Os 378 hábitos das pessoas extremamente irritantes – #19: Indiretas em voz alta

Aconteceu duas vezes só essa semana. Na primeira eu estava sentado num bar, com uns amigos, vendo o jogo do Botafogo e descobri que, por alguma razão neurológica que eu possivelmente nunca vou conseguir explicar, eu acho Seedorf uma palavra muito bacana pra se gritar.  “Seeeeedorf”. Ele pegava na bola eu gritava “Seeeedorf”, ele chutava e eu gritava “Seeedoorf”, ele era substituído e eu gritava “Seeeedorf”, o Elkeson errava um chute eu gritava “Seeedorf…não teria perdido esse, mas o Elkeson na frente é foda, o que fazer?”. E após um certo tempo de “Seeeedorf” e da minha empolgação com o nome “Seeeedorf” ser anabolizada pela ingestão de cerveja, comecei a notar uma senhora na mesa ao lado dizendo, num volume tão alto quanto os meus “Seeeeedorf”, que “algumas pessoas não se tocavam”, “tem gente que adora ser inconveniente”, “as pessoas precisam aprender a ver futebol sem gritar”, tudo isso sem em nenhum instante se dirigir a mim, mas sempre usando um tom de voz muito mais alto do que o necessário para se comunicar com seu interlocutor no banco ao lado.

Na segunda eu estava num ônibus aqui no centro. O metrô estava fechado, o caos instituído, o darwinismo se sobrepondo à constituição e a encoxada eleita como meio primordial de comunicação não verbal. Avistando um ônibus para o Largo do Machado, me lancei instintivamente para dentro, paguei minha passagem, achei esse santo graal que é o lugar pra sentar no fundão e, munido de meus fones de ouvido, me dispus a escutar algumas simpáticas canções e me abstrair do trajeto durante a viagem. Projeto esse que teria dado certo não fosse a interrupção de duas garotas que subitamente apareceram de pé ao lado de meu banco e foram percebidas por mim assim que começaram a trocar frases do tipo “nossa, o cavalheirismo realmente morreu, né?”, “puxa, como eu estou cansada e gostaria de sentar”, “seria tão legal se as pessoas ainda cedessem lugar, né?”, também naquele tom mais alto do que o necessário, de quem não está falando com a pessoa ao lado e sim com uma terceira pessoa que não se está disposto a nomear, possivelmente Lorde Voldemort.

E ainda que nos dois casos eu sinceramente compreenda a minha parcela de culpa – definitivamente não gosto de importunar ninguém e realmente acho que é civilizado ceder seu lugar para alguém que está carregando mais peso ou que está numa situação mais incômoda, seja ela qual for – o que me incomoda é a incapacidade de algumas pessoas de, diante de uma situação de insatisfação ou discordância apenas chegar e, de forma direta e clara, expor essa situação e dar ao outro uma oportunidade de corrigir aquele problema, considerando mais prático se referir ao assunto de forma velada através de declarações vagas que podem ou não ter relação com o problema que você está causando .

Afinal, além da infantilidade óbvia inerente ao assunto, já que num mundo ideal indiretas seriam permitidas apenas para adolescentes, adultos no twitter e roteiros de séries cômicas nas quais acontecem desencontros românticos que nos ensinam valiosas lições sobre sentimentos e comunicação, existe sempre algo de muito errado no conceito de pessoas adultas que, num contexto totalmente não-amigável e que envolve apenas desconhecidos, preferem usar de subterfúgios e artimanhas e torcer para uma compreensão da outra parte ao invés de adotar uma comunicação prática e direta, mesmo que essa decisão gere prejuízos claros e torne mais complexos ou sem solução conflitos que poderiam ser facilmente resolvidos – “tem gente que realmente não nota quanto tá dando ré com o carro em cima do pé de outra pessoa, é complicado”.

Então fica aqui o meu apelo sincero a todos pelo fim da indireta em voz alta. Está incomodado, está chateado? Fale, reclame, abra seu coração. Está incomodado, está chateado, mas não quer necessariamente falar com a pessoa? Apenas aceite a sua situação, abandone o recinto ou entre em contato com Celso Russomano. Mas entenda que a indireta em voz alta não apenas não resolve e pode até mesmo aumentar o problema como nunca é a saída mais adulta diante desse tipo de situação e nisso eu incluo até mesmo a possibilidade de atirar amendoins na pessoa, o que ao menos permitiria que ela tivesse certeza de que é mesmo ela que está gerando o incômodo. Vamos refletir sobre isso, sociedade. E em tempo: “Seeeedorf”. Sério, é um ótimo nome, vocês deveriam tentar.

