Ortobom é a nova Chilli Beans

sleepwalkwithme

E depois de apenas quatro anos se tornou necessário trocar o colchão. Um pouco porque as pernas se quebraram na mudança, um pouco porque o tecido se desgastou após ser sucessivamente banhado por líquidos coloridos das mais diversas origens, um pouco porque as molas se quebraram devido as diversas vezes em que eu me pendurei na janela para regular manualmente o ar condicionado e deixei meu corpo cair de uma altura de cerca de dois metros dizendo “iupiiiii” no meio da cama.

Diante desse contexto e da necessidade de adquirir não apenas um novo colchão como também uma nova cama, comecei as pesquisas preliminares pela internet, descobrindo rapidamente a complexidade do ramo dos acolchoados, um mundo de valores altos, menções a NASA e tipos de espuma cujo nome é mais longo do que o meu. Mas existe um limite para o quão longe você pode ir pesquisando na internet algo que claramente envolve tato e conforto, e num dado momento precisei ir para as ruas em busca das respostas que procurava.

A loja mais próxima do trabalho era a da Ortobom. Me encaminhei para lá. Os fatos a seguir ocorreram entre 12:30 e 13:00 do dia dezessete de julho.

Entrei e perguntei por uma cama com colchão de molas ensacadas, conforme tinha visto na internet. Disse que estava pesquisando preços e queria saber quais eram as opções. O vendedor me levou até uma lateral da loja, me apresentou uma que parecia boa, me perguntou o que eu achava. Eu sentei nela. Ele me convidou a deitar. Eu deitei nela. Ele me sugeriu que eu ficasse de ladinho. Eu fiquei de ladinho. Ele se deitou perto de mim. Eu me senti extremamente desconfortável.

Perguntei o preço. Ele disse que o preço não era importante. Eu disse que era e perguntei de novo. Ele perguntou se eu tinha gostado da cama. Eu disse que tinha gostado mas dependia do preço. Ele puxou uma cadeira. Eu sentei. Ele pegou uma tabela, ele chamou o gerente, ele consultou a tabela, ele me apresentou o gerente. Eu só queria saber o preço.

Ele disse que custava 3500, eu agradeci, ele disse que podia fazer por menos, eu perguntei quanto. Ele baixou pra 3000, eu agradeci, ele chamou o gerente, o gerente disse que podia fazer por 2800, eu agradeci. Eu só queria saber o preço. O gerente me disse que tinha um feirão, eu disse que ok, ele disse que podia fazer o preço do feirão, eu disse que tudo bem, ele falou que fazia por 2500, eu disse que tudo bem, ele disse que ia telefonar pro gerente regional, eu perguntei por que. Eu só queria saber o preço.

Ele baixou pra 2100, eu disse que tudo bem, só queria saber o preço, ele perguntou porque eu não ia levar, eu disse que não ia levar porque só queria saber o preço, ele disse que era o melhor preço, eu disse que precisava conversar com a minha namorada antes. Ele disse que podia reservar pra mim, eu disse que não precisava, ele falou que eu só precisava dar um sinal, eu disse que não precisava reservar, ele disse que não podia me garantir esse preço, eu disse que não precisava, eu só queria saber o preço, mesmo se fosse mudar.

O gerente falou do feirão da tijuca, eu disse que conhecia a tijuca, ele disse que lá era esse preço, eu disse que tudo bem, ele perguntou se eu não queria deixar dez reais de sinal, ele me devolvia os dez reais, o vendedor se ofereceu pra cobrir os dez reais, eu disse que não precisava, ele perguntou se minha namorada era minha noiva, eu disse que era minha namorada, ele disse que ela ia ser minha esposa, eu fiquei muito confuso porque não queria que o gerente da loja de camas tomasse essas decisões por mim, eu talvez precise amadurecer mais, não sei se ela tá pronta, eu só queria saber o preço.

