Três observações sobre meu retorno ao mundo das academias

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# como amigos, namorada e familiares sabem, eu, apesar de ter uma certa habilidade com noções abstratas e discussões conceituais, apresento uma imensa dificuldade para seguir instruções simples ou mesmo me movimentar em espaços físicos menos abertos – “joão, busca o creme na gaveta de cima do armário? não, joão, de cima. do armário, joão. não, o armário do quarto. não, não, armário, você não sabe o que é um armário? o quarto, joão, o quarto. por que…mas…por que você tá me trazendo um sapato da cozinha, e acionou o alarme da garagem, joão?”- e isso claramente vem à tona sempre que eu entro no ambiente da academia, que não apenas possui um volume grande de informações visuais como também algumas músicas contagiantes do gênero dance noventista que reduzem mais ainda minha concentração. somando a isso o fato da academia ser toda espelhada, os aparelhos estarem dispostos de forma irregular e serem completamente ajustáveis, e você tem o ambiente perfeito para que eu bata em paredes, tropece em pessoas, me flagele com barras de ferro ou mesmo fique com o braço preso numa corda metálica e volte pra casa todo coberto de graxa. diante disso não é exatamente uma surpresa que, sempre que eu chego na academia, os professores me olhem com a perplexidade de quem vê um cãozinho voltando com a bola na boca depois deles terem lançado a bola do topo de um penhasco.

# uma coisa comum em academias de ginástica, ao menos em todas que eu freqüentei, é que as mulheres, principalmente as bonitas, recebam mais atenção dos professores do que os homens, principalmente os feios. não é uma questão sociológica na qual eu tenha me aprofundado, uma injustiça histórica que eu deseje corrigir, ou mesmo um problema que me incomode, é apenas uma verdade com a qual eu aprendi a conviver desde o primeiro dia em que fiz um teste de carga e uma menina de 16 anos levantou o tripo do peso no legpress. então no meu segundo dia, quando eu estava lá rodando sem rumo com a ficha e sendo solenemente ignorado enquanto três instrutores orientavam os abdominais de uma garota (“iiiiiissso, faz devagarinho…valoriza esse movimento…issso…huuuuuhhhhh”) ou no terceiro dia quando uma dúvida minha foi repassada entre seis professores antes de ser respondida – a dúvida era “onde ficam os armários, cara?” – eu apenas aceitei o lance e segui a vida. mas aí no quarto dia um velhinho se aproximou de mim, disse que “as mulheres tem tudo muito fácil nessa vida” e que a gente “vive sob uma ditadura do feminismo”, e eu não apenas me senti meio culpado de apenas ter pensado que as garotas estavam levando alguma vantagem como parei de conversar com esse velhinho, porque ele tinha alegado que a médica de 25 anos que tinha dado um fora nele praticou “misandria”.

# sendo eu uma pessoa naturalmente constrangida, que acorda constrangida, dorme constrangida e durante as horas de sono está refletindo sobre constrangimentos passados e futuros, eu não preciso exatamente de muita coisa para ficar mais e mais constrangido. então quando, durante um exercício, um professor ao meu lado diz, apontando para outra aluna, a frase “olha que delícia aquela bunda” num volume tão alto que não apenas a garota escutou como também o pai dela em outro estado escutou e talvez até a avó falecida dela, se presente em alguma mesa branca, pode ter escutado, minha primeira reação, diante do olhar de fúria e desconforto da garota foi a frase “licença, preciso ir ao banheiro”. frase essa que, apenas no outro dia eu vim a perceber, deu para o professor a impressão de que eu possivelmente tinha achado a bunda da garota tão linda que abandonei o local para disfarçar um possível estado de excitação sexual – “não conseguiu segurar a onda, hein, fera?”.

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5 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, crise de meia meia idade, situações limite, Vida Pessoal

5 Respostas para “Três observações sobre meu retorno ao mundo das academias

  1. Bela escolha de imagem para ilustrar o post.

    E eu tenho lifetime achievement em ser ignorada por professores, enquanto a gostosa que sabe usar o aparelho está cercada de instrutores.

  2. yang modern

    A melhor coisa é decorar a série e aprender os exercícios pelo youtube e sites especializados. Existem exceções, mas instrutor de academia em geral não ajuda em nada. Já vi coisas absurdas, tipo o cara não ajudar uma senhora que estava fazendo errado porque “já cansou de falar com ela” e até filmar os iniciantes fazendo merda pra mostrar para os amigos.

  3. Steph

    E as piadinhas dos instrutures que não montaram seu treino? “Só esse pesinho?”, com um tom de voz que mistura pena e deboche… e sério mesmo, você escreve sobre constrangimentos na academia porque nunca teve que fazer “Glúteos três apoios”… isso sim é constrangimento, especialmente se a área de colchonetes fica em um lugar central, perto dos espelhos, e você vai vestida para a academia com as roupas do estágio 2 ( sendo o estágio 1 = usáveis no dia-a-dia e 3 = pijamas)!! Isso sim é constrangimento, pergunte a algum instrutor que se dignar a te dar atenção!!!

  4. Lucas

    Cara, seu blog é DE LONGE uma das melhores que coisas que eu descobri na internet em 2013!
    PS: não, eu não entro só no meu e-mail da bol e no orkut…

  5. Bia

    Eu devo ser uma ET por não ir à academia, parece que todo mundo vai menos eu… Mas pra quê? Tô bem assim, e a preguiça meio que é maior que a vontade.

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