Mini-conto #17 – Uma breve justificativa

marshall

Eu ando tendo uns problemas no trabalho. Desgaste, cansaço, estão me impedindo de sair pra procurar outra vaga, coisas assim, sabe?  Tive uma conversa franca, tentei argumentar, apresentei propostas, mas as coisas não andaram. Aí um dia esperei todo mundo sair e escrevi nas cascas das bananas que eles deixam no cesto de frutas palavras como “morte”, “terror” e “medo”, de maneira que conforme as frutas forem amadurecendo e as letras forem ficando pretas eles imaginem que o nosso andar tem fantasmas.

Uma vez, não faz tanto tempo assim, acho que em 2009, eu estava numa festa, tinha sido convidado por uma garota. Chegando lá eu parecia estar afim da garota, ela parecia estar afim de mim, mas tinha um cara que também estava afim dela e ele ficava me atrapalhando, tentando queimar meu filme, me pedindo pra tirar fotos dele com ela, tudo pra conseguir me colocar de lado naquela história. Numa certa altura da noite eu apenas desisti da garota, peguei a câmera do cara e, me aproveitando que ela era de filme e ele só veria as fotos depois de reveladas, fui até o banheiro e tirei duas fotos da minha bunda. Entreguei a câmera e fui pra casa.

Também bem recente é uma quebra que eu tive no meu dente incisivo superior causada pelo fato de que eu costumava acionar o bloqueio do meu ipod usando a boca, para poder ler, ouvir música e segurar minha mochila ao mesmo tempo quando estava no metrô, e que ocorreu quando o vagão deu uma freada brusca e eu senti alguma coisa estranha na boca mas achei que não era nada. Depois notei que era um pedaço de dente, mas agi como se não fosse nada do mesmo jeito.

Em outras oportunidades nos últimos 3 anos eu já: discuti com a minha namorada porque ela chama microondas de micro e eu acho que micro é o microcomputador; já me tranquei do lado de fora de um quarto de hotel duas vezes na mesma noite;  gastei seis meses para conseguir instalar um filtro de água cuja instalação era tão simples que eles nem mandavam manual de verdade e quando eu telefonei pro atendimento ao cliente a moça disse que “até uma criança conseguiria”; não consegui manter viva por uma semana uma planta que a minha mãe tinha me dado de presente alegando que “essa é uma das que precisam de menos água e luz, até você dá conta”.

Tive dificuldades extremas para exercer atividades como desarmar alarmes domiciliares, abrir portas, encontrar coisas em espaços reduzidos como porta-luvas e gavetas, ler instruções de gps, diferenciar vegetais e conseguir fazer a net funcionar na minha casa mesmo com o receptor e a televisão em perfeito estado. Também esqueci uma melancia em cima da pia e fiz uma viagem de dois dias, comi um palmito sem ver o prazo de validade no pote e passei a noite em claro tendo pesadelos sobre botulismo (mesmo sem saber os sintomas do botulismo), tentei abrir uma daquelas latas de atum que tem anelzinho mas o anelzinho não apenas se soltou e cortou a minha mão como a lata continuou fechada, aí usei o abridor e não apenas cortei de novo a mesma mão como deixei a lata cair no chão. Aí ela abriu, é claro.

Nesse meio tempo também peguei o metrô no sentido errado mesmo fazendo o mesmo trecho nos últimos três anos, achei que o polegar era o dedo menor da mão, confundi esquerda e direita e num dia de calor mantive a geladeira aberta e me sentei diante dela numa cadeira lendo um livro. Ah, e nunca consegui plugar de primeira nenhum cabo, seja hdmi, usb, de joystick ou mesmo de fone de ouvido. A média é três a cinco tentativas.

E apenas por causa de coisas assim, vó, eu acho que a senhora muito provavelmente tá enganada e ainda não tá nem perto da hora de dar um bisneto pra você. Melhor sentar e esperar mais um bocado, sério. Falo de coração.

Anúncios

9 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Declaração de princípios, situações limite, teorias, Vida Pessoal

9 Respostas para “Mini-conto #17 – Uma breve justificativa

  1. Fernando

    Essa história da foto da bunda é verdade?? rsrs

  2. FerNandinhoO Zika OakLey

    “fui até o banheiro e tirei duas fotos da minha bunda. Entreguei a câmera e fui pra casa.”

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKK shorei véi ahuahuhaua

  3. ThiagoFC

    Rindo eternamente da tag “eu escolhi esperar” jjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj (Ri tanto que a tecla K ficou gasta).
    Mas uma coisa eu estou com dificuldade pra aceitar: câmera de filme em 2009? Sei…

  4. Elisa França Vasconcellos

    As crianças de hoje precisam de pais que tirem fotos da própria bunda. Você está enganado. Em todos os exemplos acima, consigo ver boas qualidades para um pai.

    Sempre incentivo as pessoas boas a se procriarem. O mundo tá precisando de crianças que pensem diferente de todo mundo.

  5. Elisa França

    As crianças de hoje precisam de pais que tirem fotos da própria bunda. Você está enganado. Em todos os exemplos acima, consigo ver boas qualidades para um pai. Sempre incentivo as pessoas boas a se procriarem. O mundo tá precisando de crianças que pensem diferente de todo mundo.

  6. Fabricio

    Acho que todos estão medindo seus polegares agora…

  7. Henrique

    Essa dos vegetais é clássica. Dia desses apareceram umas paradas verdes lá em casa, mas eu não sabia se era goiaba, uma espécie de xuxu menor ou algum outro vegetal ao qual eu ainda não fora apresentado. Descobri dando uma facada e sentindo o cheiro. Goiaba mesmo.

  8. Loló

    hey! o polegar não é o menor dos dedos!?

  9. que merda (não o texto, as situações).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s