Possíveis gimmicks que eu considerei utilizar para definir minha personalidade se aquele lance da fonoaudióloga tivesse dado certo e eu tivesse deixado de gaguejar

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E no começo desse ano eu decidi voltar a fazer sessões de fonoaudiologia, visando resolver o meu decrescente, porém constante, problema de dicção. Não foi uma decisão fácil, não foi uma decisão tomada de forma leviana, não foi uma decisão que durou mais de um mês porque eu tinha que acordar muito cedo e aí eu acabei desistindo. Mas durante esse mês em que fiz as sessões um receio passou pela minha mente: o de, me livrando da gagueira, perder aquele que possivelmente é o meu mais definido e claramente perceptível traço de personalidade (“cara, bebi ontem com o joão” – “qual joão?” – “o moreno” – “hummm” – “o barbudo” – “hummm…” – “o jornalista” – “não tá me dizendo nada” – “o que tem as mãos muito pequenas em proporção aos pés e ao resto do corpo, se você reparar bem” – “ainda não” – “o gago, cara, o gago” – “ah, o gago, cara, grande gago”). Diante da necessidade de, nesse tipo de situação, desenvolver um novo traço marcante de personalidade, cheguei nessas, que foram as minhas cinco melhores ideias.

O cara que dá dicas pro final de semana – Tudo começaria com pesquisa. Eu leria sites de entretenimento, portais de cinema e teatro e quando as pessoas viessem me perguntar, numa quinta ou sexta-feira, “e aí, joão, qual é a boa?” eu seria capaz de oferecer informações pormenorizadas sobre os eventos sociais e culturais do final de semana, com valores, breves resenhas e possíveis rotas menos congestionadas de transporte, fazendo com que, ainda que talvez eu não me tornasse conhecido como “o cara que sabe qual é a boa”, eu ao menos me livrasse de uma das perguntas retóricas que mais me deixa confuso – como assim qual é a boa, cara?

O cara dos fantoches – Eu andaria sempre com um fantoche de mão, que teria um nome e uma voz específica e que eu trataria como se tivesse uma personalidade independente da minha. Usando o fantoche para chistes bem humorados e para incrementar apresentações no meu ambiente de trabalho, eu me tornaria cada vez mais obcecado pela ideia do fantoche até chegar num momento em que ele me acompanharia no banho e dentro de casa. Uma noite, na cama, eu surpreenderia minha namorada com a frase “adivinha quem também quer brincar?”, ela terminaria comigo e eu seria “o cara deprimido que está dando vodka para um fantoche usando canudinho” ou uma versão mais curta disso.

O cara do cemitério indígena – Lenta mas constantemente eu começaria a utilizar como explicação para todas as coisas o fato de que naquele local anteriormente existia um cemitério indígena. Errei passe no futebol? Naquele campo antigamente era um cemitério indígena, vi um vulto passando, lancei a bola, não era ninguém. Atrasei a entrega do relatório? No prédio antigamente existia um cemitério indígena, entreguei meu trabalho pra um homem de tanga, ele disse que ia levar pro gerente. Fiz uma piada ruim no almoço de família? A casa dos meus sogros ficava em cima de um cemitério indígena, uma voz me disse que aquela era das boas, mas as piadas de pontinho decaíram um pouco após 1400.

O cara da corcunda falsa – Usaria uma corcunda claramente falsa, feita com uma toalha de banho, nos mais diversos ambientes e situações. Sempre posicionada de forma deliberadamente amadora, para que a corcunda em cada instante estivesse numa parte diferentes das minhas costas, esse hábito seria primeiro encarado com perplexidade, depois com confusão, até que alguém inevitavelmente viria me perguntar o por que daquilo e eu apenas me ajoelharia no chão, ergueria as mãos para o alto e gritaria “esmeraaaaldaaaa”. Mas não seria uma referência ao corcunda de notre dame, mas sim a novela do SBT na qual a protagonista é cega e a música tema é cantada pelo artista Xanddy.

O cara que é primo de terceiro grau do atacante Schwenck, ex-Figueirense, Botafogo, Cruzeiro e Pohang Steelers – Utilizando-me do fato de que descobri num encontro de família que o atleta Schwenck é possivelmente filho de uma prima da minha avó, começaria a envolver o jogador em todos as conversas, primeiramente apenas nas relacionadas ao futebol (“ah, esse gol meu primão não perdia”), passando depois para o nível esportivo (“cara, mais lento que um zagueiro diante de uma arrancada do Schwenck, esse Bruno Senna”) e finalmente utilizando isso em todos os aspectos da minha vida (“me deixa só entrar pra ver se a boate tá boa? eu tenho um blog e sou primo do atacante Schwenck”). Terminaria comigo escrevendo um longo post muito chateado no facebook.

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5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Desocupações, Rio, situações limite, Vida Pessoal

5 Respostas para “Possíveis gimmicks que eu considerei utilizar para definir minha personalidade se aquele lance da fonoaudióloga tivesse dado certo e eu tivesse deixado de gaguejar

  1. “João, o gago”? Cara, você não se dá o devido crédito…
    – “Encontrei ontem com o João”.
    – “Que João?”
    – “O João que escreve bem pra caralho, tem um blog massa na internet e faz uns cards de Magic bem daora, usando pagode como tema”.
    – “Ahhhh… O João….”

    Isso sim, seria mais adequado.

  2. Acho que o Erik Gustavo passou na sua frente na fila para se tornar “o cara do fantoche”.

  3. Artículo

    Muito bom velho.

    Quando chegou naquela parte do “…esse hábito seria primeiro encarado com perplexidade, depois com confusão…” eu ri de forma convulsiva aqui. =D

  4. Ana

    Eu iria com “o cara dos fantoches”, definitivamente

  5. luiza

    o cemitério indígena é a resposta pra tudo

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