Registros de uma vida na sociedade do fail

lasier

Como qualquer um sabe, nunca antes a humanidade viveu num ambiente em que é tão fácil deixar para trás registros e memórias de si mesmo. Se os homens pré-históricos deixavam pinturas em cavernas, os povos antigos desenvolveram alfabetos e criaram os primeiros registros literários, e na era moderna chegamos a produção em larga escala de livros, ao registro em filme e foto, a acumulação de dados, hoje vivemos num período em que uma pessoa média pode fazer uso de um sem número de formatos para registrar seus atos. Temos fotos no instagram, temos vídeos no youtube, temos redes sociais onde podemos narrar cada passo do nosso dia, sendo limitados apenas pelo nosso próprio senso de constrangimento e pela volume de pessoas replicando “jovem, qual é a necessidade disso?” na nossa timeline.

Mas ao mesmo tempo que nunca tivemos tantos canais para nos expressar e registrar nossas memórias, nunca fomos, em nenhum outro período histórico, tão vigiados. Sua vaga mal feita no trânsito pode ter sido fotografada, sua briga com a namorada no metrô filmada, sua discussão com o amigo está registrada letra por letra porque aconteceu via chat do facebook. Ou seja, nunca, em absolutamente nenhum período da história, nossos erros, nossas vergonhas, nossos vacilos, tiveram um potencial tão imenso para não apenas serem jogados de volta na nossa cara como também distribuídos e replicados, alcançando um volume de pessoas inimaginável e fazendo com que a sua dificuldade pra tirar o seu carro da rua na Itália se torne a tarde de diversão de um grupo de estagiários numa firma de direito em Tóquio.

A verdade é que hoje vivemos num ambiente em que o potencial cumulativo para vergonha de todos nós é tão grande que na maior parte das vezes nem mesmo podemos entendê-lo direito. Se quando éramos crianças um tombo numa festinha, uma ideia errada numa garota, eram coisas que durariam semanas de discussão e anos de apelidos dos quais você se livraria ao ir pra faculdade e mudar de colégio, hoje os nossos erros, os nossos fracassos, as nossas pequenas cagadas diárias, assumiram um potencial viral. Seu vídeo sobre as vantagens de ser otaku vai ficar na rede pra sempre, sua foto fazendo pole dance num poste agora entrou em domínio público, sua exasperação diante de uns caras se passando por empregados da Telerj e dizendo que sua voz é fina será analisada e discutida nos fórums de jogos do UOL por toda a eternidade.

E isso é, se você por algum segundo tentar imaginar as implicações, algo imobilizador. Porque todo e qualquer vacilo, toda e qualquer escorregada, toda e qualquer inconformidade, se torna passível de registro. A garota que você cantou de forma desajeitada no bar pode ter um tumblr onde ela ridiculariza as péssimas abordagens que recebe na noite, o cara que você empurrou sem querer no metrô tem um blog no qual vai criticar a grosseria do carioca médio, a sua pergunta confusa e inocente no twitter pode receber rts o bastante pra que até o cara da padaria saiba que você achava que o mercado livre tinha uma sede física onde era possível comprar as coisas do site sem pagar o frete.

A coletividade, que sempre gostou de criticar, julgar, e se divertir as custas dos erros e derrotas dos seus membros, finalmente evoluiu até um nível de apuro técnico em que o input de constrangimento se tornou diário e ininterrupto, sendo na terça um vídeo de bah-mitzvah, na quarta um professor chamando a aluna pra beber um vinho, na quinta um menino cantando uma versão da katy perry, na sexta uma mulher desesperada pedindo que um homem com nome de personagem da série carga pesada lhe entregue um chip. Não nos tornamos piores como sociedade, não começamos a errar mais, não nos tornamos mais propensos a tomar choques catastróficos quando tocamos no que parecem ser inofensivos cachos de uva. Apenas aperfeiçoamos ambientes reais e virtuais para que esses eventos tenham a maior chance possível de registro e o maior raio imaginável de exposição.

Vivemos na era do fail. Vivemos no século do vacilo. Vivemos no período histórico mais propenso, desde as cavernas, a gerar constrangimento, vergonha, dor e repercussão negativa através dos atos mais simples e inocentes, mais infantis e bem intencionados. E é nisso, amigos, apenas nisso que eu consigo pensar quando lembro que existe por aí um vídeo meu num sambokê da Lapa cantando a canção 24 horas de amor do grupo Exaltasamba, na qual eu faço a segunda voz e digo que “é muito duro, é inseguro, o meu desejo”. Definitivamente é um mundo perigoso esse aí fora.

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas, Internet, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vacilo

2 Respostas para “Registros de uma vida na sociedade do fail

  1. Sabe quem tá propenso a prosperar nessa sociedade do vacilo, rindo às custas da vergonha alheia? Ele mesmo, o Nelson, dos Simpsons: https://fbcdn-sphotos-a-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash4/430892_111236635718582_1132271363_n.jpg

    Rapaz, e essa história do vídeo do Exaltasamba me lembrou que há um tempo descobri que um colega meu do ensino médio tem um registro em vídeo de uma apresentação épica de quando estava no terceiro ano e fez cópias para os envolvidos. Eu tenho que ligar pro cara e buscar a minha!

    Sobre essa lance do excesso de registros de cada passo: pessoal do “Hermes & Renato” andou falando disso neste ano, com uma edição especial do “Documento Trololó” e até um trailer duma novela (ficou só no trailer, infelizmente), “Páginas do Instagram”. Recomendo.

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