Sobre perspectiva histórica, guerras mundiais, pintadas no olho e resenhas alternativas

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Uma das coisas mais fascinantes em relação ao processo histórico é o fato de que ele é profundamente dependente de uma perspectiva posterior, já que no momento exato da sua construção a história é praticamente imperceptível. O cara que estava na caverna ao lado do primeiro homem a descobrir o fogo pode ter achado aquilo apenas uma luz incômoda, os primeiros a ouvirem uma sinfonia de Beethoven podem ter considerado o garoto bem meia-boca e pelo menos um cara deve ter participado da queda da bastilha apenas porque não gostava de usar coletes (“culotes? era de culotes que vocês estavam falando?! vocês são foda, galera”).

E muito por causa disso, pela impossibilidade de obter esse nível de perspectiva dos fatos enquanto eles estão efetivamente transcorrendo, além de que, é claro, revoluções, guerras mundiais e o nascimento de compositores clássicos na região da renânia do norte foram se tornando menos comuns com o tempo, podemos acabar tendo a percepção geral de que vivemos num período sem grandes feitos históricos, sem grandes eventos significativos.

Afinal, por essa perspectiva um homem que viveu na Alemanha entre 1900 e 1950, por exemplo, teve a oportunidade de ver duas guerras mundiais, seguidas crises econômicas, diversos sistemas de governo, profundas alterações geopolíticas e desperdiçar diversos mapas, se ele porventura gostasse muito de geografia. Ele pode ter lutado em conflitos armados, ele pode ter mudado de nacionalidade, ele pode ter mudado de moeda, ele pode ter visto a morte, a pobreza, o caos, a violência, tudo isso em primeira mão diante dos olhos dele. Já um homem nascido em 1990, por exemplo, muito provavelmente não vai ver nenhum grande conflito armado em escala global e se tiver nascido em certas partes do planeta nem mesmo irá lidar com qualquer significativa mudança econômica, política ou social, se limitando apenas a conhecer uns 30 modelos de iphone, um provavelmente mais alongado que o outro, até ficar parecendo um bastão, o que vai ser engraçado mas provavelmente pouco prático.

Esse pensamento é, claro, fruto direto dessa falta de perspectiva e da impossibilidade da percepção da história enquanto ela está sendo construída, já que não dá pra saber se aquele maluco gritando em cima de um caixote é um futuro ditador, se aquela banda no aterro são os futuros Beatles ou se aquela briga depois da pelada no leme vai ser lembrado como o estopim pro começo da terceira guerra mundial – também conhecida como “Grande batalha do foi pênalti, não foi?!”.

Ainda assim, mesmo sabendo que é tudo uma questão de perspectiva, realmente às vezes temos a sensação de viver em tempos parados e a ideia de que não vivemos quase nada, de que não testemunhamos grandes momentos, de que não tivemos experiência significativas. Em suma, de que vamos morrer como pessoas que viram muito pouco.

E exatamente por isso eu gostaria de agradecer a Srdjan Spasojevic, Aleksandar Radivojevic e Srdjan Spasojevic, responsáveis pela direção e roteiro dessa obra chamada A Serbian Film. Afinal, depois de ver um cara matando o outro com um golpe de pênis no meio do olho eu posso falar, sem sombra de dúvidas que, independente do que acontecer na minha vida de agora em diante, mesmo que o mundo continue para sempre exatamente como está, que eu passe o resto dos meus dias em casa sem experimentar um susto, um sobressalto, uma mudança, eu,  aos 27 anos, já sou um homem que viu muito mais coisas do que gostaria de ter visto. Sério, valeu mesmo.

Adendo #1: informo preventivamente que de forma alguma recomendo para nenhum de vocês o filme acima mencionado, já que ele não apenas envolve temas chocantes e profundamente repulsivos como também tem atuações horríveis, um roteiro que não faz sentido e um vilão que lembra demais o cara que fazia o Raj naquela novela Caminho das Índias.

Adendo #2:  se mesmo assim algum de vocês resolver assistir, depois me digam se isso não ficaria muito louco num remake chamado “Um filme brasileiro” em que o papel do Milos fosse feito pelo Alexandre Frota.

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5 Comentários

Arquivado em cinema, Movie Review, teorias

5 Respostas para “Sobre perspectiva histórica, guerras mundiais, pintadas no olho e resenhas alternativas

  1. João, eu vi o trailer. Como você consegue?

  2. Manu

    Jão, o filme é até proibido no Brasil… Aff…

  3. Marília N.

    Porra, João.

  4. Mothaflocka

    Quando eu vi “Pintadas no olho” eu pensei de primeira:

    “Não. Não, não. É só a minha mente suja atacando denovo. Não faz nem sentido. Deve ser pintada de pintar, tipo quando passam maquiagem.”

    Depois de ler o texto, parece que minha mente suja estava certa mesmo.

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