Problemas práticos do romantismo teórico – XXIV

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Como todos nós sabemos, o processo de comunicação humana é sempre algo de tortuoso. Entonações mudam o sentido de frases, sensações são as vezes complicadas demais para descrever, palavras podem ter um valor simbólico absolutamente diverso entre duas pessoas diferentes. Às vezes não sabemos o que queremos dizer, às vezes não conseguimos entender o que os outros dizem, às vezes sabemos o que queremos dizer mas não podemos, às vezes começamos uma frase e a pessoa completa mas ela não completa o que nós queríamos dizer e então tentamos corrigir mas ela completa errado de novo e aí completamos a frase dela e então viramos o cão do porta-mala. Como eu disse, é um processo complicado.

Nada torna mais complicado esse processo, já naturalmente adverso, do que aplicação dele para descrever sentimentos e sensações num contexto de interação pessoal romântica. Sentimos coisas que não sabemos descrever, queremos coisas que não sabemos explicar, dizemos coisas que não saem exatamente como esperamos e adicionamos às dificuldades naturais de uma comunicação já complexa as dificuldades de um campo sentimental várias vezes confuso, cheio de incertezas e que nem nós mesmos entendemos bem (“então, eu acho que te amo e a gente devia casar senão eu me mato. mas sem compromisso, sabe? não tô aqui pra te pressionar”)

E nenhuma frase resume melhor a complexidade do processo de comunicação romântica, com suas verdades que são um pouco mentira, mentiras que tem bastante verdade e indiretas que têm dedicatória no final do que a boa e velha justificativa, quase sempre usada quando um dos parceiros quer levar o nascente romance para o próximo nível e tornar formal e organizado aquilo que antes era instável e recreativo, de que naquele momento a pessoa “não está pronta pra um relacionamento”.

Isso porque, por mais que ela hoje em dia tenha se tornado um clichê e seja usada como sinônimo de desculpa, ela é de uma sinceridade palpável e de uma verdade óbvia: se alguém te diz isso é porque essa pessoa efetivamente não está pronta para um relacionamento. Não apenas pelas razões evidentes – se alguém diz que não quer estar num relacionamento essa pessoa claramente não deve estar num relacionamento – mas também pelo fato de que essa pessoa já deixou claro que aceitaria estar com você num não-relacionamento, já que vocês se pegam e ela provavelmente aceitaria de bom grado continuar te pegando, desde que não precisasse mudar o status do facebook, conhecer sua avó e parar de pegar outras pessoas. Na verdade talvez ela até topasse essa parte da avó. Todo mundo adora avós. Fazem comida e tal.

Daí o rancor que surge quando você, que acabou de abrir o seu coração e dizer que queria levar o seu relacionamento para o próximo nível apenas para receber como resposta que aquela princesa ainda não está pronta para entrar no castelo, descobre que duas semanas depois ela não apenas entrou num outro castelo como conheceu a família do castelo, enche o instagram de fotos do castelo e já tá cogitando casar com o castelo de papel passado. Oras, se ela não estava pronta pra um relacionamento comigo como ela pode estar pronta pra isso com ele? O problema sou eu? O que tem de errado comigo? Por que ela mentiu?

E o que oferece o grau implícito de mentira na frase é exatamente a parte que sempre fica de fora, o “não me sinto pronto pra um relacionamento…com você”. Isso porque, por mais que achemos que estamos sendo sinceros e dando a resposta mais honesta possível diante da pergunta “você não acha que a gente devia namorar?” nós naturalmente reagimos de maneiras diferentes diante de pessoas diferentes em momentos diferentes. Homens que querem “curtir a vida de solteiro” casariam na hora se fosse a garota de jogos vorazes, mulheres que estão se dedicando ao trabalho colocariam fogo em cadeiras no escritório se quem pedisse fosse o Michael Fassbender.

Às vezes a garota que não está pronta pra namorar com você hoje vai estar totalmente disposta a namorar com outro cara amanhã, da mesma forma que se você topasse com a sua namorada de colégio hoje, numa situação de neutralidade e desconhecimento, você poderia preferir 30 minutos de uma surra de cinto bem dada a 5 segundos de relacionamento com ela. Relacionamentos dependem de uma combinação absurdamente sutil de timing, atuação, personalidades e coincidências, numa espécie de efeito borboleta que permite imaginar que, se você em goiânia não estivesse namorando com o cara x em 1997, o primo dele poderia não ter saído com aquela outra menina nas férias de 2002, levando ao término de um casal de amigos meus em 2009 e a minha decisão, em 2011, de abandonar meu trabalho pra montar uma banda de folk chamada grassroot grasshoppers e hoje precisar viver de favor porque eu não sei tocar nada.

Mais do que a comunicação confusa, mais do que as sutilezas de um processo complexo, mais do que a teorização de que para o certo não existe momento errado e para o errado não existe momento certo, o “não estou pronta para um relacionamento” nos lembra de uma coisa: ainda é bem melhor ouvir isso do que “não tô pronta pra um relacionamento porque quero demais transar com vários outros caras”. Sério, a sensação é bem pior.

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8 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, romantismo desperdiçado, séries canceladas, teorias, Vida Pessoal

8 Respostas para “Problemas práticos do romantismo teórico – XXIV

  1. ThiagoFC

    Daí eu me pergunto se, hoje, a Francine de Curitiba já está pronta para um relacionamento, ou se ela ainda tá naquela de “dar para todos os caras de diferentes regiões, conhecer vários pintos grandes, grossos e roliços”.

  2. Antes isso do que “o problema não é você, sou eu.”

    Sei lá, existe o conforto pelo menos de saber que a frase é ao menos um pouco verdadeira, e não um código para “você é todo errado e eu estou tentando ser simpática pq tenho dó do quanto as pessoas vão te escrotizar na vida. mas hey, o problema sou eu, não você.”

  3. Naiara Costa

    “mulheres que estão se dedicando ao trabalho colocariam fogo em cadeiras no escritório se quem pedisse fosse o Michael Fassbender” TRUE STORY BRO

  4. Lis Lemos

    Totalmente contemplada com esse texto. Essa sou eu neste EXATO momento.A pessoa que não quer um relacionamento.

  5. “mulheres que estão se dedicando ao trabalho colocariam fogo em cadeiras no escritório se quem pedisse fosse o Michael Fassbender” variando com Ryan Gosling e Henry Cavill e ainda sendo a maior verdade.

  6. Fernanda Wojcik

    Cara, primeiro: ainda bem que tu voltou a escrever com mais frequência, sério, estava ficando louca já sem teus textos.
    Depois, passei por essa situação tantas vezes que acho que não existe um cara que esteja pronto (ou disposto) a ter um relacionamento comigo. Mas é a vida né, fazer o que.

  7. Tem uns 3 anos que não comento aqui…
    Obrigada por citar Goiânia, João. Te amamos.
    Quero muito poder falar isso: “não tô pronta pra um relacionamento porque quero demais transar com vários outros caras”.

  8. Jess

    O problema é que as pessoas preferem ficar ‘juntas’ ao invés de ficar sozinhas. E “junto”, algumas vezes, acaba sendo meio que comodismo. E daí fica aquele perigo de ser comodismo pra ele/a e pra você não.

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