Por uma breve teoria narrativa dos tremendos vacilos

Evil_Troy_and_Evil_AbedUma tendência natural em todo ser humano é a de comparar sua vida a um processo ficcional de narrativa. Existem as pessoas, que atuam como personagens, existem as sequências de eventos e suas conseqüências, que formam a trama, existe um começo claro, um final pontual e uma passagem delimitada de tempo. Dentro dessa lógica nos vemos como protagonistas de uma história específica, que varia entre os mais diversos gêneros e que pode envolver ação, aventura, romance, terror ou apenas muitas pessoas falando sobre muitas coisas durante muitas horas enquanto toca uma música engraçadinha ao fundo e no final o Bill Murray te dá um abraço porque essa meio que é a onda do cara.

Mas essa visão da vida enquanto trama ficcional, ou ao menos enquanto processo inspirado nesse tipo de narrativa encontra dois grandes problemas. Um deles é a ausência de um autor e de um propósito maior no desenrolar de um processo – mesmo no pior romance cada personagem possui uma função, um objetivo, uma boa razão para participar da trama, enquanto na vida real temos mortes sem sentido, violência irracional e pessoas idosas que gastam fortunas sustentando gatos – o que torna o sentido da vida, enquanto narrativa, muito mais algo atribuído por nós como forma de racionalizar a aleatoriedade do universo do que uma leitura efetivamente coerente dos fatos.

E o outro problema, que eu já havia mencionado no parágrafo anterior, é a ideia de que, sendo sua vida uma narrativa, você necessariamente é o protagonista, com toda a carga simbólica que um papel de protagonismo poderia gerar. E se pensar enquanto protagonista, personagem principal, centro de uma narrativa, é o tipo de postura que claramente carrega em si um potencial imenso para o desastre.

Primeiro porque esquecemos que todas as outras pessoas são também protagonistas de suas tramas, por mais que para nós elas possam parecer coadjuvantes, secundárias ou mesmo antagonistas. Sua prima de segundo grau tem sonhos, seu vizinho maluco tem medos, o cara que dá em cima da sua namorada no trabalho também é um ser humano com necessidades, anseios e dramas pessoais, ainda que claramente mereça levar porrada e você uma vez tenha procurado o cara no facebook para fazer montagens dele fazendo sexo com animais e divulgar na internet. Nos vendo enquanto protagonistas nos sentimos especiais mas ao mesmo tempo esquecemos que mesmo assim somos tão especiais quanto qualquer outra pessoa.

Segundo porque ao nos ver como protagonistas quase sempre entendemos implicitamente que somos os mocinhos da trama e passamos a tentar fazer a realidade caber nessa visão. Acreditamos que o universo nos deve coisas, que é conosco que a mocinha deve ficar, que nossos atos são sempre justificados e que existe algum tipo de jornada, algum tipo de trajetória clara a qual estamos destinados. Esquecemos que são nossos atos que definem nosso papel em qualquer trama, perdemos de vista que não temos o controle do final e acabamos, sem perceber, sendo os vilões do filme de ação em que queríamos ser mocinhos, os nazistas do filme de guerra em que deveríamos ser charmosos soldados americanos e os ex-namorados sacanas da garota na comédia em que queríamos ser o interesse romântico descontraído e divertidão.

Mas principal diferença é que ao contrário de um filme, que dura no máximo duas horas e meia (quatro se você for um hobbit, um barco afundando ou um gladiador romano) na sua trama muito provavelmente as linhas vão ser mais cinzas, os erros vão ter maiores repercussões, as enrascadas não vão ter soluções espetaculares, e claro, você vai ter muito mais tempo pra se arrepender de qualquer tipo de besteira que você fizer. Mas claro, ao menos você também tem mais tempo pra tentar compensar qualquer burrada, pedir desculpas por qualquer idiotice e mostrar que no final você ainda pode assumir o papel que outras pessoas esperavam que ficasse reservado pra você e que você realmente queria.

(A saber: nunca efetivamente fiz as montagens. Só sei usar o paint do windows e os cachorros que eu desenhava ficavam muito ruins)

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14 Comentários

Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, homens trabalhando, Vacilo, Vida Pessoal

14 Respostas para “Por uma breve teoria narrativa dos tremendos vacilos

  1. Henrique

    “perdão a polícia civil de minas gerais”

    Dude, what?

  2. Laura

    voce colocou em palavras nesse texto o que venho pensando faz tempo, to assistindo seriados demais e achando que na vida funciona do mesmo jeito..

  3. ThiagoFC

    Cara, tinha uma comunidade no orkut que fazia uma discussão semelhante, mas sob a ótica de que “as fotos coloridas são atores da Globo, as preto e branca devem ser os figurantes” (de uma paródia de novela das oito no Casseta e Planeta, lembra?). Até hoje não compreendo como as pessoas puderam simplesmente (#simplismente?) deixar o orkut de lado.

    E eu já ia conferir o título de tag da semana para “vagas menções à zoofilia”, até que você postou o link do “perdão à polícia civil de Minas Gerais”.

  4. Juninho

    Cara, só uma pergunta: Porque o José de Abreu tá de quimono carregando um litro de leite na foto do blog?

  5. Rainer

    Caaaaaaaaaara… Cara, eu juro por Deus que eu tava refletindo essa semana inteira e cheguei de uma maneira indireta EXATAMENTE á mesma conclusão que você… “Todos nós nos achamos os mocinhos quando na verdade somos todos os vilões”.

    Minhas reflexões tinham a ver com o fato de que as pessoas não acham que o que fazem é errado, mesmo que seja, de outra maneira, não existiria mal ou pessoas fazendo coisas erradas no mundo. Portanto, seriamos todos aquele vilão que tem um plano idiota quando você para pra pensar bem, e pega a mocinha a força, falando de maneira estranha e clichê perto do ouvido dela enquanto anda ao redor dela, enquanto pensamos ser o cara que está salvando o mundo e que a mocinha está irremediavelmente apaixonada por nós.

  6. brunosa

    cara, gosto muito dos seus textos. mas seu uso da palavra “enquanto” ta exagerado. favor levar como crítica construtiva, pq eu adoro seu blog, e também seus tweets.. abraco

    • joão baldi jr.

      tá ficando complicado, né? mas vou tentar me policiar mais, eu tenho tantos vícios de linguagem que tenho medo de um dia precisar subir o morro levando o videocassete da minha mãe pra trocar por mais uns “enquanto” e “literalmente”

    • Guilherme

      Nem reparei.

      By the way… Excelente texto, excelente perspectiva.

  7. Marilia

    João, leio seu blog há teeeempos, quietinha no meu canto, mas resolvi sair do armario hj pra dizer: é isso, cara! Lembro de um escritor de novelas falando q o foda em escrever esses enredos é q novela tem q ter sentido, enquanto a vida geralmente nao tem.
    Em tempo: se é pra ter Bill Murray, prefiro ele interpretando Bill Murray no meio de zumbis :)
    Beijos!

  8. Cara, que texto excelente! Desde ontem, quando vi um link pro seu blog no Tecnoblog, tenho lido vários dos seus posts, mas esse texto pra mim foi o melhor – sem querer desmerecer os outros, também sensacionais. Parabéns, de verdade!

  9. Troy and Abed in the mooooorning.

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