Novas aventuras em lo-fi #17

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Como todos sabem, vivemos numa época marcada pelo duelo entre a globalização cultural, um processo de universalização que aproxima e mistura as mais variadas culturas, e o recrudescimento dos mais antigos conflitos e preconceitos. Temos acesso a diversas culturas com um clique do mouse mas estranhamos a pessoa com outro sotaque, podemos chegar ao outro lado do mundo em algumas horas mas temos medo que estrangeiros roubem nossos trabalhos, podemos graças a internet ter acesso a pornografia que envolve dois cavalos, uma freira e um anão fantasiado como Kim Jong Il transando numa banheira de iogurte vigor grego mas quebramos lâmpadas na cabeça de homossexuais nas ruas. São tempos esquisitos.

Exatamente por isso se torna importante, mais do que ressaltar as diferenças entre judeus e palestinos, católicos e protestantes, brancos e negros, buscar as semelhanças, as experiências comuns, aquelas coisas que ao invés de nos separar nos unem. E no caso dos héteros e dos homossexuais, um desses elementos, ainda que poucos reparem, é que quase todos nós, quando crianças ou adolescente, em alguma excursão do colégio, do curso de inglês ou do time de futebol, cantamos essa verdadeira epopeia musicada da descoberta do prazer da sodomia e da paixão homossexual chamada “rema, rema, remador”. Sim, rema, rema, remador. Venham comigo.

Tudo começa com um verso simples e direto: “rema, rema, rema, remador, vou botar no cu do cobrador”. Não existem rodeios, não existe romance, existe apenas a vontade incontrolável de praticar a sodomia com o cobrador, naquele exato instante, de forma violenta e lasciva. Nesse momento é tudo paixão, é tudo desejo. Mas aí vem o verso seguinte. “Se o cobrador for vigarista, vou botar no cu do motorista”. Aí você já nota uma transição, é claro. O que antes era apenas físico agora possui um componente emocional, afinal, quando se trata apenas de sexo você não se importa se a pessoa é ou não uma vigarista. Esse tipo de questão vem à tona quando mais do que um romance fugaz você está procurando talvez uma relação, algo com mais carinho e afeto. Afinal, sim, você sentiu vontade de “botar no cu” do cobrador, mas será aquele o cobrador certo? Será que aquele cobrador não irá em algum momento te trair, te enganar, partir seu coração? Um cobrador teria mesmo condições de sustentar a família que você quer formar?

Logo depois vem o “se o motorista for ligeiro, vou botar no cu do passageiro” e apesar do elemento da sodomia se manter firme no centro do cenário, já existe uma preocupação não apenas com o ato mas também com a duração. Será o motorista capaz de oferecer o prazer que eu desejo? Não mereço, além de um parceiro que me ofereça confiança e estabilidade, alguém que me garanta satisfação sexual? Estará meu relacionamento com o motorista caindo na rotina? Esse plantão é mesmo verdadeiro ou será que ele tem outro? São essas as questões que vem à tona nesse momento.

O próximo verso, ainda mais revelador, “se o passageiro for veado, vou botar no cu do delegado”, envolve a incapacidade de auto-reconhecimento do personagem da canção enquanto homossexual mesmo depois de afirmar claramente que praticaria a sodomia com basicamente todas as categorias masculinas presentes no ônibus (cobrador, motorista, passageiro), deixando clara a névoa de preconceito e recriminação introjetada que ainda envolve a descoberta da sexualidade no jovem, além de te lembrar aquela vez em que um amigo seu bebeu e perguntou se continuava sendo homossexualismo mesmo quando o travesti era bonito e você preferiu desconversar e dizer que sua namorada tava te telefonando naquela hora.

O verso seguinte, e quase sempre final da canção – “se o delegador for gay, vou botar no cu do sarney” – serve não apenas para elevar o tom da crítica a autoridade inerente a canção, iniciada com a tentativa de conjunção anal entre o personagem da música e o delegado, como também retomar o processo de negação da própria sexualidade, além de colocar no meio da história um ex-presidente da república, comprovando que por mais simbólica que a canção seja, ela ainda foi criada por um bando de moleques mongolóides na década de 80 e juventude é isso aí.

Na próxima edição: por que strangers em the night é uma canção incentivando a transar no primeiro encontro e quase ninguém repara.

