Sobre a obrigação de dar alguma opinião

caetano_veloso

Ainda que eu não seja daqueles que responsabilizam a internet pela dissolução da família, a violência nas ruas e a falta de assunto nas festas de reencontro de turmas (“ah, e eu fui pra Itália, sabia?” – “sei, eu vi seu álbum de 700 fotos, incluindo aquela empurrando a torre de pisa. assim, bem original”) eu considero que ela é uma das principais responsáveis por outro fenômeno perturbador e bastante típico da nossa era: o fato de que todos nós nos sentimos na obrigação de ter opiniões sobre tudo.

E isso não porque com o surgimento dos twitters e facebooks nós temos mais plataformas do que nunca para expressar as nossas opiniões, sejam elas quais forem, sobre o tema que for – “acredito que não apenas o homem não pisou na lua como esse descobrimento da américa tá meio mal contado”. E também não porque pelo próprio funcionamento dessas redes nós temos a possibilidade de emitir essas opiniões para um número ilimitado de pessoas, com uma quantidade mínima de filtros e em condições que vão desde a opinião ponderada e consciente sobre o novo lolo que é menos macio que o antigo até o ponto de vista alcoolizado e digitado no celular sobre a questão das cotas – “sou cntr as costas pa mullatps malhds”.

Mas sim porque a soma desses fatores criou um ambiente em que não apenas nos sentimos cada vez mais propensos a emitir opiniões nascidas de um nível cada vez menor de pesquisa – “sou contra porque minha amiga postou um gif dizendo que era ruim” – como nos sentimos quase culpados quando não opinamos e assim obrigados a ter pelo menos alguma posição diante de todas essas questões que diariamente são trazidas à tona, por mais que tenhamos pouca compreensão ou mesmo o mais absoluto desinteresse quanto aos temas abordados. Eu mesmo uma vez fui pressionado para dar uma opinião sobre a crise na Grécia e tudo que consegui dizer é que eu era contra, o que, acho, não deve ter feito muito sentido na hora e menos sentido ainda depois.

Então, ainda que em alguns instantes isso possa parecer quase impossível, é hora de aprendermos que é normal não ter opinião. Não saber do que se trata, pedir mais tempo pra pesquisar, sugerir que a pessoa explique melhor a questão, ir ao banheiro discretamente e de lá acessar a Wikipedia, ou mesmo admitir que você não tem picas a ver com o assunto, nada disso te torna necessariamente uma pessoa menos interessante ou menos engajada nos problemas do mundo. Apenas, muito provavelmente, diminui as suas chances de ser o cara que vai escrever um texto de duas páginas comentando uma notícia no facebook apenas para cinco minutos depois descobrir que ela foi inventada por um garoto no twitter ou a pessoa que diz genericamente que é contra todas as PECS porque entendeu que elas são tipo os atos institucionais – “PEC 42 deve ser tipo um AI5, só que, sei lá, quase dez vezes pior, né, cara?”.

Mas claro, essa é a minha opinião, e você tem todo o direito de não ter opinião nenhuma sobre ela (ou mesmo não ter nada a ver com isso)

(texto publicado originalmente na revista em minas)

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4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, revista em minas

4 Respostas para “Sobre a obrigação de dar alguma opinião

  1. Mais alguém acha que, nesta era do todos-devem-opinar-sobre-tudo, o único consenso possível é “não gostei, achei ofensivo. deleta isso aí”?

    Enfim, vou ali no avaaz, criar uma petição online contra a crise na Grécia.

  2. Naiara costa

    Tenho pra mim que um dia vão descobrir que essa é a razão pro pessoal sair por ai atirando em inocentes, as opinioes na internet deixam todos meio perturbados…
    No mais, fico chateada pelas tags não aparecerem na versão mobile do blog. Sinto que esse comentario não será totalmente pertinente pq a experiencia da leitura ficou incompleta… Tem que ver isso ai, cara.

  3. Karla Wunsch

    nem sei o que achei desse post.

  4. “gente que vive num eterno quadro do chapéu no programa raul gil” apenas melhor tag

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