Sobre uma certa ligação entre a complexidade da descrição do seu dia e a hora certa de trocar de trabalho

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No começo dava pra descrever rapidamente, fosse do jeito que fosse. Sua mãe, seu irmão, as vezes uma tia ou uma avó perguntavam como ia o trabalho e você soltava um “tudo bem”, “meio chato”, “um pouco cansativo”. Você não pensava muito, era apenas trabalho, tinha seus dias bons, tinha seus dias ruins.

Depois começaram as metáforas. Encontrando com a namorada na sexta à noite você dizia que “era um inferno”, “era um caos”, “era uma droga” e rapidamente partiu pras comparações simples, mencionando que era como “uma bela surra de bastão”, “apanhar na rua” ou “como estar preso num episódio ruim de the office”.

Em pouco tempo tudo foi ficando mais elaborado, é claro. “Imagina assistir um número de stand up da Heloisa Perisse com duração de oito horas no meio de uma festa de confraternização de final de ano dos empregados da Chilli Beans, sem bebida alcoólica, só banquinho de plástico”. Ou mesmo cheias de referências. “Sabe aquela cena na primeira temporada de Twin Peaks em que o Leo coloca um sabonete dentro de uma meia e espanca a mulher dele pra não deixar marcas? É assim, todo dia, com a diferença de que minha chefe não tem aquele rabo de cavalo.”

Depois disso as coisas rapidamente saíram de controle. “Imagina que você está dentro de um sala, ela é toda branca, tendo apenas um banco e em 8 momentos esparsos do seu dia, que podem acontecer sem aviso ou periodicidade, um homem vestido de palhaço vai sair de dentro de um alçapão, que você não sabe onde fica, e te bater na nuca com um pedaço muito grande de peixe. Assim, muito grande mesmo, sabe? Vem sendo assim todo dia” – “Mas…Junior…eu só tinha te perguntado se você já tinha almoçado” – “Ok, mãe”

Mas você só notou que o problema era real quando, parado na portaria do seu prédio, uma senhora te pediu pra tomar conta dos filhos dela enquanto pegava no apartamento uma coisa que tinha esquecido. Sem saber exatamente o que falar, você começou a descrever seu trabalho pras crianças. E durante dez minutos você ofereceu uma intrigante narrativa sobre dragões, tortura, labirintos, violência física, mental, reuniões de seis horas e aquele lamentável episódio em que te pediram pra fazer avisos de “não jogue papel no vaso” e revisaram seu texto quatro vezes, só parando quando umas das crianças te perguntou o que era “indignidade”, quem era esse tal de “garrote vil” e você achou que talvez não fosse certo responder.

Ontem a mãe das crianças topou com você de novo, te deu uma bronca, e perguntou o que você disse pros filhos dela terem tido pesadelos o final de semana todo. Talvez seja hora de pensar em trocar de emprego.

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9 Comentários

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9 Respostas para “Sobre uma certa ligação entre a complexidade da descrição do seu dia e a hora certa de trocar de trabalho

  1. Eu posso dizer que a única coisa divertida em trabalhos ruins são as metáforas assustadoras que nós podemos fazer com eles.

    Ou comparações do tipo: eu preferia estar amarrado no calabouço de um navio no meio de uma tempestade em alto-mar do que na confraternização de fim de ano com os colegas da empresa.

  2. Cara… muito bom, pra variar…

    Essa do palhaço com o peixe foi foda!

    Um abraço!

  3. Ana Paula Martins

    Para mim, o melhor foi “uma festa de confraternização de final de ano dos empregados da Chilli Beans, sem bebida alcoólica”. Já é difícil encarar os empregados da Chilli Beans como cliente, imagina em uma festa de final de ano sem bebida alcoólica. Como sempre, João, ótimo o texto. Mas acho que continua não sendo bom para a minha postura profissional… Fico olhando para o PC e dando risada… Isso não pega bem.

  4. ThiagoFC

    Rapaz, o trem tá feio assim no seu trabalho?
    Bom, pelo menos você tem seus projetos parelos: busque realização neles, e deixe o trabalho apenas pra aquele lance de ganhar dinheiro.
    E que a Força esteja com você.

  5. é, você está precisando de férias. e a do palhaço foi, realmente, assustadora. hahahaha

  6. thalita

    to na terceira fase e ainda vou fazer um ano…

  7. Fernando de Laurentiis

    Mas e aí, como tá o trabalho? rsrs

  8. Aviso já que vou usar a do Palhaço na próxima oportunidade.

  9. estranhamente preocupada com o nível de identificação com esse texto.
    ;/

    ps: lembrei disso > http://www.youtube.com/watch?v=1W3hzJNSkqs

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