Trecho número 67 de uma tentativa de teoria unificada das comédias românticas

John-Cusack-in-Say-Anythi-002De todos os conflitos lógicos que dominam o gênero das comédias românticas – estabilidade x novidade, liberdade x compromisso, aceitação x correção – poucos são mais complicados de solucionar racionalmente e geram mais dissociação em relação aos princípios do romance real e prático do que a dicotomia básica entre a definição do amor enquanto solução ou fim da jornada e a visão do romance enquanto processo ou conquista contínua, possivelmente as duas mais frequentemente apresentadas nesse contexto ficcional específico.

Comecemos pela visão do amor enquanto solução. Exemplificada primariamente pela ideia existente desde os contos de fadas do “final feliz”, aquele momento em que após tribulações, desencontros e conflitos, o casal principal da história finalmente consegue se unir e concretizar seu amor, tal conceito pressupõe esse ponto como uma espécie de fim da história. Ou seja, quando você finalmente encontra a pessoa certa, aquela que seria teoricamente o seu par perfeito, a sua alma gêmea, desaparecem todos os tipos de conflito, sendo aquele encontro a solução para todos os seus problemas pessoais, tanto que nesse exato momento a narrativa se encerra, porque não existe mais conflito a ser resolvido. Nesse caso o amor é um fim a ser atingido, e menos uma construção do que um encontro: são muitas as pessoas nesse mundo mas existe uma pessoa aí fora que é perfeita para você e quando vocês se encontrarem tudo vai ficar bem.

Já no caso do amor enquanto construção ou processo as coisas funcionam de uma forma diferente, sendo exatamente a conquista, o esforço, a trajetória até aquele amor, que dão a ele sentido e importância. Isso porque dentro dessa visão o amor é menos um encontro e mais uma atividade contínua de crescimento, concessões, disputas e dores pessoais a serem superadas. Com isso o amor não nasce do encontro, sendo ele apenas o começo de uma série de conquistas, reconquistas, tomadas e retomadas, elas sim validando aquela relação exatamente pelo fato dela não ser perfeita e o amor precisar ser conquistado, construído. Se no amor enquanto solução existe a ideia de um final feliz, quando a relação se concretiza, no amor enquanto construção não existem finais e a perfeição não é um estado que se alcance mas sim um objetivo que se disputa.

Isso gera um conflito cognitivo diante dos relacionamentos reais exatamente porque ambas as visões não podem ser racionalmente aplicadas num universo que funcione distante das regras ficcionais. Isso porque se acreditamos no amor enquanto fim, iremos sempre nos decepcionar com a necessidade constante de retoques, correções, mudanças e todos os outros problemas e defeitos que nascem no momento em que esperávamos já ter atingido o final feliz, nos fazendo questionar se aquele é mesmo o nosso esperado “par perfeito” – “se ele é o cara perfeito pra mim porque ele olhou pro decote da minha amiga?”, “se ela é a mulher perfeita pra mim porque ela baba quando dorme?” – ao mesmo tempo que se acreditamos no amor enquanto construção constante, na valorização do sentimento só quando ele nasce através de dor e conquista, não vamos saber apreciar os momentos de calmaria ou a satisfação que a rotina funcional gera – “não me sinto desafiada porque ele é muito fácil”, “se ela me deixa sair com meus amigos, viajar com meus pais e fazer as minhas coisas é porque ela não me ama de verdade, se me amasse estaria pegando no meu pé e me ameaçando de morte no telefone”.

E talvez seja esse um dos grandes defeitos das comédias românticas: gerar em nós uma simpatia por certos padrões e lógicas que, por mais simpáticos e interessantes que sejam, são tão aplicáveis na vida real quanto o conceito de que uma competição de “quem grita pênis mais alto” pode levar a um momento inesquecível de fofura e não a vergonha, constrangimento e pessoas que não podem mais circular por certos bares e regiões da cidade.

Trecho #68: “Porque passei a acreditar menos no amor depois que a Meg Ryan fez aquela plástica sinistra na boca”

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4 Comentários

Arquivado em cinema, citações, Desocupações, referências, romantismo desperdiçado, teorias

4 Respostas para “Trecho número 67 de uma tentativa de teoria unificada das comédias românticas

  1. eu espero muito que as pessoas deixem a primeira parte como está, caso contrário, com a profusão de continuações que o cinema tem visto atualmente, veremos diversas sequências de comédias românticas onde passaremos 120 minutos vendo como o Ashton Kutcher ou o Matthew McConaughey fazem pra pagar as contas ou aguentam a TPM das esposas e todas aquelas coisas que ninguém está interessado nem na própria vida, mas com um agravante: eles vão passar por tudo isso e ainda vão ser mais bonitos que a gente e estarão pegando a Jessica Biel ou a Amy Adams, desencadeando uma crise ainda maior de auto-estima.
    deixa do jeito que está, cara.

  2. Tenho amigos que visualizam o amor como o primeiro exemplo e nunca param no relacionamento por causa dessa idealização. Tenho outros amigos que tomam como verdade o segundo exemplo mas ao invés de se questionarem arranjam sarna pra se coçar e as namoradas ficarem com raiva deles. Também tenho amigos que colecionam cards da Marvel.

  3. Felipe Taleires

    Muito bom. E foi um conceito muito parecido com o que encontrei aqui: http://nadacomcoisanenhma.blogspot.com.br/2013/02/o-conto-de-fadas-da-vida-real-ou-o-dia.html

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