Da necessidade de canais incomuns para escape de frustração em situações de irritação repetitiva

tmnt_cowabunga

Daí que você tem um problema. Não é um problema novo, não é um problema grande, não é um problema dramático, não é um problema inédito, é apenas um problema. Ele já vem de algum tempo, ele já vem consumindo algum esforço, ele já foi comunicado a todas as pessoas com quem você tem contato o bastante para comentar sobre algum problema seu. Com algumas você abordou o problema de forma vaga (“ah, sei como é, também tenho esse problema”), com outros de forma pormenorizada (“então, e por causa disso, disso e disso, isso é um problema, me deixa trazer o retroprojetor, eu fiz umas lâminas”), mas nesse meio tempo o problema persistiu, não foi resolvido, e a duração dele não fez diminuir o seu nível de contrariedade em relação ao problema. Na verdade ele apenas vem aumentando.

E você quer falar sobre ele com sua namorada o tempo todo. Na verdade você tem a impressão de que fala sobre ele com a sua namorada o tempo todo. Mas isso te parece chato, te parece cansativo, e não parece justo com ela. Afinal, quando vocês se conheceram era tudo all fun and games e spray de chantilly e agora você fica nessa de só falar de problemas? Então você tenta evitar. Não acha que consiga, não acha que esteja dando certo, mas se sente um pouco aliviado de pensar que não está falando do problema sempre que está pensando no problema. O que é bom, já que você está sempre pensando no problema.

E você quer falar com sua família sobre o problema. Mas sabe como são famílias. Pra sua mãe todo problema é um grande problema, e ainda mais sendo o seu problema, se trata de um imenso problema. Se você continuar falando com ela sobre o problema ela não vai conseguir falar com você sobre nada além do problema e por mais que você efetivamente não ande pensando em nada além do problema, você gosta de ideia de que, ao menos quando falar com a sua mãe, não vai precisar pensar no problema. Ainda que você vá pensar no problema. Com seu irmão você não fala sobre o problema porque ele te recomendaria malhar e bater no problema, e você não apenas não quer malhar como não acha que violência seja a solução pro problema. Ao menos não por enquanto.

E você tenta se controlar em relação aos seus amigos também, claro. Não que funcione muito bem também, claro. Mas você não quer ser o cara que enquanto todos estão falando de atividades interessantes e divertidas fica falando apenas sobre o próprio problema. Férias em Aruba? Eu tenho um problema. Festinha no sábado. Então, tem meu problema. Estamos pensando em adotar uma criança. Espero que ela nunca tenha o meu problema, porque é um grande problema. Meu problema. Então você tenta evitar falar sobre o seu problema, mas tudo que te passa pela cabeça é o seu problema e no seu íntimo você acha que todos estão sendo meio insensíveis de não levar mais a sério o seu problema, já que ele é o seu problema. Ainda mais porque as lâminas já estavam prontas e o retroprojetor não se carregou sozinho.

E é assim que, num dia normal, você, no tempo que demora pro sinal da maquininha do visa pegar, apenas por falta de qualquer outra válvula de escape, já que tem a sensação de que já encheu sua namorada, sua família, seus amigos e todo mundo mais que você conhece, resolve falar sobre o seu problema pro entregador de pizza. E como o sinal é realmente péssimo, você tem tempo pra falar dos detalhes, contar as nuances, comentar suas aflições e, enquanto finalmente espera o “processando” sair da tela, você ouve uma frase que, ainda que dita no tom mais desinteressado do mundo, te ensina uma valiosa lição sobre as proporções de sofrimento, a relatividade da dor e o empirismo da realidade. “Bem, mas pelo menos você não precisa trabalhar de sábado, final de semana, né, fera? Tem que ver isso aí também”.

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5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, Rio, Sem Categoria, Vida Pessoal, vida profissional

5 Respostas para “Da necessidade de canais incomuns para escape de frustração em situações de irritação repetitiva

  1. ThiagoFC

    É como eu sempre digo: não tá fácil pra ninguém.

  2. FeRnANdinhO ZikA oakley;1

    kkkk é bem assim msm

    tenso

  3. Z7

    Sua escrita é genial demais para os poucos comentários que você recebe.

  4. É verdade né fera, quando você só quer falar dessa porra de problema, e ninguem quer ouvir, e o pior é que sei lá né, é tudo uma merda.

    E esse trêm de “pelo menos não tem q trabalhar no sábado”, por mais reconfortante que seja, ainda assim não resolve a porra do problema.

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