Sobre sistemas, pessoas e coisas que não têm preço

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Vivemos numa era de sistemas, redes e organizações. Sistemas para transmitir informações, redes para nos socializar, conglomerados que lidam com todo tipo de atividades, desde empresas que te permitem usar o mesmo software em qualquer escritório até marcas que te permitem comer o mesmo prato em qualquer lugar do mundo. E conforme esses sistemas, redes e organizações vão crescendo e se tornando cada vez mais poderosos, essenciais e familiares acabamos perdendo de vista um dado muito importante sobre todos eles: qualquer sistema, rede ou organização é composto, em algum grau, por pessoas.

Sei que isso pode parecer ridículo, sei que isso pode parecer óbvio, mas cada dia mais seguimos praticando uma perigosa impessoalização desses personagens. Reclamamos de leis, reclamamos de empresas, reclamamos de serviços, como se eles fossem resultados de entidades superiores e intangíveis, produtos de alguma sistemática acima do nosso controle, esquecendo que eles são na verdade frutos, ainda que diluídos por diversos graus de decisão e burocracia, de atividades humanas, de atos realizados por pessoas como eu ou você.

Reclamamos da NET mas esquecemos que ela não é uma entidade autônoma e que não existe a criatura NET mas sim a soma dos interesses dos acionistas da NET, os diretores da NET, os gerentes da NET, os atendentes da NET e os instaladores da NET, fazendo com que quem decide que a instalação só pode ser feita durante dias de semana das 08:00 às 17:00 e portanto você vai precisar adotar um filho se quiser que alguém possa estar em casa nessas horas, não é uma entidade amorfa mas sim uma cadeia de pessoas que, unidas, decidem escrotizar a sua vida e te deixar dois meses pagando por um telecine hd que você não tem, e isso porque o telecine atualmente só passa aquele filme do John Goodman em que ele é coroado rei da Inglaterra.

Reclamamos da política, dizemos que o congresso não presta, mas esquecemos não apenas que ele é composto por diversas pessoas, várias ruins, algumas boas, como também que são as decisões de outras pessoas – nós – que permitem que tanto aquelas pessoas ruins quanto aquelas pessoas boas estejam lá, porque mesmo que a política seja um sistema viciado e diversas vezes injusto, ele é um sistema que funciona com a nossa colaboração ou ao menos com a nossa conivência, então definitivamente não adianta nada você ficar compartilhando vídeo do cqc no facebook se no final vai votar no candidato que seu avô sugeriu (“como assim lésbicas, junior?!”)

E não fazemos isso apenas com sistemas e empresas, também fazemos isso com conceitos, fazemos isso com representações. E fazemos porque é simples. Dizer que o sistema é foda é mais fácil do que pensar no quanto você contribui pra esse sistema, dizer que tal político é maluco é mais fácil do que pensar nas possíveis milhões de pessoas que concordam com ele, dizer que todo atendente de telemarketing é filho da puta é mais fácil do que admitir que se você trabalhasse 12 horas por dia por 400 reais você também desligaria o telefone assim que alguém elevasse o tom de voz ou mencionasse a sua mãe.

Porque galera, a gente pode achar que é o sistema é foda, que as regras são erradas, que o mundo não funciona direito, mas quando você passa dez minutos numa fila do metrô na carioca, naquele esquema de “ninguém passa-ninguém passa”, gente se apertando, grita-grita e empurrões e, após finalmente conseguir sair, nota que tudo isso tá acontecendo porque tem uma mulher tentando passar na catraca usando um cartão caixa mastercard, você nota que não é o sistema, amigo. São as pessoas. As pessoas é que são foda. O sistema apenas foi criado por elas e deu nisso aí.

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5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vacilo

5 Respostas para “Sobre sistemas, pessoas e coisas que não têm preço

  1. Quando você pede bem pouca mostarda no seu lanche do Subway e a atendente coloca meio vidro e ainda chacoalha pra sair mais, o problema não estão no Subway, está definitivamente na atendente. Em todos os atendentes.

    Excelente texto, as always ;)

  2. Naiara Costa

    Todo dia tem alguém fazendo merda na catraca de algum metro, em algum lugar do mundo… impressionante.

  3. Ana Paula

    “dizer que todo atendente de telemarketing é filho da puta é mais fácil do que admitir que se você trabalhasse 12 horas por dia por 400 reais você também desligaria o telefone assim que alguém elevasse o tom de voz ou mencionasse a sua mãe.” Hahaha true story

  4. Se algumas coisas não tem preço como que o Master Card consegue pagar: http://ocinematografo.blogspot.com.br/

  5. JuninhO

    O sistema é a soma de interesses escrotos, como já diria o Capitão Nascimento…

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