Ele perguntou a bandeira do meu cartão, eu disse que era master, ele disse que pra master podia dar um brinde, eu disse que não queria o brinde, se ele podia anotar o preço, ele disse que era um preço especial, não podia anotar o preço. Perguntou se eu dava muitos presentes pra minha esposa, eu disse que era namorada, ele disse que ia ser esposa, o vendedor disse que ia ser esposa, senhora transeunte perguntou o nome da minha esposa. Gerente tirou bloco de pedidos do bolso e disse “então vamos confirmar o pedido, me passa seus dados” eu disse meu nome completo sem perceber mas disse que não queria pedido, só queria saber o preço, por favor.

Vendedor pediu meu celular, dei o número de um amigo, ele telefonou, disse que não tava tocando, me pediu pra repetir, disse que meu celular tava quebrado, pedi pra repetir o preço, eu só queria saber o preço. Ficou um clima chato. Ele perguntou meu endereço e preferência de entrega. Eu disse que só queria saber o preço, ele me deu mais cem reais de desconto, eu disse que tudo bem, vieram mais dois vendedores, eles ficaram me olhando, perguntaram se eu queria deitar na cama de novo.Um deles deu duas batidinhas no colchão e olhou pra mim. Saí da loja.

Acredito bastante que minha namorada um dia vá ser minha esposa.

Atualização: no final das contas acabei comprando o colchão lá, seduzido pelos descontos e pela surrealidade da experiência, mais uma vitória do sistema intenso de vendas.

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27 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, homens trabalhando, Rio, situações limite, Vida Pessoal

27 Respostas para “Ortobom é a nova Chilli Beans

  1. De agora em diante, será exatamente assim que imaginarei como será um Apocalipse Zumbi.

    E parabéns pela tag do “Eu só queria um bolinho”.

  2. Ótimo texto ! Tem vendedor que sabe ser mala… por isso que comprar pela internet é sempre uma boa opção, sem intermediários ! Lendo o texto dá vontade de sair correndo destes vendedores zumbis !

  3. Leonardo

    hahahahahahahahahahahaha

  4. Mag

    Passei por uma situação muito semelhante essa semana em Copacabana. Só queria saber o preço e passei uns 10 minutos lá dentro. Saí da loja praguejando e pensando: vendedores de colchão são os mais malas do mundo!

  5. anthoni91

    Republicou isso em Defying Myselfe comentado:
    Um dos melhores textos que eu já li nas internetes dessa vida…

  6. cacete, passei por isso procurando por cada um dos móveis, eletrodomésticos e eletrônicos da minha casa. não dá mais nem pra passar na frente dessas lojas

  7. o cara da ortobom aqui de fortaleza disse que entregaria o colchão aqui em casa e quando eu recebesse é que eu pagaria… delivey kkkk é mole?

  8. Mandy

    Ri muito! Não sei se dou parabéns ou desculpas.

  9. Ótica tbm é nesse mesmo esquema enlouquecedor que você fica enlouquecido repetindo “eu só tava olhando eu só tava olhando eu só tava olhando eu só tava olhando eu só tava olhando eu só tava olhando”.

    Falando em Ortobom, tem dias na minha vida que eu me pergunto por que raios tem tanta loja da Ortobom nessa cidade (São Luís, no caso).

    [Olha as dúvidas da pessoa]

  10. Daniel

    Não gosta de ir na loja? Acha que é coisa do século passado? Compre pela internet:

    http://www.ortobom.com.br/rj/?gclid=CI-RtvPru7gCFRFp7AodsCIAHg

  11. HAHAHAHAH

    Eu fui numa loja da Ortobom aki.. A vendedora era bem novinha.. Me atendeu toda simpática.. Muito bonita, mas não quis deitar na cama comigo… Quero esse atendimento VIP com a vendedora gata da loja da Ortobom aki Em Campina rs.

