Recentes adendos ao pequeno dicionário de frustrações cognitivas

benwyat

#a empolgação não contagiante – e você descobriu algum seriado/livro/filme e ele é espetacular. é a série que superará sopranos, é o livro que te fez achar guerra e paz uma bula de remédio, é o filme que fez cidadão kane pagar comédia. e você está absolutamente empolgado, desproporcionalmente fascinado, anormalmente intoxicado de alegria, de maneira que você gostaria de dormir com aquele livro, casar com aquele filme, oferecer orgasmos múltiplos para aquele box de dvd sem nem mesmo precisar daqueles 20 minutinhos dormindo no meio porque ninguém é de ferro e você fica todo suado também então daí é sempre bacana tomar um banho. e claro, você também quer espalhar essa boa nova para o máximo de pessoas possível, sejam eles amigos, familiares, colegas de trabalho ou apenas estranhos que porventura tiverem mantido contato visual contigo no metrô por mais de 3 segundos.

mas aí você vai tentar descrever a série e por um misto de empolgação, baixa capacidade para se expressar de forma clara e uso excessivo e caótico de interrogações, o que sai é “então, é muito foda, é sobre cowboys no espaço, sabe? tem cavalos e eles falam chinês e eles traficam carga e tem o cara que faz castle e pô, é no espaço. e tem aquela mina do seriado do exterminador do futuro, mas essa série era meio ruim, mas é do diretor de buffy, você gostou de vingadores, certo?e tem o pirata daquele filme de queimada com o ben stiller, acho esse cara foda, você precisa ver essa série. no espaço”. e aí sua namorada não apenas decide que nunca vai ver firefly porque é um globo rural futurista [no espaço] como te pergunta se você não devia maneirar no café. mas você nem bebe café, é foda a vida.

#a necessidade de se justificar para estranhos – começa como um recurso defensivo de uma mente levemente neurótica e treinada para pensar sempre no pior – “estou comprando um gorro, vão pensar que eu vou cometer algum crime, vou dizer pro vendedor algo como ‘hahaha, estou comprando esse gorro mas não vou cometer crimes, hein?’-  e com o tempo se transforma num péssimo hábito que te leva a constantemente, e sem a necessidade de nenhum tipo de pressão, oferecer a estranhos, nas mais diversas situações, informações totalmente desnecessárias sobre a sua vida. você não sai mais cedo do trabalho, você sai mais cedo porque precisa passar no médico pra ver o joelho machucado; você não recusa o cinema porque tem outro compromisso, você recusa o cinema porque tem esse problema de quando fala ao telefone com a sua mãe ir só concordando com tudo que ela diz e sem saber acabou aceitando ir com ela num show do oswaldo montenegro e agora baixou um cd dele ao vivo pra pelo menos conhecer as canções mais novas e tal. chato não poder cantar junto.

e isso vai acontecendo sistematicamente na sua vida, com justificativas pro guardinha na praia (“eu não fiz nada de errado, eu apenas tenho receio de policiais”), pro cobrador do ônibus (“eu tô te dando essa de vinte porque não tive tempo pra conseguir trocado”), pro síndico do prédio (“a torneira quebrou mas não foi culpa minha”) até chegar no fatídico dia em que você vai no pão de açúcar no meio da madrugada pra comprar umas coisas que faltaram pra pizza e uns itens pra pipoca de amanhã e nota que chegou na frente do caixa segurando apenas um salame inteiro e um pote grande de margarina. é foda a vida.

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14 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, séries canceladas, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

14 Respostas para “Recentes adendos ao pequeno dicionário de frustrações cognitivas

  1. Isso me lembrou que preciso ver o segundo episódio de Firefly e ver se realmente vou gostar. A crise é a mesma! hahaha

  2. Marcus

    Muito bom. Essa situação de não conseguir descrever uma série, livro ou filme já me aconteceu várias vezes.

  3. Paulo Torres

    Aquela série com cowboys no espaço que tem o Steve the Pirate, o cara do filme de queimada do Ben Stiller que é sósia do Murilo do Vôlei. Não que eu seja fã do Murilo do vôlei, só assisto vôlei nas olimpíadas, e só se não tiver futebol nem MMA no mesmo horário. E não, ver dois marmanjos se atracando no chão não tem nehuma conotação sexual pra mim, nunca nem pensei nisso.

  4. Mas e aí, você se explicou pro cara u a situação era auto-explicativa?

    E eu me divirto dom as suas tags. “você e o salame são apenas bons amigos”

    Foda,cara!

  5. Fernando

    Falaí mano, vou baixar esse Firefly, já não é a 1a vez q vc fala dele… vamos ver se é bão mesmo… pelo menos no quesito música, qdo vc falou do Weezer, mandou bem!
    Abs

  6. Lucas

    segurando apenas um salame inteiro e um pote grande de margarina

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH NESSE CASO VALE SE JUSTIFICAR

  7. ThiagoFC

    A série do Exterminador do Futuro não era grandes coisas? Pô, um amigo disse que era legal. Agora fico na dúvida se arrisco ou não. Ah, e a Sarah Connor dessa série é a mesma atriz que faz a Cersei Lannister em Game of Thrones? Aliás, eu já falei o quanto eu acho Game of Thrones legal? Muita embora os produtores tenham feito muitas merdas na 2ª temporada. Mas os livros são muito bons! Enfim, se dependesse de mim, Game of Thrones e Sobrenatural não conquistariam muitos fãs, visto que eu também tenho esse lance de empolgação não contagiante. Quer dizer, apresentei as duas séries à minha irmã, e ela também virou mó fãnzona.

    Divagação pouca é bobagem (mas se alguém passar a gostar de Game of Thrones ou Sobrenatural por conta disso, terá valido à pena).

  8. Rainer

    Eu tenho a mesma coisa desse negócio da empolgação não contagiante, mas o negócio é pior ainda:

    Em adição á isso quando eu gosto tanto mas tanto de algo, eu tenho que mostrar cada detalhe e cada episódio daquela série pra todo mundo, e ai vem o “convite ocasional pra assistir também”. Eu não chamo alguém pra vir assistir diretamente, “acontece” de eu estar assistindo um episódio/cena em especial bem na hora que a pessoa vem fazer algo, ou eu apareço bem quando a pessoa está bem em frente á televisão fazendo outra coisa e boto o episodio pra assistir ali, só pra convidar a pessoa a assistir também sem realmente convidar e parecer importuno.

  9. História da minha vida, já chego nos lugares me justificando.

  10. Eu dou satisfação pra todo mundo hahahahahahahahahahahahaha e quando não falo, eu fico me justificando mentalmente para os fiscais da vida que poderiam, eventualmente, aparecer.

  11. rene

    as desculpas cabeludas parece ter saído do filmes do woody allen.

  12. Marcia P. da Silva

    Firefly é necessário. Tô emocionada de você estar nesse estágio da sua vida.
    Foi a grande razão pra eu ter não um, mas dois casacos marrons no armário.

    Desculpa se atrapalhei alguma coisa. É que eu não dormi, sabe.

  13. “STEEEEVE THE PIRATE!”
    Cheguei num ponto da vida em que dou bronca na minha mãe quando ela pergunta: “mas o que eu vou dizer pra fulana pra justificar por que eu não vou pra igreja hoje?”

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