Grande mito lendário da masculinidade #56

it crowd

A história quase sempre é contada num bar, boteco ou churrasco, ali por aquela altura em que o volume de álcool consumido já foi alto o bastante para maximizar amizades, potencializar vínculos, gerar promessas de mudanças de vida e ao menos seis gritos de “porra, cara, a gente precisa se ver mais” mas ainda não atingiu o nível necessário pros abraços emocionados, as versões chorosas de canções sertanejas e as revelações de caráter duvidoso – “assim, não que eu seja gay, mas se eu fosse, sabe? se eu fosse, e tivesse que me vestir de mulher, tipo, sendo obrigado mesmo, eu me chamaria etyenne. com y. acho bonito, não sei”.

A fonte tem sempre uma relação indefinível e vaga com o protagonista, como sói acontecer em todos os mitos urbanos de tradição oral. Às vezes é o primo de um amigo, de vez em quando é o chegado de um colega de serviço, de vez em quando é o cunhado de um cara que jogava bola com você em humaitá, não sei se você lembra, era o da cabeça raspada, o que foi pra belém por causa do trabalho, não sei como você não tá lembrando. Quase sempre a trama começa numa despedida de solteiro de um outro amigo, também desconhecido.

Dependendo de quem contar a festa pode ser num apartamento, num motel, numa boate, num inferninho, num sítio, numa piscina,em Guantánamo. Sempre existem strippers, numa quantidade que vai variando de acordo com a escala da trama, se intimista ou hollywoodyana, indo desde uma até uma dúzia. Outros detalhes envolvidos que quase sempre ficam a critério do narrador envolvem a presença de drogas, um mastro de pole dance, uma possível invasão policial e o fato de alguém ter levado pra festa um jumento – ressalto que a presença do animal pode aumentar ou diminuir o nível de credibilidade da história, dependendo da relação que o ouvinte tem com as comédias que o Tom Hanks fez na década de 80.

O protagonista da história, um dos convidados da festa, começa a conversar com uma das garotas de programa envolvidas no evento e os dois chegam a um acordo para a prática do desporto bretão remunerado, naquele esquema que o cantor Zé Augusto chamou de “beijo por beijo, sonho por sonho, carinho por amor, uma hora por 200 reais”. Se trancam no quarto, somem. No dia seguinte o protagonista ressurge entre seus amigos com uma novidade bombástica: naquela noite ele não teve que pagar.

Exatamente, ele não teve que pagar. Mesmo indo pra cama com uma pessoa que faz do sexo a sua fonte de renda, ele conseguiu praticar o uma interação carnal tão gostosa, uma cópula tão bacana, um carinho tão gostoso e um amor tão venenoso que a profissional não apenas se recusou a cobrar como ainda marcou um novo encontro, sedenta por mais daquele corpo sensual.

Quando a história termina alguns retrucam, é claro. Vários dizem que isso não faz sentido, que aquelas pessoas são profissionais e nunca fariam isso, que é como se o seu mecânico gostasse tanto do seu carro que fizesse revisão de graça, o seu mestre de obras achasse sua casa tão bacana que reformasse na amizade. Outros dizem que já ouviram uma história desse tipo, que já aconteceu com um primo ou um colega. Pelo menos um ri de forma misteriosa e tenta dar a entender, sem dizer claramente, que essas coisas não apenas são reais como já aconteceram com ele.

Alguém levanta a bola de que isso deve ser o auge da atuação sexual masculina – se você faz de graça um sexo que deveria ser pago você está de uma certa forma sendo pago para fazer sexo – um outro pontua que a prostituição é uma questão complicada, que não podemos fetichizar, que de uma certa forma é um trabalho como qualquer outro, que estamos desumanizando as mulheres.

Você, algumas horas depois, já em casa, se pega acordado no meio da noite e começa a digitar um sms pra sua namorada perguntando quanto ela pagaria pra dormir com você. Aí lembra que são duas horas da manhã e acaba não mandando. Mas antes de pegar no sono um pensamento ainda persiste. “Ah, pelo menos uns 100 reais, certo? Eu até emagreci, ela não poderia dizer menos do que isso”.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, crise de meia meia idade, teorias

5 Respostas para “Grande mito lendário da masculinidade #56

  1. Breno

    Grandes questionamentos da vida masculina.
    Esse é o tipo de história que sempre rola nas conversas.

  2. 100% real.

    Confesso que nos últimos dias ouvi três ou quatro dessas.

  3. Rene

    A parte do jumento lembrou de “Clerks 2″(sempre pergunte os nomes,sempre perguntes os nomes Renê),tive que recordar um pouco pra lembrar do filme despedida de solteiro…grande atuação do american ninja.

  4. por coincidência, esses dias li um texto sobre uma linda mulher em um blog qualquer e o tal do cara que escreveu o post começava dizendo que uma linda mulher é a tradução do desejo íntimo de toda mulher. quer dizer, para o tal do cara que escreveu o post o desejo íntimo de toda mulher é ser uma prostituta que encontra um cara rico que a banque pro resto da vida. assim, ele queria falar de romance, mas escolheu as palavras erradas para o filme errado, não?! porque, pelamor, né.

  5. “o eterno receio de que se você fizesse uma sextape ela apareceria no xvideos na categoria “chubby” morri

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s