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13 Comentários

Arquivado em Gente bizarra, referências, situações limite, teorias

13 Respostas para “Os 378 hábitos das pessoas extremamente irritantes – #19: Indiretas em voz alta

  1. Lucas

    me diz que tu não cedeu o lugar pra essas escrotas, por favor.

    • joão baldi jr.

      Lucas, eu cedi. Sou muito impressionável e não aguento gente resmungando perto de mim, então apenas levantei e fui pro meio do ônibus. Fraco, eu sei, eu sei;

  2. Paulo Torres

    Eram gatinhas, as duas garotas?

    • joão baldi jr.

      Não que eu lembre, cara. Mas a vantagem de estar namorando é que te permite ter essa visão mais igualitária e universal do mundo, sabe? Ou seja, gatinha ou feia, tô pegando o banco do ônibus sem pensar.

  3. Ronaldo Milani

    muito bom o texto, mas realmente tem pessoas que não se tocam, provavelmente porque acreditam que seja pecado. (ba dum tsshhh)

  4. ThiagoFC

    Você é um cara muito gente boa para assumir “parcela de culpa”, principalmente quando você não tem culpa nenhuma. Vou bancar seu advogado agora, começando pelo final.
    As garotas (como você disse garotas, vou supor que não eram mulheres idosas) estavam carregando peso, ou com crianças pequenas a tiracolo? Caso a resposta seja não: o feminismo queimou muito sutiã para obter direitos iguais, certo? Se os direitos são iguais, você tem tanto direito a ficar sentado quanto uma jovem fêmea em idade de população economicamente ativa que não seja gestante, lactante ou esteja carregando as compras do mês no ônibus.
    Sobre o caso do Seeeedorf (virou botafoguense agora?), eu sinceramente acho que se uma pessoa vai, em dia de jogo, a um bar onde seja hábito ver futebol pela tv, e tem a desfaçatez de afirmar que “as pessoas precisam aprender a ver futebol sem gritar”, olha, véi, na boa: essa pessoa tem mais é que tomar no meio do cu.

    • joão baldi jr.

      Seeeeedorf!

      • ThiagoFC

        No café da manhã de hoje, tentei jogar esse papo de “o feminismo queimou muito sutiã pra ter direitos iguais” pra cima da minha esposa. Não colou.

    • “Sobre o caso do Seeeedorf (virou botafoguense agora?), eu sinceramente acho que se uma pessoa vai, em dia de jogo, a um bar onde seja hábito ver futebol pela tv, e tem a desfaçatez de afirmar que “as pessoas precisam aprender a ver futebol sem gritar”, olha, véi, na boa: essa pessoa tem mais é que tomar no meio do cu.” –>> ♥

      E digo mais! Reparei que ele falou “uma senhora”… mano, o que uma SENHORA estava fazendo num bar em dia de jogo? devia estar fazendo tricô! :P

  5. Tinha uma guria no 2° ano que sempre mandava indiretas pra mim. Eu sempre perguntava: “Você tá falando comigo?” “Tou falando pra quem quiser ouvir”, ela respondia. Tosco, né.

    O problema de ser direto é que você nunca sabe como a pessoa pode reagir. No caso de você estar gritando, por exemplo. Você poderia ser daqueles caras esquentados que vão pra cima do outro, louco pra caçar uma briga. Podia ir pra sua casa, pegar sua arma, voltar ao bar e matar a mulher. Hahahahaha sério, isso acontece.

    E uma vez eu estava no metrô com meus pais e meu pai tava lendo um cartaz e um bêbado achou que meu pai tava encarando ele. Aí o bêbado levantou e foi tirar satisfação com meu pai. “Não, não, eu tava olhando o cartaz…” e minha mãe fez meu pai olhar pro chão o resto da viagem… nem sei se tem a ver com o texto, mas enfim.

  6. Mothaflocka

    Cara, é como você disse, essa da indireta é tão ruim mas tão ruim que pra mim a situação até mesmo se inverte;

    Se eu vejo uma mulher quieta no canto dela, apenas desejando em seus sonhos mais molhados (?) um lugar pra sentar no busão lotado, eu faço extrema questão de me levantar e deixar ela se sentar.

    Agora se vem mulheres que nem essas e dizem esse negócio do cavalheirismo já ter morrido (aliás, já falaram isso comigo tbm, NUMA FILA, ou sejE, simplesmente porque ela estava ATRÁS DE MIM.), eu faço questão é de me acomodar em meu banco e, no seu caso, aumentar o volume do meu fone e se for mais cara de pau ainda faço isso tudo olhando pra cara delas.

  7. eu finjo que estou dormindo. e quando a pessoa começa a encostar pra incomodar, eu empurro mesmo, numa boa, faço cara feia e pergunto se está com algum problema. simples e honesta.

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