Do conhecido enquanto ferramenta de estranhamento e reconhecimento social (ou apenas: “Alfacinha”)

new-girl-2x13-robby-schmidt-cap-15

Como qualquer um dos 7 usuários do google + poderia apontar, nossa vida social é composta basicamente por círculos, cada um deles diretamente relacionado ao nível de intimidade e ao volume de características que compartilhamos com seus membros. Com familiares dividimos material genético, alguns traços físicos e um acordo tácito de nunca perguntar como o tio Alfredo ganha o dinheiro dele. Com amigos compartilhamos interesses, visões de mundo e histórias desagradáveis sobre aquela vez em que alguém se alimentou apenas com frolic durante dois dias e nem era aquele com vitaminas. Com colegas de trabalho compartilhamos uma fonte de renda, uma copa e um clima de hostilidade constante derivado da total dedicação deles a foder com a sua vida. Mas esse sou eu, que não tenho uma relação legal com o meu trabalho. Não vou generalizar.

O principal traço em comum entre você e todas essas pessoas é basicamente esse: vocês compartilham algo. Seja pela proximidade voluntária de uma amizade, seja pela proximidade obrigatória de um trabalho, seja pela proximidade familiar causada pela chantagem emocional feita pela sua mãe, esses são grupos com os quais você, pela convivência e pela intimidade, já criou uma linguagem específica, um léxico próprio, um grupo de regras que te permite uma coexistência mais ou menos pacífica dentro de termos mais ou menos específicos. Você sabe que não pode falar de maconha na frente do seu avô, sabe que se a Selma da contabilidade for no churrasco vai precisar ter fanta uva, sabe que o Felipe realmente se refere a atividade sexual como “dar uma fincada” e por isso você precisa ter um briefing com ele antes de trazer qualquer pessoa nova pro grupo pra evitar mal-entendidos e situações desagradáveis.

E exatamente por isso os amigos, familiares e colegas representam a nossa zona de conforto. Porque eles estão incluídos na nossa linguagem conhecida, no nosso dicionário pessoal de sentidos, do nosso mini-mundo povoado pelos hábitos que conhecemos, pelas gírias que entendemos, pelas posições que compartilhamos. Mas ao mesmo tempo em que nos oferecem o conforto do conhecido e a satisfação da piada interna (“conta aquela do pato necrófilo de novo, a Vivian não conhece”), o parente, o amigo e o conhecido oferecem um risco muitas vezes subestimado, o da convivência viciada.

Isso porque quando nos cercamos apenas do que é familiar, do habitual, acabamos reforçando exatamente as posições que já conhecemos, as tradições que já partilhamos, às vezes ao ponto de até mesmo esquecer que existem posições e tradições diferentes. E é exatamente aí que entra em ação esse verdadeiro termômetro social que é “o conhecido”.

Sim, o conhecido, que apesar do que o nome diz é quase sempre alguém que você não realmente “conhece”, mas com o qual apenas tem uma ligação tênue e possivelmente colateral – o namorado da amiga, o funcionário da outra gerência, a garota do seu lado no elevador – exerce a função cotidiana de não apenas nos lembrar que existem outros pontos de vista, outros hábitos, outras visões de mundo, como também que, por mais que achemos que a visão do nosso grupo é dominante ou geral, ela pode muitas vezes ser apenas mais uma no meio de muitas ou mesmo ir total e completamente contra a visão corrente da sociedade ou qualquer definição básica de bom senso – eu já mencionei a história do frolic, certo?

Afinal, é no trato com o conhecido que descobrimos que aquela piada era na verdade racista, que aquela camiseta não era tão engraçada, que aquele tapa no ombro não era uma forma socialmente aceitável de cumprimentar mulheres. É no atrito com esse mundo diferente, com esse background discrepante, que entendemos as limitações das nossas linhas de pensamento, a pluralidade possível e o fato de que piadinhas do tipo “ah, isso é comida de cavalo” tem bem menos graça quando você está sentado numa mesa com um vegetariano e ele vai ficar te olhando com desprezo durante o resto da refeição.

E possivelmente por isso, tão importante quanto a convivência com as pessoas do nosso círculo, aquelas que nos conhecem, nos entendem e nos ajudam a formar as nossas opiniões através da troca direta de ideias é a interação com os desconhecidos, que nos fazem repensar conceitos, entender diferenças e colocar em cheque as nossa visões de mundo já cristalizadas. Ou apenas, é claro, nos levam a passar por situações constrangedoras pra cacete em restaurantes self-service. Sério, eu não deveria ter feito aquela piada. Não era ideia. Foi vacilo mesmo.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, situações limite, Vida Pessoal, vida profissional

5 Respostas para “Do conhecido enquanto ferramenta de estranhamento e reconhecimento social (ou apenas: “Alfacinha”)

  1. fazer piadas sobre comida vegetaria no trabalho é bem pior

  2. Eu não faço todas essas reflexões quando interajo com desconhecidos, o que é constante. Eu apenas me adapto a cada interação de formas diferentes. Mas às vezes as interações são meio fail, mesmo hehehe

  3. Esses comedores de comida de cavalo são todos uns frescos…

  4. ThiagoFC

    Começo a fica preocupado comigo quando vejo que cada vez mais me sinto contemplado quando outras pessoas reclamam da própria vida profissional.

    E piada de necrofilia eu só conhecia a da lésbica, essa do pato é novidade. Como é?

  5. Guilherme

    Excelente texto cara. Muito bom mesmo.

    E sim, o Horário realmente tem cara de que usaria bem uma pólo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s