Dos robinhos da maldade, dos denílsons da babaquice

denilson

Por mais que nós tenhamos consciência de como o mundo é duro, a realidade é complexa e nem sempre aqueles ideais de amizade, harmonia e um coleguinha emprestando o giz de cera pro outro, que aprendemos em casa e na escola, conseguem ser diretamente aplicados por todos na vida real, é sempre um certo choque quando somos obrigados a aceitar que alguma pessoa, seja ela próxima ou distante, está agindo de forma deliberada visando nos prejudicar. Afinal, na nossa narrativa pessoal nós somos os protagonistas, na nossa visão de mundo nós somos os mocinhos, no star wars de cada um somos todos Luke Skywalker e ninguém quer ser Darth Vader (ainda que eu pessoalmente ache mais bacana ser o Lando por que nada supera o combo capa e bigode).

Ainda assim, existem diversas maneiras de racionalizar esse tipo de oposição direta no decorrer da vida. Podemos entender que as pessoas estavam apenas indiretamente nos prejudicando (o cara que sacou o último dinheiro do caixa eletrônico não queria o seu mal, mas mesmo assim foi responsável por te deixar sem dinheiro pro táxi no aeroporto, o que te levou aquela noite insólita em que você foi perseguido pelo mendigo); que elas não queriam nos prejudicar e sim alcançar os objetivos delas (o cara com quem sua primeira namorada te traiu não queria te traumatizar pra sempre, minando sua confiança nos outros seres humanos e na ideia de relacionamentos como um todo, ele apenas queria levar aquela moreninha pra cama); ou mesmo que elas queriam nos prejudicar mas tinham boas razões pra isso (o cara do futebol realmente queria quebrar os seus dentes, mas você não deveria ter dito aquilo sobre a mãe dele).

E mesmo nos casos em que a motivação da pessoa para te prejudicar não tem nada de nobre ou justificado, ainda é possível ao menos estabelecer alguma razão lógica para a atitude dela. Fulano deletou seu powerpoint porque queria que você afundasse na apresentação e ele pegasse a sua promoção, beltrano falou mal de você pelas suas costas porque quer queimar o seu filme, siclano escondeu as próprias jóias dentro da sua bolsa porque é seu irmão gêmeo e quer te chantagear pra que você assuma o lugar dele na família De La Vega, o que realmente te lembra a novela a Usurpadora. O importante é que ao menos existe ali uma motivação clara, uma razão óbvia, algo que te permita compreender o porque das atitudes daquela pessoa.

Exatamente por isso que é muito mais complicado processar esse tipo de atitude quando apenas não existe razão lógica. Aquela pessoa que não quer o seu emprego, não deseja a sua mulher, não quer roubar a sua casa. Ela não tem uma rivalidade com você em nenhum campo, você nunca fez nada contra ela, vocês não tem nenhuma discordância em relação a dar ou não conhaque pra vovó Piedade, mas mesmo assim ela segue claramente operando contra você, mesmo que isso não gere pra ela nenhuma vantagem, seja direta ou colateral, às vezes gerando até certos níveis de desgaste e prejuízo que ela não teria se ficasse apenas na dela, já que aquele escorpião não se colocou na sua gaveta sozinho.

E é diante de momentos assim que você começa a aceitar que algumas pessoas são apenas babacas. Não por razões, não porque estão reagindo a algo, não porque sofreram um trauma de infância, mas apenas e tão somente porque tiram um prazer pessoal da ideia de atrapalhar pessoas, prejudicar colegas, tornar pior o dia de gente que elas nem conhecem direito. E não, não estou escrevendo esse texto apenas porque amigos e conhecidos sempre me falam da convivência com pessoas assim, mas também porque quero justificar aquela história de escrever nas bananas que eu contei semana passada. Fiquei com a impressão de que vocês iriam me achar esquisito e quis demonstrar que a galera aqui meio que merece mesmo e tal. Qualquer um faria a mesma coisa no meu lugar, sério.

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9 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, homens trabalhando, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vacilo, Vida Pessoal, vida profissional

9 Respostas para “Dos robinhos da maldade, dos denílsons da babaquice

  1. ThiagoFC

    Ok, observações:
    1) Algumas pessoas QUEREM ser o Darth Vader. Capona preta mó estiloza, aquela voz de aspirador de pó que bota moral, um sabre de laser vermelho… Até consigo compreender isso. É meio como querer ser o Magneto, em X-Men. Difícil mesmo é alguém querer ser o Jabba The Hut (Pra constar: se eu tivesse que ser um coadjuvante, eu seria o Han Solo).
    2) Obrigado por escrever siclano, e não “sicrano”. Sério mesmo. “Sicrano” é coisa de quem fala “pobrema”, “crasse”, e não é de zoeira.
    3) “A galera aqui meio que merece mesmo”. Quero dar ênfase ao “aqui”. Cara, você escreve posts de reclamação do trabalho, estando NO TRABALHO? Bacana.

  2. Gabriela

    Poxa, abri o post do Feedly só pra curtir, mas cadê o botão? :(

  3. Fernando

    Texto bom, mas achei meio tortuoso…. mas entendi o q vc quis dizer, e sim, existem pessoas q simplesmente adoram te foder, não no sentido bíblico.

  4. josé

    O certo (se é que isso importa) é “cicrano”, beleza, moçada?

  5. Mateus

    não dá pra reduzir Star Wars entre Luke e Darth Vader… #teamChewbacca

  6. Sentir infinitamente, para alguns. Qual a razão de usar sua mente para sentir novamente coisas ruins, fragilidades e decepções? Não me refiro a nenhum princípio religioso, espiritual ou moral, somente uma razão prática: sentir coisas ruins novamente não tem absolutamente nenhuma função, exceto prender você ao passado e tornar você uma eterna vítima de alguém que nem mesmo está tentando prejudicar você mais. Ao guardar qualquer ressentimento você está se acorrentando a alguém que lhe fez mal, mesmo que essa pessoa não queira mais isso. Você está re-sentindo a dor que só existe em sua memória. Repita comigo: nunca mais.

  7. A maldade humana… Você joga/já jogou RPG? Mais especificamente D&D. Lá existem alinhamentos, tendências de caráter que definem a “índole” de cada personagem, diferenciados pelo nível de bondade, maldade, ordem e caos (caso você jogue, estou fazendo papel de idiota ao explicar). Então tem personagem que é simplesmente Chaotic Evil. Não tem uma razão pra fazer o mal, especificamente. Eu gosto de pipoca de microondas, o amiguinho gosta de riscar o carro dos outros na garagem. É assim.

    Agora, outro aspecto interessante é que nem sempre conseguimos entender a lógica do outro. Às (caralho é muito difícil crasear um A maiúsculo de primeira) vezes o babaca riscou nosso carro porque, ao cruzar no corredor, distraídos, não respondemos ao seu “Bom dia!”. E nem lembramos que isso aconteceu. Outras (desisti da crase) vezes simplesmente não entendemos a lógica do outro porque ela é diferente. A lógica comportamental, ao meu ver, não é uníssona. As razões de cada um, por mais tortas que sejam, não fazem sentido pra todos de maneira uniforme.

    Tem gente que sai por aí sacaneando os outros só pra se sentir melhor consigo mesmo. Faz sentido? Não. Se bobear nem elas mesmas se dão conta dessa motivação. Mas um psiquiatra explicaria assim, ou então diria que essa pessoa na verdade gostaria de fazer sexo com a própria mãe (não é o que eles sempre dizem pra todo mundo? haha… hah…).

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