Mais dois casos clássicos dos double binds da vida

george michael

#Você organiza pelada e pelada é só amigos, pelada é só alegria. Futebol society, campinho gramado, barzinho do lado. Dois timinhos de seis, espaço pra trabalhar a bola, pensar na tranqüilidade, tocar pra quem tá mais bem posicionado, desenvolver a malícia desportiva. Timinho de fora pra manter competitividade, mas não completo, rola par ou ímpar pra ver quem fica. Durante dois meses tá de boa. Mês seguinte não tem timinho de fora, mas tá tranqüilo,corre mais, ainda que com menos seriedade porque sem sair você sabe como malandro fica. Um mês depois começa a ficar complicado de dar doze, tem que chamar galera da pelada anterior pra completar, mas tá de boa, é coisa do momento, janeiro é foda, geral de férias. Aí na outra semana só tem dez, maior correria, mas a pelada rola. Aí numa quarta chove e só tem seis, seis é foda. Na outra vão cinco, cinco é sacanagem. Falta dinheiro pra quadra, pelada mia, você fica puto. Manda email reclamando e pedindo pra cada um levar um amigo, pra pelada não morrer, email emocionado, usa a palavra “comprometimento” em itálico sublinhado. Chega quarta, cada um leva seis amigos. Pelada lotada, oito times de fora. Você pensa que agora tá bacana. Galera sai puta porque tinha gente demais e não rolava de jogar. Você pede pra galera confirmar no site antes de ir, pra isso não acontecer mais. Na outra semana tem seis pessoas. Depois tem cinco. Cinco é sacanagem. Você acaba com pelada. Organiza outra pelada. Outra pelada é só amigos, outra pelada é só alegria. Um dia você chega lá e só tem seis caras. Seis é foda.

#Você tem namorada. Namorada é só amor, namorada é só alegria. O romance vem existindo e a vida é alegre como nos filmes, canções, seriados e livros de capinha colorida mas não aqueles que usam a imagem do pôster do filme na capa porque isso você considera vacilação. E ela também. Vocês combinam. Seis meses passam numa onda de romance freestyle e desejo incontido e você começa a achar que namorada tá estranha. Diz pra namorada que ela tá estranha. Ela diz que não tá estranha, você tá estranho. Você diz que não tá estranho, ela tá estranha. Ela diz que se conhece, sabe que não tá estranha e você que tá estranho. Você diz que se tá estranho é porque ela tá estranha e tá te deixando estranho. Ela diz ahá. Você acha estranho. Tá estranho. Mais dois meses, sms desencontrados, risadinhas pelos cantinhos, falando ao telefone no banheiro. Você acha que namorada tá traindo. Pergunta pra amigo se ele acha que namorada tá traindo, amigo diz que não tem como saber se namorada tá traindo, mas namorada pode estar traindo. Ou não estar traindo. Não tem como saber se namorada tá traindo. Fica pensando se namorada tá traindo. De vez em quando tem certeza que namorada tá traindo, de vez em quando não. Pergunta se namorada tá traindo. Namorada diz que não tá traindo. Um mês depois chega em casa mais cedo. Pega namorada traindo. Namorada diz que só tá traindo porque você ficou pensando que ela tava traindo, aí ela perdeu a confiança no relacionamento e resolveu trair. Você fala com mãe, mãe diz que namorada que tava traindo tem razão. Culpa é sua. Fala com amiga. Culpa é sua. Fala com amigo. Culpa é da Dilma. Não conversa mais com amigo. Conclui que culpa é sua. Seis meses depois namorada posta no facebook sobre alegria de nove meses de relação com novo namorado. Namorada tava traindo. Você decide usar seu tempo livre e organizar uma pelada. Pelada é só amigos, pelada é só alegria.

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12 Comentários

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12 Respostas para “Mais dois casos clássicos dos double binds da vida

  1. ThiagoFC

    O cara que escreveu email com “comprometimento” em itálico sublinhado (podia ter rolado de adicionar um negrito aí, hein?) teve aula de motivação com o Tite?

  2. kkkkkkkkkkkkk bom demais, cara! Foda!!!

  3. Mateus

    Adorei a coloquialidade na supressão dos artigos na segunda história. Todo mundo deveria escrever, na internet, mais como se fala que como se escreve na internet, não sei se você entende. Em tempo, amigo que não põe a culpa na dita-cuja nunca foi amigo.

  4. Diego Tavares

    A parte da pelada é uma triste verdade que assola milhões de heteros brasileiros. A segunda parte eu não sei porque nunca namorei, mas acredito que vale o mesmo comentário.

  5. Paulo Torres

    Atingi um ponto inédito no mundo das peladas: jogo uma pelada que se mantém viva há oito anos, já tendo passado 2 ou 3 vezes pelas fases de “chamar galera da pelada anterior pra completar” e de “oito times de fora”. E hoje já não é mais a pelada dos amigos, é a pelada da “galera da pelada”. Gente que só se conhece da quadra, sem qualquer outro contato social fora dali que não a confirmação de presença na pelada por e-mail. Estranho isso. Mas a galera aparece semanalmente, então tá valendo.

  6. Muito bom o texto! Hahahahahaha

  7. Ana

    você é genial!

  8. A pelada é um clássico de quem namora e principalmente de quem é casado! Mas fica cada vez mais difícil de participar da pelada, literalmente!!!

    http://ocinematografo.blogspot.com.br/

  9. Seus textos são o máximo, este aqui é genial. Parabéns. Sempre leio e pouco comento, erro meu.

  10. JuninhO

    Como sempre muito bom. E sempre essa de ser culpa da Dilma, cara! Dá uma chance pro amigo!

  11. Jess

    Eu nunca tinha visto um relacionamento hetero dar esse problema de “você está estranho/a”. hahaha. Mas o texto ficou genial, sério. Um dos melhores que li aqui. Parabéns. Muito bom mesmo.

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