3 grandes falhas discursivas que acontecem quando sou obrigado a interagir com pessoas desconhecidas ou com quem tenho pouca intimidade em ambientes ou momentos de extrema pressão pessoal ou profissional

new-girl-s2-ep24

A gíria bizarra – Sendo eu uma pessoa que só poderia ser considerada articulada pelos mesmos critérios que bonecos são considerados articulados – meus joelhos e cotovelos dobram – todo nível de interação pessoal que não seja previamente planejada e ensaiada com no mínimo 120 minutos de antecedência na minha cabeça ou mediada virtualmente e realizada por escrito tende a se tornar uma experiência não apenas complexa como também frustrante. Daí que uma coisa que para a maioria das pessoas seria uma surpresa positiva – reencontrar um velho conhecido no shopping, por exemplo – para mim rapidamente se torna uma experiência de terror abjeto já que, desorientado e confuso, considero que uma boa forma de disfarçar o meu pânico seja com o uso de gírias, para oferecer um ar de descontração ao momento. Daí respondo sobre como eu estou com um “sussinha”, descrevo meu trabalho como “tranquilo como um grilo e manso feito um ganso” e me despeço com um “vai na paz, queridão”. Certa vez respondi a uma pergunta numa reunião com “beeeeleeeeuza, creuza”. Sim, um encontro casual e me transformo num figurante estranho num filme do Zé Wilker.

A referência sexual involuntária – Eu estava num restaurante a quilo perto do trabalho. Havia uma chapa, onde um cozinheiro grelhava carnes e eu pedi uma picanha mal passada – no alho. Uma senhorinha, que estava encostada esperando um peito de frango, resolveu se meter e, olhando pra mim de forma incrédula, perguntou “nossa, mas mal passada, quase crua, hein?”. Eu tentei pensar num chiste, não consegui, pensei em responder de forma grosseira, mas achei exagerado, resolvi buscar a rota óbvia e apenas reafirmar que sim, mal passada, quase crua. A frase que saiu foi “o tipo de carne que eu gosto de comer precisa estar crua pra ser gostosa mesmo”. A senhora saiu chocada, o chapeiro riu e apenas quando eu terminei meu prato, dez minutos depois, notei que pode ter parecido que eu estava falando de vaginas. Porque eu não estava, eu gosto de comer carne mal-passada mesmo. Acho gostoso. Ainda mais com alho.

O espasmo mental – Eu estava no trabalho, a semana estava sendo ruim, eu estava com problemas familiares na cabeça. Dois conhecidos começaram a discutir o caso de um gerente que contrata apenas meninas jovens e atraentes pra gerência dele e esse gerente concordou, dizendo que fazia isso mesmo. Os caras riram, disseram que ele tava certo, qualquer cara faria isso e perguntaram se eu concordava. Eu, como de praxe no meu trabalho, apenas rosnei e movi a cabeça, sem prestar atenção. Mas isso não era o bastante e seguiram no “hein, joão? concorda, não concorda? hein?”. Eu balancei a cabeça de novo. Não foi o bastante. “hein, joão, vai, se tu fosse gerente, pudesse contratar qualquer pessoa que tu quisesse, não ia contratar só gostosa? Hein, joão? hein?”. E depois da sexta repetição dessa frase eu tive o que só pode ser classificado como um surto e, numa frase muito longa e sem vírgulas, expliquei que se eu pudesse contratar qualquer pessoa eu não contrataria mulheres mas sim vários anões e teria uma gerência apenas composta por anões mas antes que pensassem que eu havia contratado as pessoas apenas por serem anãs elas descobririam que na verdade foram contratadas pela sua paixão por jogos de tabuleiro e nos tornaríamos grandes amigos e jogaríamos jogos de tabuleiro juntos e seríamos uma grande equipe de jogos e venceríamos campeonatos e no final a disney faria um filme sobre nós por causa da nossa paixão por jogos de tabuleiros e eu seria interpretado pelo selton mello mas ele também faria todos os anões porque ainda que os anões achassem que era tudo uma aposta na verdade seria amor verdadeiro e amizade sincera. Quando eu terminei as pessoas lentamente começaram a se afastar de mim e acredito que não serei chamado nas conversas sobre gostosas até o final do ano.

Anúncios

13 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Gente bizarra, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal, vida profissional

13 Respostas para “3 grandes falhas discursivas que acontecem quando sou obrigado a interagir com pessoas desconhecidas ou com quem tenho pouca intimidade em ambientes ou momentos de extrema pressão pessoal ou profissional

  1. haahahaahhahahahaha

    Aqui em Salvador, qualquer coisa que se refira a uma “referência sexual involuntária”, IMEDIATAMENTE, precisa ser acompanhada de um “Lá Ele”. Caso isso não ocorra você estará acabado.

  2. O problema do mundo é que tem muita gente aqui dentro.

    E mal posso esperar pra ver o Selton Mello te interpretando no cinema (embora o mais provável seja que eu espere o filme chegar à tv).

  3. Mbéni Waré

    Acompanho seu blog há algum tempo e só hoje tive coragem de comentar. Eu sou a rainha das gírias bizarras, inclusive vou adotar “tudo tranquilo como um grilo” (apesar de também não achar nenhuma tranquilidade nesses animais, eles são frenéticos e escandalosos); sempre faço comentários de conotação sexual involuntariamente, o que me causa vários transtornos, mal entendidos e confusões da pesada – e vários “lá eles” porque sou de Salvador, assim como o Márcio aí de cima, que by the way, é meu amigo e também vive soltando gírias bizarras como “susse no musse”. E tirando a parte dos anões – eu tenho medo de anões, é um caso sério, fobia mesmo, dessas que precisam de tratamento. Eu muito me identifiquei com o seu texto. E acho, de verdade, que deveriam existir mais pessoas como João Baldi Jr. no mundo.

  4. Sorri muito agora. Sensacional!

  5. Marylia Nina

    Uma das minhas falhas foi tascar um “o estás fazendo aqui?” pra uma conhecida, dentro do cinema.

  6. Pingback: Discovery Tímidos | Confeitaria Mag

  7. Pingback: Links da Semana Passada #2 + Uma Dica | Farofa Humana

  8. Pingback: Discovery Tímidos | AlineValek

  9. joão de Deus, eu amo tudo a respeito desse post. tudo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s