Sobre a tia dos patins e uma proposta de relativização do estranhamento no ocidente

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No meu prédio tem uma senhora que costuma ficar andando de patins, segurando sacolas e falando sozinha numa língua desconhecida toda noite, ali entre as 20h e 22h, circulando exclusivamente entre a área do portão e da portaria, sempre apoiada na grade e olhando pra tudo e todos com cara de surpresa. No começo eu tentava achar justificativas racionais para aquele comportamento – a violência no rio, a dificuldade inerente ao processo da patinação, o fenômeno de pentecostes no qual o espírito santo desceu nos apóstolos e os caras saíram por aí falando outras línguas, o que pode parecer forçado pra você mas eu fiz crisma e eu também acreditava no teste de fidelidade do joão kléber, então qual o problema, certo? – mas com o passar o tempo e a repetição constante do ritual eu acabei aceitando a realidade de que, como bem considerou um amigo quando ciente do evento, se tratava apenas de uma tia esquisita pra cacete.

E tudo ia bem, naquele nível de estranhamento normal da vida cotidiana que eu sempre reservei pro amigo que fala sozinho, pro colega de trabalho que cuspia no carpete como se fosse grama e pra tia avó que me chamava por um nome de menina quando eu era pequeno – ainda que eu notasse que possivelmente havia ali um certo grau de ironia que eu não captava direito na época –  até uma noite em que, pegando uma correspondência na portaria, eu entreouvi um comentário dessa mesma vizinha dizendo que o cara do 103 era estranho porque chamava a própria namorada de darth vader no telefone. E o cara do 103, como vocês podem imaginar e minha namorada bem sabe, sou eu.

E isso me levou, é claro, não apenas a questionar o meu próprio nível de estranheza pessoal – se a mulher de meia idade que anda de patins sozinha com sacos de pão velho praguejando em esperanto na sua portaria te acha estranho, em que direção a sua vida está indo, amigo ? – quanto também a refletir sobre a minha própria visão do estranho que me cerca, seja entre amigos ou desconhecidos.

Afinal, se eu tenho uma excelente explicação para os dias em que chamei minha namorada de darth vader – ela estava com sono, respirava fundo demais no telefone, fazia um barulho engraçado, começamos a fazer piadas sobre isso, ela começou a construir uma estrela da morte no quintal com uns amigos – não teriam todas as pessoas que eu porventura considero incomuns, esquisitas ou apenas estranhas pra cacete também justificativas plenamente razoáveis para seus comportamentos e qualquer tipo de estranhamento da minha parte seria baseado apenas num amplo desconhecimento dos fatos? Não estaria o mendigo que eu considero falar sozinho apenas segurando um celular muito pequenininho? Não poderia a mulher dos patins estar praticando pra um campeonato de hóquei indoor gradeado com sacolas que meu futebolcentrismo e o descaso da sportv ainda me impede de conhecer? Não estaria aquele antigo colega de colégio que comia cascas de parede apenas ingerindo nutrientes essenciais para uma dieta específica? Não estaria o cara que cuspia no carpete aqui no escritório apenas tentando matar ácaros afogados? [no caso desse último item a resposta é não, ele apenas era meio doido e bem porco mesmo].

E diante disso tudo,ficam apenas duas grandes lições: a primeira é a de que devemos sempre tentar entender melhor o que nos cerca antes de definir nossas opiniões. O que para nós é insanidade, bizarrice ou um possível desvio psicótico pode ser na verdade uma coincidência, uma peculiaridade, ou talvez até mesmo um real desvio psicótico, não podemos dar mole. E a segunda é que nunca, nunca, nunca mesmo, devemos confiar em porteiros. Tipo, o cara super gente boa comigo mas quando a vizinha maluca chega ele se junta com ela pra falar mal de mim? Muito vacilo um lance desses.

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7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Gente bizarra, Rio, situações limite, teorias, Vacilo, Vida Pessoal

7 Respostas para “Sobre a tia dos patins e uma proposta de relativização do estranhamento no ocidente

  1. Naiara Costa

    Terminei de ler o texto e no fim das contas eu só consegui pensar em uma coisa: será que a namorada dele o chama de Padmé ? ou Darth Sidious? ou Obi wan?
    hm…

    • joão baldi jr.

      sinceramente não imaginava que a história do darth vader fosse atrair tanta atenção assim (e comumente minha namorada me chama de bobo, mas acho que é menos um apelido e mais uma constatação)

  2. ThiagoFC

    Sua namorada foi a proponente do relacionamento, usando as palavras “Join me or die”?

    Uma Estrela da Morte pode ser bem persuasiva…

  3. Uma coisa são as inside jokes.

    Já a velha é louca, mesmo.

  4. Muito bom! Sempre morro de rir de seus posts! Abraço.

  5. ana tereza

    Cara vc mora no Rio já deveria ter acostumado com os idosos loucos….aqui eles são mato! Tive um momento com uma senhorinha na entrada do metro de ipanema legendário, depois me lembra de te contar! hahahaha
    E pensando assim ela pelo menos ela conhece o Darth Vader! huahuahuahuahua

  6. Marcia P. da Silva

    Elogio meio misplaced, mas só quero elogiar o desenho novo.
    Estou há meses tentando achar o momento perfeito pra forçar gentilmente meu marido e ver O Cara. E não achar mais estranho a minha procura pelo roupão supremo. E também porque eu fico meio estranha no boliche.

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