Precisamos falar sobre Ted

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Em primeiro lugar temos que lembrar que How I Met Your Mother é uma comédia romântica e comédias românticas, assim como tudo que envolve o romance, são fortemente baseadas num processo de idealização. Assim como a religião consiste em ordenar numa narrativa idealizada e coerente eventos que poderiam tranquilamente ser analisados de forma aleatória e desconexa (macacos, pessoas, vida pós-morte, barulhos estranhos na cozinha, histórias da sua avó sobre um cara cabeludo que andava na água) o romance também trabalha reorganizando de forma narrativa e mais socialmente aceitável eventos que poderiam ser calcados em diretrizes puramente biológicas ou randômicas (atração física, disponibilidade momentânea, consumo excessivo de álcool, tara patológica por pintinhas).

Diante disso a comédia romântica é então a versão mitificada de uma lógica que já é calcada numa narrativa previamente trabalhada, ou seja, a idealização de um processo que, para fazer sentido para nós, já nasce idealizado. Numa comédia romântica o mocinho é esperto como gostaríamos de ser, diz as coisas que gostaríamos de falar, tem a coragem que sentimos que nos falta e por isso consegue o final feliz que achamos que merecemos, sem nunca, em hipótese alguma, passar pelas situações reais que nós passamos, envolvendo erros bobos, enganos mesquinhos ou mesmo crises de hipoglicemia na saída do banho que fizeram sua namorada ter que te ver no chão, semiconsciente, balbuciando coisas sobre o time do Chelsea e que vão te constranger pra vida toda.

Não que a comédia romântica seja completamente dissociada da realidade, claro. Mas ela funciona numa dimensão idealizada e corrigida da realidade, que possui estilo, lógica e regras próprias. Existem conflitos, mas eles sempre são resolvidos, existem erros, mas eles levam a aprendizados e crescimento pessoal, existem finais infelizes mas eles são redimidos por um final feliz maior, por uma lição que visa renovar nossa confiança na felicidade pessoal enquanto objetivo final e nos relacionamentos enquanto caminho para esse objetivo.

E nisso se encaixa HIMYM. Como idealização do romance na nossa geração, a série trazia uma versão romanceada do que seria a busca pelo amor e pelo amadurecimento na cidade grande. O cara romântico buscaria a mulher perfeita, o cara galinha buscaria redenção [e peitinhos], a jovem profissional buscaria equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, o casal buscaria amadurecer sem perder sua identidade e manter uma relação de longa duração que muitos diriam que começou cedo demais. Daquela forma que seriados de tv e comédias românticas tentam fazer, HIMYM queria nos mostrar que o amor era real, que o equilíbrio era possível, e que existe romance, intriga e sentimento o bastante nas nossas vidas de 25/35 anos pra manter uma série durante anos.

Mas então vieram as temporadas mais recentes e bem…as coisas começaram a ficar complicadas. As tramas se tornaram repetitivas, as piadas perderam a graça, os personagens começaram a agir de forma diferente da que nós esperávamos. Mas enquanto pra muitos isso foi um sinal de que os roteiristas perderam a mão, os produtores estragaram a série ou o simples desgaste de um conceito que durou até mais do que deveria, eu acabei lendo nessas recentes temporadas uma verdade muito mais perturbadora e chocante: HIMYM começou a nos irritar por se tornar uma série real demais.

Afinal, na vida real o cara hiper-apegado, hiper-romântico, hiper-propenso a dizer eu te amo na primeira noite não é bonitinho, é chato. O cara patologicamente galinha, capaz de criar um site falso e inventar nomes para pegar uma garota não é saudado com orgulho pelos amigos mas sim orientado a procurar ajuda porque “sério, isso é esquisito, velho. sei que um domínio .com não é tão caro, mas é estranho”. O casal que abandonou os amigos pra tomar conta do filho não descobre isso durante uma bem-humorada intervenção perto do berço mas sim quando o garoto faz 8 anos e eles percebem que não tem mais com quem sair.

