Sobre a política folclórica, as campanhas conceituais e vereadores de 3 segundos

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Acho que ninguém realmente acredita que o horário político ou mesmo as campanhas eleitorais funcionem pra informar um eleitor. Aquelas vinhetas rápidas, aquelas musiquinhas, aqueles candidatos que piscam na sua tela por 3 segundos gritando um número que você não vai guardar, aqueles ex-participantes de reality show dos quais você lembra vagamente mas que pedem que você deixe o futuro da sua cidade nas mãos deles, aqueles comediantes pedindo seu voto de protesto como se ele não fosse receber o salário integral do cargo, você protestando ou não. Aquilo de sempre.

Mas acho que mesmo assim, mesmo entendendo a vacuidade do processo e  sabendo que ele é repleto de falhas e não cumpre o que se esperaria de mais básico dele, eu sempre tive aquela tolerância distraída de quem  não pensa muito sobre o assunto, mais ou menos aquela que a gente dedica aos documentários sobre maus-tratos a animais e as campanhas sobre as guerras na África. Pensamos que é um mundo sujo, que as coisas são erradas, mas mantemos apenas a desolação padrão que se espera de nós, sem realmente aprofundar seja a reflexão ou a indignação. E era assim que eu provavelmente iria tratar essa eleição até me deparar com um cartaz de um vereador aqui no Rio cujo grande mote de campanha é “contra a pedofilia”.

Sim, contra a pedofilia. Não a favor de penas mais pesadas para os pedófilos, não a favor de um registro nacional de criminosos sexuais, não defendendo programas que ajudem as vítimas a lidar com seus traumas, algo assim. Apenas o vago “contra a pedofilia”, visando capitalizar em cima de uma das únicas questões sem nuances que a nossa sociedade pode oferecer (quem seria a favor da pedofilia?) e usar uma frase de ordem para substituir o que deveria ser algum tipo de projeto, plataforma ou ao menos proposta de governo. E possivelmente foi só aí que eu realmente consegui me dar conta da total e completa aleatoriedade conceitual do processo eleitoral do qual fazemos parte.

Tudo começa com os candidatos aos cargos mais baixos que, não tendo espaço midiático para uma divulgação mais ampla de qualquer proposta política tem como única opção se ater a frases vagas, óbvias e vazias (“contra a corrupção”, “contra o preconceito”, “contra as topadas de joelho em quinas de móveis”),buscar a aceitação absurdamente específica de algum nicho de eleitores a que são ligados (“a favor dos carteiros”, “a favor dos aposentados”, “a favor dos carteiros aposentados chamados Rabelo que podem ou não ter ficado com a Selma na gafieira na quinta mas que precisam do seu perdão, Amanda, volta pra mim”) ou mesmo apelar para o pitoresco visando ser lembrados (“vote Serjão, o cara que estava fantasiado de palhaço com um peixe na boca andando de monociclo”).

Já no caso dos candidatos de cargos mais altos, que teriam mais espaço, a vacuidade conceitual acaba tomando outro rumo, que é o do personalismo. Desafiados a ocupar um espaço de dez minutos os candidatos preferem, ao invés de aprofundar propostas ou demonstrar a viabilidade de conceitos, investir na construção da personalidade e da imagem, gerando campanhas que gastam 5 segundos explicando como serão gerados milhões de empregos (“geraremos milhões de empregos aquecendo a economia”) mas podem dedicar 5 minutos a uma extensiva análise de sua vida pregressa nos tempos de colégio (“e serginho, nessa época um dos melhores alunos, também foi seis vezes campeão interclasse de handebol misto até perder a final em 78 para o time de alicia gomes. aquela gorda maldita. vai se foder, alicia.”).

E com isso, ficamos posicionados num ambiente de vale tudismo conceitual óbvio, já que não apenas uma pessoa pode se candidatar sem ter absolutamente nenhuma proposta, já que isso não será necessariamente cobrado, como também ficamos viciados em discutir as questões que são consideradas mais “polêmicas” mas que não são necessariamente mais relevantes – note a propensão natural de todos para discutir mais acaloradamente questões do tipo “a mulher dele fez um aborto” ou “ele disse que quer uma igreja em cada rua” do que “ele garantiu que vai reduzir as taxas” ou “ele se comprometeu a aumentar em x% os investimentos em educação”. Na verdade chegamos a um ponto em que não apenas não produzimos uma discussão real sobre política como muitos de nós nem saberíamos por onde começar (pontuo que “imagina na copa” ainda não é uma posição política, por mais que pareça).

Num ambiente assim, em que informações relevantes para escolher um político não são oferecidas e sim precisam ser escavadas com cuidado pelos eleitores – ter como proposta de governo “acabar com a violência” é tão vago quanto uma mensagem erótica dizendo “eu vou comer você. de alguma maneira. bem boa” – pra que ainda serviria então, em termos informativos, todo esse horário político, todas essas campanhas, todos esses cartazes, todas essas musiquinhas? Possivelmente pra nada. Possivelmente pra manter funcionando algumas agências de publicidade. Ou possivelmente porque muita gente leva vantagem em um mundo em que não podemos comparar propostas, não temos acesso a projetos e realmente achamos que é um voto de protesto quando você elege um ex-integrante da praça é nossa cuja grande virtude era gastar 15 minutos pra contar uma piada bacana de salão (“cazalbeeeeeeeeeeeerto, meu filho”).

Fica aqui então a minha tristeza pela morte do cara que fazia a velha surda. Eu toparia demais ser suplente dele em qualquer eleição pra vereador por aí.

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2 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Gente bizarra, Rio, situações limite

2 Respostas para “Sobre a política folclórica, as campanhas conceituais e vereadores de 3 segundos

  1. Verdade, Jane. Concordo com o que você falou, aí.

  2. Realmente é complicado este assunto.
    Me vejo vez ou outra me perguntando se a galera esta se alienando pq não acredita mais, ou se já esta alienada.
    Não sei se acontece com vocês, mas eu toda vez que tento inciar uma conversa seja ela com viés polítoco, vejo todos os meus amigos fazerem de tudo para mudar o assunto.

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