Das palavras de apoio que numa análise mais fria não te apóiam tanto assim

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Com uma certa freqüência durante nossas vidas nos deparamos com situações em que estamos buscando um objetivo que não é considerado necessariamente fácil ou para o qual não nos sentimos completamente preparados. A carreira que oferece poucas vagas, a garota que nunca deu muita brecha, o apartamento na zona sul carioca cuja fila de visitação é maior do que a do louvre. E nessas horas nossa confiança muitas vezes pode fraquejar. Achamos que não somos bons o bastante pro emprego, que não vamos saber como falar com a garota, que não vamos nunca ser capazes de conseguir os 16 fiadores, pagar os 12 meses de caução e entregar o mapeamento de DNA que a imobiliária pediu (“e é bom trazer rápido porque alguém já fez uma proposta e trouxe a endoscopia em HD pra gente analisar”)

E é nesses momentos que muitas vezes precisamos de uma palavra de estímulo, de um conselho amigo, de uma voz repleta de confiança nos lembrando que sim, é possível, que somos capazes, que vamos conseguir. Aquela frase bem colocada que, mesmo não aumentando nossas chances de solucionar o problema, nos ajuda a acreditar e encontrar dentro de nós mesmos a força necessária para resolver aquilo que antes parecia impossível. E dentre todas as palavras, todas as frases, todas as sentenças que consideramos capazes de realizar essa missão, uma das piores é, sem dúvidas, a clássica “você vai conseguir porque todo mundo consegue”.

Você sabe porque já aconteceu com você. Você achou que não ia conseguir passar na prova e seu pai mandou aquele “mas todo mundo passou, você vai passar”; pensou que seria incapaz de tirar carteira de motorista e sua mãe soltou um “mas todo mundo consegue, não tem como você ser o único”; disse que achava aquela menina areia demais pro seu caminhãozinho e seu amigo soltou um “mas cara, ela já ficou até com o alberto, o que ia pra faculdade de carona no caminhão do lixo e comia banana com katchup”.

E o grande problema desse tipo de argumento é que, além de deixar na sua mente a imagem perturbadora de um homem comendo banana com katchup, ela te coloca numa situação em que ao invés de estimulado ou mais confiante, você se vê apenas inserido numa nova versão do paradigma da briga de bêbado: não existe vitória, existe apenas obrigação, não existe erro, existe apenas fracasso e vergonha.

Afinal, se todo mundo passa na prova e você passar, você não fez nada além da sua responsabilidade. Se todo mundo consegue tirar carteira de motorista (e sua mãe exemplifica citando a vizinha narcoléptica, o tio ceguinho, a prima que aos doze anos ficou com a cabeça presa num basculante) e você não consegue, você é pior que a vizinha narcoléptica, o tio ceguinho e deveria ficar longe de basculantes, mesmo tendo 28. Se ela ficava com o cara que comia banana com ketchup mas não quiser ficar com você então você é menos atraente do que ele, ainda que nunca mais vá se sentir culpado por gostar de colocar requeijão em tudo.

Não que seja racional ou que se possa comparar pessoas dessa forma, claro – quem nunca prendeu a cabeça num basculante? janelinhas mais traiçoeiras – mas essa sensação de pressão e o simples fato de que você está excluindo qualquer possibilidade de falhar dignamente logo quando a pessoa mais tem medo de não conseguir, tornam o “você vai conseguir porque todo mundo consegue” pior até do que discursos motivacionais claramente ruins como o “alguém vai ter que conseguir” e o “vamos te amar independente do que acontecer, junior”, clássicos do momento em que você achava que não ia dar até o momento em que alguém conversou contigo e você passou a ter certeza.

Então façamos um esforço em busca de palavras de estímulo melhores. Aquele “ah, mas ninguém vai morrer por causa disso”, o “com certeza dava pra ser pior”, um “a idade recomendada nessas caixas é só uma sugestão, não se sinta pressionado”. Mas claro, tudo bem não conseguir, não é todo mundo que consegue mesmo.

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7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Desocupações, homens trabalhando, situações limite, teorias, Vida Pessoal

7 Respostas para “Das palavras de apoio que numa análise mais fria não te apóiam tanto assim

  1. Ou pior, você vê a gata e ela é tudo o que você sempre sonhou e aí pra te motivar os seus amigos começam “mas cara, ela nem é tão gostosa assim veja bem você tem chances pq olha como ela é meio torta do lado esquerdo e olha como o cabelo dela está quebrado e se você reparar bem, vai ver que ela é bem acessível na verdade” o que te deixa intrigado em saber que seus amigos te consideram um bosta que não conseguiria pegar coisa melhor (mesmo que isso for verdade) e também começa a mostrar que a mulher, antes perfeita, não é tão perfeita assim. Você tenta, mas todas as vezes que vai falar com ela vê que o rímel está embolotado nos cílios, o dente é quebradinho e realmente, ela é meio torta.

  2. “você vai conseguir porque todo mundo consegue”. Aí você não consegue, lembra do cara comendo banana com catchup e pensa: “Se eu perdi pro Alberto, vou empatar com quem?”. Daora a vida.

  3. Ah, e #SddsDiscursosMotivadoresDoRonaldoCampbellNosJogosDoImprensionadosEmViçosa

  4. Diria que a foto desse post é perfeita! O discurso desse treiler é motivador como poucos conseguem ser… ou não.

  5. Cara, seu blog é o meu local de visitação preferida.

    Excelentes textos, excelentes mesmo.

    “E porque você não tem um blog assim? Todo mundo consegue” uhahauha

    Grande abraço

  6. Elisa França

    “A vida é ruim assim mesmo”, me disse uma amiga depois de eu voltar bêbada com o coração partido. Gostei do conselho. É algo como: “não se preocupe, vai ficar muito pior.”

  7. Renata

    Cara, seus textos são demais…E os comentários também são hilários (rimou!). Você poderia fazer uma série sobre esses comentários motivadores #sqn, eles sempre me intrigaram(pq a pessoa não ficou quieta, fez cara de piedade e te afagou, simples assim?).

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