Sobre sua tia, as idosas do flamengo e traços de uma ditadura da cronologia

oldladies

Desde pequenos somos treinados para respeitar os mais velhos. Seja obedecendo o papai, seja não respondendo a mamãe, não gritando com a vovó ou apenas não fazendo perguntas sobre quem são aqueles caras que toda madrugada entram com duas caixas de isopor, uma fantasia de garibaldo e sete pistolas d’água no quarto da titia, somos basicamente doutrinados a acreditar no adulto– ou genericamente no “mais velho” – como o repositório máximo de autoridade e poder, seja ele um familiar, um professor ou apenas o segurança do shopping que insiste em pontuar que precisamos fazer aquela haste mecânica efetivamente segurar o brinde e não vale tentar apenas enfiar o braço logo naquela caixa de vidro pra tirar o ursinho, isso é ilegal e vou chamar seu pai.

E ainda que essa visão do mais velho como representante da autoridade e do poder seja muito válida quando somos crianças – até os sete anos eu não sabia amarrar cadarços e achava que salsicha era um vegetal e isso já diz muito sobre meu preparo pra lidar sozinho com o mundo – é a continuidade e o exagero desse tipo de mentalidade do “mais velho como dono da verdade” que muitas vezes, quando aplicado na relação profissional ou pessoal entre adultos gera situações injustas, absurdas ou apenas desconfortáveis.

Não, não estou falando dos idosos folgados do Flamengo que assediam garotas, furam filas de restaurantes, ou moram no apartamento debaixo do seu e assim que acontece algum tipo de vazamento começam a preparar tocaias na porta sua casa às sete horas da manhã pra gritar com você e te chamar de moleque ou mesmo das senhoras que ficam na sua frente na fila reclamando durante horas que não existe um caixa especial para idosos e assim que esse caixa abre e você indica que seria interessante pra ela ir pra lá te retrucam com um “como assim, garoto? você tá me chamando de velha?”.

Não, nada disso. Afinal, eu sinceramente entendo que após décadas de serviços prestados à sociedade uma pessoa já adquiriu o capital moral necessário para ter certas vantagens e certos descontos e eu sempre vou tentar respeitar idosos mesmo quando eles começam a explicar que boa era a ditadura, presidente legal era o Geisel e essa minha barba me deixa com cara de comunista cubano. É o jeito deles, eu tento entender.

O grande problema, ou o grande problema que eu consigo notar, é o das pessoas que, por estarem em algum estado mais avançado da vida adulta, seja por 2 ou por 20 anos, acham que adquiriram algum nível de capital moral ou intelectual que permite que eles apenas tratem com descaso ou superioridade a opinião de uma pessoa mais nova, como se o simples fato de alguém existir por mais tempo garantisse a essa pessoa algum tipo de sabedoria ou capital moral que é apenas inalcançável para alguém mais novo, por mais esperta que essa pessoa possa ser.

E isso acontece no trabalho, quando o gerente de 50 anos acredita que você por ter menos de 30 não tem a mesma capacidade que ele, acontece nos eventos de família quando suas tias de 60 que ainda vivem de favor com seus avós acham que podem dar conselhos pra você que com 25 já ganha mais do que elas, acontece na internet onde você com 28 acha que sabe mais da vida do que o garoto de 16 porque ele gosta de justin bieber, sendo que você já gostou de limp bizkit e no final ninguém sabe usar as calças na altura certa, se você for pensar.

Por que a verdade é que ser mais velho por si só não garante nenhum tipo de sabedoria ou mesmo de experiência inerente. Uma pessoa pode viver por muito tempo sem aprender praticamente nada ou pode, em bem menos tempo, conseguir ter uma compreensão bem maior e mais profunda do mundo em torno dela, comprovando que ter 20, 50 ou 100 anos não serve de premissa pra analisar o quando uma pessoa está preparada pra resolver problemas ou tomar decisões. E eu sei bem disso, porque ainda me lembro que com uns dez anos eu disse pro meu pai que aquela coisa de Encol não tava com uma cara boa e ele me respondeu um “junior, deixa com seu velho, ele sabe o que ele tá fazendo”.

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4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Desocupações, situações limite, teorias, Vacilo

4 Respostas para “Sobre sua tia, as idosas do flamengo e traços de uma ditadura da cronologia

  1. ThiagoFC

    Alguns dos gênios da humanidade produziram suas grandes obras aos 20 e poucos anos. Claro que eles eram filhos de pais ricos, porque se tivessem que trabalhar pra viver não teriam tempo/cabeça pra escrever, pintar, esculpir e filosofar. E alguns deles morreram de tuberculose, antes de chegar aos 30 anos.

    Enfim, lendo isso aí eu me lembrei de algo que vi hoje, mais cedo, no facebook. O conceito do “pombo enxadrista”: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10151568894954345&set=a.501328209344.265080.579124344&type=1&relevant_count=1

  2. Mateus

    “no final ninguém sabe usar as calças na altura certa”. Resumi o texto nessa frase e guardei esse conceito para a minha vida. Obrigado, mais uma vez!

  3. Elisa França Vasconcellos

    Não tô conseguindo parar de rir das salshas serem um vegetal. aehauehaue

  4. Fernando

    “achava que salsicha era um vegetal” hahahahaha…
    essa foi a the best!!

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