Sobre primeiros beijos, saltos de fé e todo esse medo de portfólios, originais e empregos novos

gob-bluth

Uma teoria que eu sempre tive é a de que em nenhum momento, independente de qual seja, o tempo se move tão lentamente quanto naqueles momentos antes de um primeiro beijo. Sim, os poucos segundos, logo antes dos lábios se encontrarem, em que você já moveu o corpo, olhou diretamente nos olhos, e começou a aproximar o seu rosto do dela, manifestando claramente suas intenções, deixando de lado qualquer resquício de fingimento e abandonando de vez aquela farsa de que vocês efetivamente saiam do trabalho todo dia no mesmo horário ou magicamente entravam no gtalk na mesma hora quando estava óbvio que você ficou mais de vinte minutos passando frio do lado de fora daquele prédio e estava offline jogando marvel ultimate alliance o tempo todo.

Nesse momento, quando você faz o seu movimento, dá a sua cartada, se lança em direção ao seu objetivo, você está, mais do que nunca, exposto. Você deixou clara a sua decisão, você fez a sua aposta, chegou até um ponto onde não existe mais possibilidade de recuo – “eu não queria te beijar, eu só queria…bem…então…ver esses seus cílios lindos, é isso. eu sou gay” – e agora está dependendo de fatores externos, alheios ao seu controle, que, por mais que possam parecer garantidos – “cara, ela tá tão na sua” – podem não ser necessariamente o que parecem. Por isso todo primeiro beijo é um salto, uma aventura, uma experiência de coragem, análise ambiental, compreensão de contexto e de notar se o fato de que ela trouxe uma câmera com ela é um sinal de que ela apenas estava fotografando alguma coisa antes ou de que ela acha que as suas chances são tão pequenas que já tem um projeto pra depois.

E essa mesma dinâmica vale pra todas as coisas grandes que você pode conseguir na vida. Seja numa tentativa de emprego ou num pedido de casamento, vai haver sempre um instante em que tudo que você vai poder fazer é dizer o que você quer, acreditar que fez a sua parte da melhor forma possível e esperar que você tenha lido direito os sinais, entendido corretamente as indiretas, interpretado as pistas certas e que quando ela disse que “é hora de levar o relacionamento pro próximo nível” ela estava realmente falando em morar juntos e não em chamar um outro cara e fazer um ménage. Porque se for isso você mandou muito mal e aceitar e ainda por cima vai precisar preparar mais comida pro jantar de hoje.

Esse momento é também, por ser o mais importante, o mais aterrorizante. Porque é exatamente quando você ultrapassa o limite, quando você dá o salto, quando você se coloca efetivamente na linha de tiro, que você dá espaço pra toda a variedade de erros, azares e fracassos que podem vir daí – ela te queria só como amigo, a editora não está procurando originais, a empresa quer outro tipo de profissional, desde a década de 40 que ninguém mais foge com o circo, você precisa se informar melhor – ainda que esse seja, é claro, o único caminho possível pra descobrir que sim, ela gosta de você, claro, eles querem o seu livro, óbvio, o emprego é seu e, certeza, távamos mesmo precisando de um mágico amador que só atua ao som de “The Final Countdown” do grupo Europe, como você sabia?

Talvez isso funcione, até moralmente, como uma espécie de triagem, na qual as boas mudanças só vêm para aqueles que tem a coragem necessária pra mudar. Talvez seja apenas uma conseqüência lógica da vida – ninguém ganha nada sem risco. Talvez seja apenas o funcionamento óbvio de qualquer sistema de tentativa e erro. Mas a verdade é que sempre que a gente chega diante daquele momento em que sabe o que quer e tem certeza que vale a pena tentar, bate aquela sensação de que seria tudo mais fácil se antes dos encontros desse pra combinar com *essa garota chamada vida* se vai mesmo rolar um beijo ou não. Nem que seja apenas pra saber quanto de língua usar e se valia a pena ter comprado roupa nova pra esse encontro.

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9 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, séries canceladas, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal, vida profissional

9 Respostas para “Sobre primeiros beijos, saltos de fé e todo esse medo de portfólios, originais e empregos novos

  1. O uso de imagens e citações de Arrested Development é sempre válido (e estou com Final Countdown na cabeça).

    Quanto a mágica, tenho aqui um kit pra revender que comprei pro meu pai uma vez e ele esqueceu, qualquer coisa, tô negociando.

  2. parabéns pelo emprego novo.

    ou por ter perdido a virgindade da boca.

  3. Frank Martins

    Fala Joãozinho. Cara, sensacional seu texto. Cada post que leio aqui, sinto como se você estivesse com uma câmera me obsersando o tempo todo. Como sei que não está. Ou está? Bem, pelo menos vejo que não sou o único a passar por esses problemas e situação com essa garota chamada vida. Grande abraço.

  4. JuninhO

    Cara, quanto tempo sem ler um texto seu e sem conversarmos! Vê se aparece ou posta mais!

  5. Fernando de Laurentiis

    Falaí meu caro… menage pra mim só vale com duas garotas, nada de 2 caras e sua mina, tá doido???

  6. eu nunca consegui fazer nenhum truquezinho de mágica direito. acho que é por isso que eu gosto tanto e acho tão… mágico! hahaha.

  7. Carolina

    Tinha tempo que eu não vinha aqui, mas hoje senti saudades de um bom texto, com conteúdo e numa fase recém solteira me vejo voltando a esses jogos incríveis de ensaiar na cabeça uma cena, ver tudo sair diferente e me perguntar de devia estar mais preparada (roupa nova, inclusive). Seu blog é fantástico, cara, parabéns!

  8. Essa garota chamada vida é simplesmente complexa. E esse texto é simplesmente maravilhoso.

  9. ana tereza

    Lindo João!

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