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schimidt
As ideias básicas por trás do conceito de vida adulta, ao menos a vida adulta como venderam pra gente, são basicamente três: autonomia, estabilidade e maturidade.

Autonomia porque resolvemos nossas coisas sozinhos. Pagamos nossas contas sozinhos, moramos sozinhos, trabalhamos sozinhos, decidimos sozinhos. Mas trabalhamos em equipes, temos que consultar um chefe, arrumamos namoradas, passamos finais de semana na casa dos pais. Pedimos opinião dos amigos, consultamos resenhas na internet, temos happy hours com galera, nos sentimos sozinhos, trocamos piadas horríveis em grupos do whatsapp. Mandamos mensagens longas demais quando bebemos, vemos filmes que nos fazem lembrar de pessoas, queremos dividir com os outros aquela música. Escrevemos pra alcançar pessoas, viajamos pra encontrar pessoas, dormimos encostados em pessoas. Sentimos falta de outras pessoas de manhã.

Estabilidade porque temos coisas certas, coisas organizadas, coisas estáveis. Temos um namoro firme, um emprego estável, uma vida organizada. Mas ela pode descobrir que gosta de outro cara, vocês podem se cansar de estar juntos, você pode se apaixonar pela voz da secretária eletrônica como no trailer de um filme. Você pode ser demitido, a empresa pode passar por uma fusão, existe o downsizing, existe o saco cheio, existe a vontade de largar essa merda toda que bate todo dia ali pelo meio da tarde, quando você lembra que seu sonho era fazer um musical de terror sobre fantoches. Existe a crise econômica, a crise dos trinta, a crise de meia idade, a crise existencial, existe o el niño. Existe a gravidez fora dos planos, existem os pais que se separam, existe o irmão que viaja, existe a proposta inesperada, existe a chance de ir pra muito longe ganhar muito menos fazendo algo que você goste muito mais.

Maturidade porque se espera que ao crescer a gente, bem, a gente cresça. Decisões sérias, escolhas ponderadas, atitudes adultas. Mas enchemos a casa de memorabília, gastamos com férias o dinheiro da casa, compramos o carro que é mais bonito, escolhemos destinos de viagem baseados num filme das gêmeas Olsen que vimos na sessão da tarde mas não admitimos isso em público e dizemos que é por causa dos restaurantes. Batemos boca no trabalho por causa de besteira, discutimos no trânsito por causa de besteira, terminamos relacionamentos por causa de besteira, dizemos que os outros só se preocupam com besteira. Reclamamos dos outros na internet, usamos a página de comentários, mentimos pro cara do censo, compramos coisas do polishop porque agora temos dinheiro pra isso. Temos sabres de luz do ladoda vodka nas prateleiras da sala.

Então acho que, sendo a vida adulta mais um conceito vago do que uma meta, sendo o amadurecimento mais um processo sem fim do que um estado alcançável, sendo a casa dos 30 mais um marco simbólico e uma autorização implícita pra reclamar de dores nas costas sempre que conveniente do que algum deadline social onde se torna inaceitável atender o próprio telefone fixo se passando por outra pessoa pra não resolver um assunto, nós, como um todo, não estamos nos saindo tão mal assim.

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10 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, crise de meia meia idade, Vida Pessoal

10 Respostas para “29

  1. Seu aniversário é no dia 7, né? Mesmo dia do aniversário do meu pai, que já passou dos 60, e ultimamente eu tenho me achado tão ou mais velho que ele. Esse conceito de envelhecimento é mesmo meio relativo.

  2. Republicou isso em Só mais uma coisa…e comentado:
    Enquanto a vida passa, a gente cresce.

  3. O ponto alto dos questionamentos filosóficos da idade adulta abordado em seu texto é dizer que quanto mais amigos nós temos mais nos sentimos sozinhos… passamos quase o dia todo rodeados de pessoas no trabalho, saímos pro happy hour, esticamos para a balada e fazemos churrasco no fim de semana e o momento em que mais nos sentimos acompanhados é quando estamos sozinho em frente ao computador tentando encontrar alguém – em alguma rede social – que não vemos há tempos para adentrarmos na crise existencial da idade. Ou não!

    http://ocinematografo.blogspot.com.br/

  4. Ou seja: Não temos autonomia, nem sempre estabilidade é bom e maturidade é questão de ponto de vista.
    Adorei aqui, voltarei sempre!

  5. João Baldi como colunista dominical na Folha de São Paulo já!

  6. A casa dos 30 não é só a autorização implícita pra reclamar de dor nas costas. É também a autorização implícita para, em vez de correr atrás daquele ponta-direita de 19 anos na pelada de domingo no clube, ficar parado e gritar “falta!” sem razão aparente.

  7. Não é querendo deprimir ninguém, mas eu recomendo a leitura desse texto aqui pra esclarecer as crises de meia idade aos 30 anos: http://demografiaunicamp.wordpress.com/2013/10/30/porque-os-jovens-profissionais-da-geracao-y-estao-infelizes/

    (Mas o texto é deprimente, ainda que esclarecedor, didático, e tenha um unicórnio vomitando arco-íris nas ilustrações)

  8. Cara, que maravilha o seu texto… compartilho de muitas coisas aí… estou me aproximando dos 30 tb… faltam 3.

    Parabéns!

  9. Diogo

    “acredito que já possa usar a camisa por dentro da bermuda também” hahaha

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