Sobre breves limites pro seu repertório pessoal de mentiras inofensivas e inverdades de tonteio

 

koenig-stiv#Não que você seja surdo ou tenha algum problema, mas você não ouve muito bem. Quando as pessoas falam você precisa olhar pra elas, quando telefonam você precisa pedir pra repetir, odeia ver filme dublado porque precisa ficar voltando. Mas ao mesmo tempo você não gosta de importunar. Acha chato dizer “como?”, não gosta de mandar um “desculpa?”, então você desenvolveu com o tempo um estilo de escuta passiva que consiste em apenas sorrir, as vezes até rir mesmo e dizer “ahhhh, claro” ou “ahaaaam”. Você usa isso com a chefe, mas depois pede confirmação por email, você usa isso com a namorada, quando sabe que ela tá irritada demais pra repetir o que falou, você usa isso com sua mãe, quando ela fala muito rápido, muito baixo e você sabe que o assunto não é importante. Aí um dia sua mãe bate na sua porta e diz que já comprou os ingressos pro show. Que show? Oswaldo Montenegro. Que ingressos? Vocês tinham combinado. Mas como? Pelo telefone. Quando foi isso? Semana passada, você disse “ahhh, claro”. Você respira fundo e pensa. Voa condor.

#Não que você não trabalhe ou seja preguiçoso, mas naquela hora você estava lendo tirinhas do Garfield minus Garfield na sua mesa quando te chamaram. Precisavam de alguém da comunicação, confundiram as comunicações, queriam chamar um gerente do corporativo, chamaram o moleque da gerência menor. Chega na sala, você de jeans, tênis, camisa social pra fora da calça e aquele mangão dobrado que diz “não ambiciono promoções”. Do outro lado chefão de comunicação, empresa multinacional, aquele cartão de visitas que indica gerente internacional de projetos de comunicação américa do sul e caraíbas. Nessa hora você nota que sua camisa tem mancha de molho, spolleto. O cara te olha fascinado, te chama de gerente de comunicação, diz que é um prazer de conhecer, fala que tá impressionado com o quão jovem você é. Te dá o cartão, pede o seu, você diz que não tem cartão, você se sente um flagelado da seca, ele acha que você é uma espécie de Steve Jobs moreno, não tem cartão porque é da geração google. O cara te adiciona na mailing list dele, te manda email todo mês, você não responde por vergonha. Alguém em algum lugar acha que você é um jovem executivo muito ocupado.

#Não que você não seja atencioso ou desconsidere as pessoas, mas você não tava prestando a menor atenção quando o taxista falou contigo. Mandou aquele protocolar “congonhas, por favor”, pegou o celular e já foi mandar mensagem pra namorada mesmo tendo acabado de se despedir. O taxista falou algo sobre esposa, algo sobre casa, algo sobre você ser muito novo, você apenas concordou, tava ali despejando o coração no sms e só palavras chave como “assalto”, “guarulhos” ou “você é da zoeira?” iriam te chamar a atenção num momento como aquele. Lá pelo meio da viagem você começou a prestar atenção mas ele já não tava mais interessado em conversar, tava concentrado no jogo. Você desceu tranqüilo, deu gorjeta, pegou mala, caiu fora. Um mês depois, mesmo lugar, mesmo táxi, mesmo taxista. Ele te pergunta se é pra Congonhas de novo, você diz que sim. Ele te pergunta se foi complicado se despedir da esposa e você fica confuso. Ele fala que continua achando sua casa muito bonita e você não sabe bem o que responder. Ele diz que deve ser foda pra um paulista ficar indo sempre pro rio e você explica que aquela é sua namorada, não sua esposa, aquela é a casa do seu sogro, não a sua, e você mora no rio, não em são paulo. Ele diz que não foi isso que você falou da última vez e você nota ele balbuciando “moleque mentiroso” e “maluco” durante todo o resto da viagem.

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6 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, situações limite, Vacilo

6 Respostas para “Sobre breves limites pro seu repertório pessoal de mentiras inofensivas e inverdades de tonteio

  1. ThiagoFC

    Pelo menos o taxista não te perguntou se você era da zoeira. “Moleque mentiroso”? “Maluco”? Saiu de graça!

  2. YCK

    Segundo e terceiro # merecem o aconchego da página de um livro.

  3. Juninho

    O segundo foi foda, cara! É tipo a conversa do mineiro “come-quieto”. Não precisou fazer nada pra manter a imagem que o camarada fez.

    Mas sério, você é da zoeira?

  4. Nicole

    Man, eu estou apaixonada pelos teus textos. Escreve um livro cara

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