Item #67 do guia de bolso dos pequenos desconfortos conversacionais

vilhena

Se trata de um daqueles relacionamentos cujo grau de intimidade é confuso. Você não consideraria um amigo, mas é mais do que um conhecido, não trabalhou contigo então não é colega, vocês não tem vínculos de parentesco que você saiba. Se conhecem faz tempo mas suas horas de conversação somadas não permitiriam que vocês tirassem um brevê pra pilotar avião de papel.

Você estava esperando a namorada sair do trabalho, ele estava de passagem, você viu que ele acenava do outro lado da rua, acenou de volta, viu que ele atravessava a rua, o aceno se tornou mais tímido, viu que ele se aproximava e o que era um aceno se tornou o movimento em libras para “puta arrependimento do caralho”. Simulou uma olhada no celular mas era tarde demais para ser salvo pelo candy crush.

Ele bateu no seu ombro, soltou aquele “mas e a galera nunca mais” e você teve que se esforçar mentalmente pra saber de qual galera ele tava falando porque a conexão entre vocês dois começou a ficar bem borrada na sua cabeça, como se tivessem voltado ao passado e impedido o namoro dos pais de alguém. Falou que realmente, tinham que marcar alguma coisa.

Ele falou sobre o tempo, você disse que tava frio, ele falou que preferia calor, você disse que frio tava ok, ele não tirava a mão do seu ombro. Você olhou pro relógio, olhou pra dentro do prédio, olhou pra catraca, olhou pro celular, olhou pro abismo e de lá o abismo continuou falando e disse que você precisa voltar a aparecer no bar da praia, quanto tempo, galera tá sentindo sua falta, tem que lembrar dos amigos.

O tempo passava as horas se estendiam e as pessoas ao seu redor nunca te entendiam, o cara continuava falando, você respondendo polidamente, a namorada não descia, você acreditava que naquele tempo ela poderia ter descido da estação espacial, como poderia não ter descido do 16º, olhava ansioso no relógio, conferia o celular, ele tinha soltado um “mas e o mengão” e deus sabe que quem tá com pressa não pergunta sobre o mengão, ainda mais com esses laterais.

Decidiu que ia embora, ia despedir, ia dar a volta no quarteirão e depois voltar, já tinha esperado dez minutos – meu deus, foram só dez minutos – a namorada podia esperar cinco, que isso. Aproveitou uma fração de segundo de silêncio e falou aquele “então, cara, bom te ver e…” que saiu exatamente na mesma hora que o dele “mas então, tava querendo te falar…” e ficou aquele silêncio. Tentou consertar, buscou a gentileza com um “não, pode falar, o que que…” que saiu na mesma hora que o “não, mas se você tá com pressa eu…”. Sorrisos amarelos. Aquele tapa no ombro. Disse que precisava ir, caminhou em linha reta.

“Tá indo pro banco?” – “Não, não, tô indo…pro metrô, é, pro metrô” – “Ah, que bom, tô indo também”. Caminhou em direção ao metrô. Torcida era apenas pra ele não querer ir pra Pavuna.

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6 Comentários

Arquivado em Gente bizarra, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

6 Respostas para “Item #67 do guia de bolso dos pequenos desconfortos conversacionais

  1. And the “Best Tag in the week” Oscar goes to: “baseado em fatos reais mas achei que seria mais dramático se trocasse o bróder da pelada pela namorada”. (Como alguém disse esses dias: você escreve textos sensacionais, mas o que te famoso no futuro são as tags).

  2. (O conhecido em questão é o Paulinho Vilhena???? Porque não tinha nenhuma tag comentando a foto…)

  3. marcella

    r i p chorão

  4. Pingback: Discovery Tímidos | Confeitaria Mag

  5. Pingback: Discovery Tímidos | AlineValek

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