Mini-conto #14 – “Pilates”

flight

Eu gosto de pensar que era uma noite chuvosa. Que você me esperou dormir e me deu um beijo na testa antes de pegar as suas coisas. Separou algumas roupas às pressas se aproveitando do meu sono pesado, não achou sua mala, pegou uma das minhas. Lá fora fazia frio. Você hesitou antes de abrir o portão e enquanto parava um táxi pensou em voltar. Mas vendo as luzes se aproximarem teve certeza que era a decisão certa. Enquanto ele colocava suas coisas no porta-malas você olhou uma última vez pra luz acesa na sala do nosso apartamento e timidamente sorriu. Então você foi embora.

Gosto de acreditar que foi aos poucos. Não acho que nenhum amor comece com um estalo ou algum romance termine com uma explosão. Sempre duvidei de big bangs emocionais e achei que essas coisas acontecessem aos poucos. Da mesma forma que a gente começou durante semanas, em cada encontro, em cada beijo, em cada noite em claro na sala, a gente deve ter terminado durante meses. Em cada telefonema curto, em cada data esquecida, em cada manhã sem tempo, eu devo ter te perdido um pouquinho sem nem perceber. Acho que não foi você que terminou, nós já tínhamos terminado sozinhos. Você só foi a primeira a perceber.

Gosto de imaginar que a decisão foi ao mesmo tempo premeditada e tomada num susto. Você teve tempo pra lutar contra você mesma, tempo pra pensar no que queria e não queria, tempo pra hesitar entre dizer isso pra uma amiga ou pra sua irmã. Você sofreu um pouquinho por nós dois cada noite, até que um dia aquilo apenas foi demais e você decidiu que precisava ir embora. Imagino que você estava inquieta e eu não notei, que você parecia nervosa e eu não vi e isso pra você foi um sinal de que a gente nem se olhava mais. E então uma hora você apenas tomou coragem e se foi.

Gosto de pensar que você tentou me dizer o que estava acontecendo. Com gestos, com sinais, com pequenas coisas. Segurou minha mão mais apertado, me olhou nos olhos por mais tempo, deixou alguma palavra no ar esperando que eu fosse te pedir pra completar a frase ou tentasse completar por você. Deve ter tentado me falar com filmes, com músicas, com lugares e ficou esperando uma resposta que não veio, uma compreensão que eu não ofereci, um olhar de reconhecimento que te fizesse sentir que a gente estava no mesmo barco ou ao menos na mesma direção.

Gosto de acreditar que não foi fácil. Que você quase mandou o táxi voltar, que você quase me ligou, que você quase escreveu. Que a noite você sente minha falta, que sem mim a cama parece maior, que você precisou limpar seu mp3 porque músicas demais te faziam pensar em nós dois. Que as vezes um amigo seu menciona o meu nome e você bebe sua cerveja mais rápido, que tem alguma coisa minha que você levou embora da casa e eu ainda não percebi e que em algumas noites, quando você se sente muito sozinha, você tira de dentro de um lugar escondido no seu armário enquanto imagina se a gente não merecia mais tempo junto.

Gosto de imaginar que você ainda vai ser feliz, mas nem tanto. Que ao menos você ainda lembra, que ao menos você ainda pensa, que ao menos um pouquinho disso ficou, mesmo depois de você ter ido embora.

Porque isso pode ser mentira, claro. Mas ainda é melhor do que aceitar que você é apenas uma vaca traidora que foi embora com seu professor de pilates, Mariana.

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9 Comentários

Arquivado em citações, contos, Ficção, séries canceladas

9 Respostas para “Mini-conto #14 – “Pilates”

  1. Naiara Costa

    Nunca sei se elogio os textos ou as tags. Serio, “saudade dessa ficção pessimista de raiz” foi genial.

  2. nayara

    tava escrito “pilates”, li “pitágoras” e passei o conto todo esperando a conclusão matemática.

  3. Pois é, as tags! Possivelmente uma das melhores frases de todos os tempos!!!

    http://ocinematografo.blogspot.com.br/

  4. carol

    Tipo… Detalhes tão pequenos de nós dois..

  5. Marcia W.

    Nossa. Me lembrou tanto do que aconteceu comigo, depois de oito anos, que eu teria chorado se tivesse sentimentos e não fosse uma vaca.
    HEIUAHEIuAHE

  6. Miguel

    Obrigado pelo final. Realmente. Serviu pra dar um sorriso depois do cisco que caiu no olho, rs

  7. Nunca me arrependo de parar pra ler esse blog. Esse miniconto pareceu um daqueles drinks que descem queimando mas depois te deixam alegrinho, yay!

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