    Fora isso, parece que ela gostou de mim, conversamos durante umas duas horas até fechar a loja =P Fora isso não tive problemas .. No dia seguinte fui numa outra loja da Ortobom e comprei o colchão que ela havia me recomendado (na loja que ela trabalha não tinha )

  12. Rodrigo

    OBRIGADO PELA VERACIDADE DOS FATOS. EU TAMBEM FUI VITIMA DA ORTOBOM NUM DIA QUE SOH QUERIA SABER O PREÇO E FOI MUITO PARECIDO COM SEU RELATO. NUNCA MAIS ENTREI NESSA LOJA!!!

  13. Minha técnica contra vendedor mala é perguntar se tem algum plano especial para desempregados. Eles desistem na hora.

  14. Concordo como anthoni91
    Muito bom o texto e eu tô rindo até agora. Eu estava indo hoje ver um colchão. Não vou mais porque se eles começarem a fazer isso eu vou rachar de tanto rir.

  15. Raphael

    Passei por algo bem parecido no feirão da Ortobom no Norte Shopping no início do ano. A diferença é que eu estava com minha namorada (hoje noiva). No final da conversa o vendedor ficou muito irritado porque não quisemos levar o colchão apesar de ele ter dado um desconto muito grande. Nunca iria imaginar que essa bizarrice se tornou padrão de atendimento da empresa.

  16. Vladimir

    lol
    Passei pela mesma situação, os mesmos argumentos, os brindes, tudo igual!!! No final o gerente parecia que iria me espancar se eu não levasse o colchão.

  17. Elisa França

    AHueAHeuhaUehauehu! “Eu só queria um bolinho”. Muito boa a tag! Esse vou até compartilhar!

  18. Rafael

    A Ortobom é assim sempre, aconteceu o mesmo comigo, uma sucessão de descontos mirabolantes. No fim das contas acabei comprando lá, me sinto um idiota agora (embora o colchão seja muito bom). rsrs

  19. christiane

    Nossa, estou precisando comprar um colchão, pensei em ir na ortobom mas estou com medo e totalmente sem paciência ! q horror, q saco, qta inconveniência ! e o seu relato foi tudo, mto bom, rsrsrs !

  20. Amanda

    É infelizmente a Ortobom tem esse tipo de atendimento que se chama “FECHAMENTO POR CONSTRANGIMENTO” que é uma prática comum e ridícula, que ensinada em seus treinamentos de venda, já fui vendedora da ortobom e esse é apenas um dos motivos pelo qual saí faz tempo, hoje trabalho em outra empresa de colchão, com preços compatíveis com o mercado, garantia superior e excelência em padrão de atendimento! Ah o texto é super interessante…

  21. Aline

    Espero que tenha tido sorte com a sua escolha, afinal, você acabou sendo vencido pelo cansaço. Hoje em dia, existem milhares de Empresas melhores e mais qualificadas no mercado, afinal, estamos falando de um item que não é barato e está diretamente ligado à sua saúde, porque não investir o mesmo ou um pouquinho mais em um produto com mais qualidade e garantia?
    PS: Ri demais com o seu texto.

  22. Pingback: Música Na Lata #009 - Filho de peixe, peixinho é! Especial Dia dos Pais - Música Na Lata

  23. Quer ter a mesma experiência numa loja de roupa? Vai na Taco Jeans.
    (parabéns pelos posts, eles são fodas)

  24. da proxima vez, briga por mais educação pra todo mundo. se der certo, vc não vai passar por isso! http://www.youtube.com/watch?v=OLef1zl7k4Q

  25. Sérgia de Lima Juraski

    Cara, você escreve muito bem: parece que estou vendo você (e eu, claro, porque me senti exatamente igual todas as vezes que entro numa loja seja do que for – sapatos, roupas, eletro, informática, ou até colchões). Você capta os lances, os sentimentos, a aura toda que cerca, hoje em dia, tentar uma compra física. Tá difícil. Não sei o que pode estar causando isso nos vendedores, lojistas, fabricantes, qualquer um.

  26. se o preço final com descontos era realmente justo, considero um privilegio ser atendido assim :p quando eu sai pra trocar o colchao, ninguem me deu 1500 reais de desconto e brindes (aquelo rolinho, sempre quis aquele rolinho. ou o travesseiro da nasa)

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