Ps: fui informado por alguns amigos que a citada canção não é tão popular quanto eu pensava e diversas pessoas de diversos outros estados da federação possivelmente não entenderam nada do que foi dito aqui em cima. A elas eu peço desculpas.

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15 Comentários

Arquivado em Music Review, situações limite

15 Respostas para “Novas aventuras em lo-fi #17

  1. Juju

    Pena de quem não teve uma infância botando no cú do trocador. huahuahuahauhauahua

  2. ThiagoFC

    Não conhecia essa música, especificamente, mas uma variação.
    “O ônibus escorregou na pista: pau no cu do motorista. O motorista reclamou: pau no cu do cobrador. O cobrador era ligeiro: pau no cu do passageiro. O passageiro era viado: pau no cu de quem tá sentado. Quem tá sentado sentiu ardor: pau no cu de quem levantou”.
    E eu ainda acho que o bagulho é de quem tá de pé.

  3. Lucas

    conheço uma versão semelhante que fica entre a que voce conhece a que o ThiagoFc citou nos comentários. na minha infância, “O boi cagou na pista, pau no cu do motorista”, porque as crianças não se contentavam com “pau no cu” sendo a única expressão chula da canção.

    deixa eu te perguntar: na sua infância havia a música “yuri, yuri”? ela intercalava diversas estrofes de conteúdo erótico-punheteiro (sendo a mais famosa o “eu tava no avião comendo leite moça joguei a lata fora e comi a aeromoça”) com o lindo refrão (“yuri, yuri, cagar na areia, fez sacanagem na cadeia”) absolutamente desprovido de qualquer sentido e sempre acompanhado de percussão de palmas e batidas de pé no chão.

    • ThiagoFC

      Conhecia essa do “yuri yuri” como “gererê gererê, lsd”.

      • pedro

        Já eu conheço essa com o refrão “tchurururu, sempre cheirando cola, tchurururu”.

        Outros versos célebres:
        “Eu tava na cozinha cortando uma cebola, a faca escorregou e eu cortei a minha rola”
        “Eu tava no banheiro comendo a empregada, meu pai abriu a porta e eu comi a bunda errada”
        “Eu tava na escola comendo a professora, meu pai foi mais esperto e comeu a diretora”

  4. Natália

    Gente, NUNCA ouvi essa música na vida!!!!

  5. Ronaldo Milani

    eu já homenageei uma travesti muito linda. eu não sabia que era travesti. assim é homossexualismo?

  6. Calma, João, eu já ouvi – e muito – essa música!

    E também achava que ela fazia parte de todas as excursões do mundo!

    Só que essa parte do Sarney pra mim é nova e confesso que ri bastante dela! Na verdade, não lembro nem se eu sabia do delegado.

    Fora que eu me lembrei que, certa vez, voltando de ônibus de uma festa em Viçosa rolou essa música e um cara cantou sozinho e alto: “Se o passageiro for piranha, pau no cu do Homem-Aranha!” E agora?

  7. vailan

    Sarney tem c..? Achei q ele defecava pela pela boca …

  8. Naiara Costa

    Vamos aos relatos: nunca ouvi essa musica tbm, mas na minha infância tinha uma que era assim
    “Nesse onibus eu não vou mais, tem um viado no banco de trás. O viado se levantou e disse que o viado era o cobrador. Cobrador cheio de dinheiro disse que o viado era o passageiro. Passageiro olhou pra pista e disse que o viado era o motorista. Motorista deu uma ré e disse que o viado é quem ta de pé” e bem, não tinha nada de pau no cu. OU talvez tivesse, mas eu era uma menina e não cantava essa versão.
    Mas já deu pra sacar que independente do estado brasileiro todos tinham uma canção sobre homossexualismo no onibus, o que é muito intrigante. Alguém da antropologia poderia por favor explicar esse caso.

  9. Lembrei de mais uma versão que eu já ouvi, na torcida do Corinthians:

    Rema, rema, remador, vou botar no cu do Tricolor.
    Tricolor é vigarista, pau na bunda do santista.
    Se o santista não corresse (??), pau no cu do palmeirense.

    Se o Corinthians não ganhar, olê olê olá, o pau vai quebrar.

  10. Marcos

    Cara, acho que nunca ri tanto de um texto na minha vida.
    Parabéns, sua análise da canção foi muito boa.

  11. Que coincidência. Ontem a noite tava pensando no post sobre as músicas que incentivam sexo ou algo assim. A única que lembrei foi Strangers in the Night.

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