Item #77 do guia de bolso dos pequenos desconfortos conversacionais

leandro_lehart

O sol já se pôs, a lua caminha inexorável pelo céu e você, diante da sua mesa de trabalho, está concluindo projetos atrasados, dando retoques em projetos atuais, preparando para o dia seguinte projetos vindouros. No fone de ouvido apenas músicas que te propiciam a maior e mais intensa imersão no universo burocrático do seu trabalho – acústico art popular – e a intenção de aproveitar as horas em que o escritório está absolutamente vazio para se dedicar de corpo e alma às suas demandas profissionais.

Mas o escritório não está absolutamente vazio, é claro. Enquanto Leandro Lehart entoa seu ôôaa ôôaa você ouve um som que lembra uma voz humana tentando romper a barreira idealmente intransponível representada pelos seus fones de ouvido de tamanho propositalmente grande e cores deliberadamente berrantes. No começo você ignora, mas o volume da manifestação externa vai apenas crescendo até chegar a um ponto em que você considera que pode ser adequado ao menos descobrir de onde vem o ruído.

O som está sendo emitido por uma colega de trabalho retardatária, que permanece em sua baia, provavelmente também realizando de forma intensa alguma atividade profissional. Você abaixa o fone, esperando que ela tenha se dirigido a você para alguma troca de valiosa informações de âmbito executivo. Ela comenta, olhando para o infinito. “Nossa, mas tá frio, não?”. Você imagina que não seja contigo, que ela esteja falando sozinha. Coloca os fones de volta. Leandro já ataca bombocado e desliza pelos trocadilhos entre sexo e sobremesas.

Quando a canção começa a relatar como o amor chegou numa noite de verão você novamente percebe o ruído ao fundo, cada vez mais alto, e dessa vez a mulher está encarando você. Tira os fones, solta um confuso “oi” e recebe em troca um “Tá frio, não tá?”. Responde com um desanimado “aham, claro, frio” e encara a mulher por mais 5 segundos, esperando que aquilo tenha sido apenas um pretexto pra que ela diga mais alguma coisa. Ela não diz nada, se senta, vira as costas. Você recoloca os fones. A faixa 7 do unplugged in new york do pagode brasileiro já toca macia e você não começou uma mísera planilha.

Duas faixas se passam, você começa a entrar no ritmo, mas rapidamente percebe que ela voltou à carga. A voz vem alta, a voz vem de perto e quando você se vira na cadeira ela está praticamente rente ao seu rosto. Tira o fone. “Qual é o seu windows?”. “XP, por que?”. “Curiosidade”. Vira de costas pra você. Você volta pra posição original. Senta. Aumenta o volume. Sabe que ela voltou a falar mas tenta não ouvir. Se deixa levar pela música. O grupo ataca Lua e Estrela, você está envolvido pela melodia desse releitura mais suingada do original de Caetano. Sente uma mão batendo no seu ombro. Tira o fone. “Você tem chiclete?”. Diz que não tem chiclete. Olha fixo pra ela com uma intensidade vista apenas em psicopatas e vendedores da Chilli Beans. Coloca o fone de ouvido. Vira na direção da tela. Foca de novo na planilha. Liga o volume no máximo e tenta não pensar em sangramentos no tímpanos.

Cinco minutos se passam e você não ouve nada. Seu corpo naturalmente relaxa. O trabalho começa a fluir e você acredita que a mulher já tenha ido embora. Reduz gradualmente o volume até um nível agradável. Respira. Descontrai a postura na cadeira. Sente uma mão no seu ombro. “Mas você não tá sentindo frio mesmo?”.

Agora chuva é temporal e todo o céu vai desabar.

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2 Comentários

Arquivado em Gente bizarra, homens trabalhando, situações limite, trabalho, vida profissional

2 Respostas para “Item #77 do guia de bolso dos pequenos desconfortos conversacionais

  1. Cara, fico impressionado (impressionado? Talvez a palavra correta seja preocupado) como cada vez mais me identifico com seus posts sobre ambiente corporativo. Não pela dedicação ao trabalho até as mais improváveis das horas, mas pela falta de percepção das pessoas de que fone de ouvido é uma espécie de escudo anti-conversa, a não ser que seja algo extremamente importante (“Sei que você tá curtindo bastante esse solo da guitarra do Slash, mas o paciente pode morrer se você não estancar o ferimento”). Tamo junto!

  2. Elisa França

    Eu fico tão feliz por não trabalhar mais em um ambiente corporativo. Tudo bem que eu só jogava farmville, mas era deprimente mesmo assim.

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