela noite planejada cuidadosamente onde eu jogaria Diablo 3, enquanto vendesse os itens comeria Nutella do pote com uma caneta e depois escreveria furiosamente sobre o Batman, a faculdade de historia e o fato de que eu esqueci completamente onde estava indo com isso.
    Ah, e naquele texto que você mencionou sobre estar preso num episódio ruim de the office, eu não entendi bem. Existe isso?
    E, em tempo: ASSISTA FIREFLY, CAZZO.
    e efusivos abraços, felicidades e etc e tal.

    Ah, e insônia é algo que eu não desejo nem pra DJ’s de ônibus. Mesmo porque no fundo no fundo eu gosto de poder odiar as coisas sem me sentir o Clint no Gran Torino.
    Mesmo porque eu nem tenho um Gran Torino. E acho que aqui no Brasil seria muito difícil… Manterei a ideia de um fusca azul (porque adoraria saber que sou responsável por pessoas se estapeando na rua) e possivelmente um Maverick preto. Que não sairia muito da garagem porque eu já tomo banhos longos, usar essas combustíveis fósseis indiscriminadamente é meu modo de me redimir.

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