No mundo real nossas idas e vindas com ex-namoradas não são vendavais de amor mas sim a repetição impensada de padrões que já sabemos que não funcionam. Os conflitos pessoais dos nossos amigos não são sempre motivo pra discussões engraçadinhas num bar e as vezes são apenas pretexto pra que enquanto eles estão no banheiro, alguém comente “mas meu deus, é um imbecil, não é? ou só eu tô achando isso?”. Nosso amigo que fala o tempo todo sobre o Pé Grande não é um cara interessante e cheio de peculiaridades mas sim um maluco que não consegue mudar de assunto e cujas ligações você começou a evitar porque soube que ele tinha começado a andar com armas na mochila.

E possivelmente é por isso que essas temporadas de HIMYM não estão sendo tão agradáveis pra todos nós, porque elas se tornaram tão chatas, tão irritantes, tão sem sentido quanto diversos momentos das nossas vidas e não era isso que nós esperávamos de uma comédia romântica. Porque quando nós vemos a vida real refletida numa série sem a magia da ficção começamos a achar bem menos provável que o mundo real imite a arte e mais aceitável que a mãe daquelas crianças seja alguma stripper que o Ted conheceu enquanto estava bêbado na frente de um bar ali no baixo Gávea. E eu vou apenas desistir dessa vida na hora em que um amigo meu estiver num bar beijando um cachorro na boca, sério. A gente precisa ter limites, galera.

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12 Comentários

Arquivado em Desocupações, teorias, tv

12 Respostas para “Precisamos falar sobre Ted

  1. Marília N.

    E assim como na vida real algumas pessoas começam a namorar sem um contexto por trás da história, como a Robin e aquele namorado bonitão. Sério, toda aquela conversinha nas temporadas anteriores sobre como aquele cara seria importante pra nem mostrarem como foi que ele e a Robin se reencontraram? Me revolta muito isso, cara.

    (desculpe pelo momento carta aberta, às vezes fico nessa indignação)

    • Imagine, Marilhão. Todos temos a necessidade de abrir nosso coração como a Jane. Mas esse negócio da Robin com os crushs dela é tosco, também. Lembra quando ela se mudou pra morar com o Don? Dava a entender que ele seria o par romântico dela (inclusive ela tinha parado de fumar quando mudou pra casa dele) e depois ele largou ela. Depois o outro crush que ela conheceu na loja e nunca mais apareceu.

      • Marília N.

        Esse que ela tá namorando agora é o crush da loja, Ana. É justamente essa minha birra, eles nem explicam como ela reencontrou ele e tal, e deram a entender que teria uma historinha bacana.

        • Ah tá! Pensei que ele nem ia mais aparecer de novo. E eu vi que o Brad voltou, também. O amigo de faculdade do Marshall, né? Vi por causa do Legendas.tv que coloca foto do episódio. Mas nem assisti.

  2. Eu dei uma pausa nessa série na temporada anterior. Depois eu termino de assistir e morrer de raiva. It’s Lost all over again!

  3. Tá muito acadêmico esse texto, Johnny. Que merda é essa?

  4. ThiagoFC

    É a pílula vermelha, de Matrix, aplicada às séries: você quer continuar acreditando na mesma coisa de sempre, ou quer descobrir quão funda é a toca do coelho branco?
    (Consegui teorizar inconclusivamente também?)

  5. Lucas

    eu comecei a ver how i met your mother porque minha vida tava um caralho e eu precisava ver alguma ‘feeling-good-series’. foi bom por um tempo, comi as 5 primeiras temporadas com arroz em menos de um mês e agora eu não consigo sequer cogitar a possibilidade de continuar ver num futuro próximo. enjoei absurdos de toda a idealização, de toda a enorme felicidade que são todos os pequenos eventos da vida deles, de todas as lindas lições sobre grupo de amigos (pra mim, é uma comédia romântica mais de amigos do que de relacionamentos) que eu nunca vi e nunca acho que vou ver de verdade na minha vida.

    conclusão: how i met your mother funcionou pra mim igual a tomar leite gelado quando se está com azia: alivia muito bem no começo, mas depois piora a queimação. e essa é uma péssima analogia, desculpa.

  6. Ainda não conheço essa série, mas fiquei curioso devido às reações comportamentais… Falando difícil pra combinar com o texto.

    O Cinematógrafo:
    http://ocinematografo.blogspot.com.br/

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