Medo e delírio no elevador da firma

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Era um final de tarde normal, após um dia normal, de trabalho normal, numa empresa normal. Você se encaminha para o elevador, o andar é o 25, a bolsa carteiro pesa nos ombros, a camisa social amarrotada, o ipod com a playlist que sua namorada montou toca aquela versão de skinny love (amor magrinho) que você gosta. Ele para no 24, ele para no 23, quando ele para no 22 entra um grande número de pessoas. Acontece aquela acomodação natural, pessoas se cumprimentam, se apertam, se reorganizam, você olha o celular pra evitar algum conhecido. Uma descida de elevador normal num dia normal.

Uma senhora se acomoda na sua frente, mochilinha nas costas, você nota algo de diferente. No começo não sabe definir, no começo não sabe explicar, no começo é algo que, assim como o amor numa canção do sorriso maroto, é pra sentir, não pra entender. Mas num dado momento você entende. O sentido certo se manifesta e você percebe: o cheiro tá esquisito. Não pouco esquisito, não o esquisito normal, se acreditarmos que existe um padrão normal para a esquisitice, mas um esquisito berrante, um esquisito atípico dentro de sua própria esquisitice. Em suma, a senhorinha na sua frente está fedendo bastante.

Imediatamente você percebe que todos perceberam. Uma espécie de círculo invisível se formou em torno da senhora, no qual todos tentam se afastar de forma rápida porém discreta, seguindo todas aquelas normas do tratado social que aprendemos a respeitar porque não somos mais crianças e sabemos que coisas assim podem acontecer.

Os andares se seguem, respirações são prendidas, alguém faz menção de se manifestar, um simula uma tosse, mas existe um acordo tácito, um trato de cavalheiros entre todos que estão naquele elevador relacionado a não expor a pobre mulher a uma situação dessas, afinal, não sabemos o que pode ter acontecido, não conhecemos aquela pessoa, não sabemos as causas daquele odor.

Poderia ser aquilo um problema de saúde? Uma senhora atormentada por uma doença de pele que faz com que ela não controle seus odores corporais, uma vítima de uma cruel piada da mãe natureza, uma pessoa que convive diariamente com um problema constrangedor durante toda sua vida e que pede de nós apenas a compreensão de uma viagem de elevador de alguns minutos em piadinhas, ofensas, desrespeito?

Poderia ser aquele um momento especificamente ruim na vida de uma pessoa que anteriormente nunca tinha lidado com nada nem parecido? Um divórcio complicado, uma noite em claro, a decisão de dormir no trabalho após descobrir uma traição do amado, uma pessoa cuja vida já está de cabeça para baixo e por isso nem é capaz de perceber uma questão mínima como seus odores corporais? Será que faz algum sentido recriminar por algo tão pequeno alguém que já está vivendo um drama tão grande? Temos nós esse direito?

E o elevador chega no térreo. Todos em silêncio. A porta se abre em triunfo e todos caminham. A sensação é de alívio pelo fim da jornada mas ao mesmo tempo você deseja mentalmente para aquela senhora dias melhores, a solução dos problemas, uma vida com mais carinho na qual nenhum de vocês dois passe por situações assim.

Nessa hora um jovem com uma caixa passa ao lado de vocês, olha pra mulher e diz “MAS TÁ FEDENDO PRA CARALHO, HEIN, MINHA SENHORA? PAPUTA QUE TE PARIU”.

Não existe amor no Rio de Janeiro.

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6 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Gente bizarra, Rio, situações limite, Vacilo

6 Respostas para “Medo e delírio no elevador da firma

  1. Naiara Costa

    Tags tags tags. <3

  2. Naiara Costa

    Imaginei a porta do elevador abrindo e alguem gritando como Mel gibson no final de coração valente.
    É que já rolou isso comigo, tirando que não foi num elevador. Mas porra, o menino fazia hipismo antes de ir pra aula, apesar de que acredito até mesmo que o cavalo deveria cheirar melhor do que ele.
    De qualquer forma, no fim rolou uma intervenção da turma, compra de desodorantes e tal. Não existe amor em lugar algum. (pesado)

  3. Sensacional, mais uma vez! Parabéns, mais uma vez!

  4. Alexandre de Pádua

    Sempre marotando malemolentemente no desenrolar de suas idéias. Show de buela!

  5. Pelo menos não teve a “sorte” de pegar a mesma condução da senhora.

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