Grandes estilos narrativos de taxistas #78, #79, #80, #81 e #82

taxi

#78 – o taxista interessado: tudo começa como uma viagem normal. primeiro ele pergunta pra onde você vai e você diz pra onde vai. aí ele pergunta qual caminho você prefere. você diz que qualquer um tá ok. aí ele te pergunta se o ar-condicionado tá tranqüilo, você diz que tá bacana. então ele pergunta se o banco tá de boa. você diz que tá susse. aí ele te consulta sobre a velocidade, você diz que tá fera. mas mesmo aí, quando você já está desfalcado de termos de rápida concordância e começa a temer a necessidade de usar expressões menos comuns e mais polêmicas como “da horinha” e “chablim, papito”, ele não para. ele quer saber o porquê da viagem, ele quer saber pra qual bar você vai, te pergunta quem você vai encontrar, o que você espera do final de semana, quanto tempo você tem de namoro. você está acuado, você foi criado por pais rígidos, você deixou o celular em casa, e ele te pergunta se a rádio está do seu agrado, se conhece aquela vizinhança, se tá sabendo das obras do elevado, se acha que a região portuária tem conserto. você sai do taxi exausto, tenso, emocionalmente oprimido, mas com a confusa sensação de que nunca na sua vida encontrou alguém que quisesse a sua opinião tanto assim.

#79 – taxista da discórdia: um homem que saiu de casa com a única intenção de corrigir e discordar do máximo de seres humanos possíveis, ele já começa a viagem dizendo que o largo do machado não é um bairro, ou você mora no flamengo ou mora no catete, quem é carioca de verdade sabe. depois ele diz que o verdadeiro nome do plaza shopping não é plaza, te pergunta o caminho mas diz que você escolheu errado, ele sabe um melhor, aí diz que o bar pra onde você vai não é tão bom, é bar de playboy. você comenta sobre o calor com a sua namorada, ele diz que já foi mais quente, você diz pra ela que são nove e meia, ele corrige que ainda são nove e vinte e cinco, você segura a mão dela e vê nos olhos dele que ele discorda sobre qual mão deveria ficar por cima, você tá fazendo errado. você entrega o dinheiro e ele reclama de não ser trocado, você faz menção de abrir uma porta e ele te pede pra descer por outra, você sai do táxi e ele não diz nada mas você imagina uma voz falando “e camisa listrada com bermuda xadrez é uma escolha bem merda, hein, amigo?”

#80 – o taxista tiririca: uma versão mais específica do famoso taxista contador de história, é o taxista contador de uma história extremamente longa, extremamente complexa, extremamente cansativa, mas que tem um final muito pouco recompensador e/ou anticlimático. exemplo: um taxista que me transportou de congonhas até o morumbi e me contou que havia conhecido uma garota na roça, ainda adolescente, e queria pedir a menina em casamento, mas ela acabou se envolvendo num casamento arranjado, e então ele se casou com uma prima, mas nunca esqueceu dela e depois que a prima/esposa dele morreu, após um casamento de 30 anos, ele voltou até a antiga roça onde haviam sido criados para tentar achar algum rastro da garota e após uma busca incessante que durou quase cinco anos, descobriu onde ela morava, na bolívia, e foi até a casa dela. chegando lá ele bateu na porta, ela atendeu, ele olhou pra ela, viu que ela era feia, mentiu que era um entregador de jornal, foi embora.

#81 – o taxista que exige concordância: um amálgama perturbador do taxista que quer a sua opinião com o taxista que quer discordar de você, o taxista que quer a sua concordância te bombardeia, durante toda a jornada, com questões retóricas visando apenas que você confirme os pontos de vista dele, que quase sempre variam entre a homofobia galopante, o fascismo descarado, o machismo de raiz e uma ou outra declaração que você acredita já ter sido feita pelo personagem dwight schrutte da série the office. quase sempre abusando dos passageiros tímidos, constrangidos ou que apenas não sabem lidar muito bem com o conflito, ele permite que você se sinta um colaboracionista do regime nazista ao passar cerca de vinte minutos anuindo com frases vagas e movimentos de cabeça diante de frases como “mas os veados, não tem que casar, tem?” ou “bandido, bandido tem é que morrer, não é mesmo?” e responder a perguntas sobre o tema “faxina étnica” apenas com um “ah, mas essas coisas são complicadas”. esse tipo de taxista também costuma ser bastante idoso, meio surdo e dizer em momentos aleatórios frases como “tremendo desperdício de mulher essa daniela mercury”.

#82 – o lunático: esse foi apenas um cara que pegou eu e minha namorada no leblon, disse que a al-qaeda está no brasil, que ele ajudaria o osama bin laden e que as vezes ele fica muito doidão olhando pras rachaduras na pista achando que o mundo vai acabar. no meio do caminho ele disse que o mar do rio é meio feito de cocô. esse dia foi bem doido.

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9 Comentários

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9 Respostas para “Grandes estilos narrativos de taxistas #78, #79, #80, #81 e #82

  1. Marília Neves

    pelo menos vc nunca topou o taxista da zoeira, cara. pense nisso.

  2. Eu já peguei um táxi com um cara que se dizia DJ, ficava procurando música no rádio com o carro em movimento, falava das festas que ele tocava, que ele tinha equipamento próprio, que a mulher dele não lavava a roupa direito (o que não tem nada a ver com o restante, mas foi exatamente assim que ele inseriu essa parte da história), que ele gostava mais de dubstep, que ele era bom pra caralho, que ele ainda tava aprendendo, que ele tinha muito mais retorno no Hulkshare que no Soundcloud (mas nem me atrevo a tentar reproduzir o jeito como ele pronunciava essas palavras), que ser taxista é foda ele queria poder só tocar, que OH MEU DEUS CARA VOCÊ VIU O QUE EU FIZ NESSA MÚSICA AQUI CARAAAALHO (eu não percebi nada de mais). Tudo isso com o volume do rádio fazendo inveja a carro de porta-mala aberto em estacionamento de micareta. Ele até me deu o cartão dele, então se alguém se interessar em contratar um DJ taxista, fale comigo. Ele tem equipamento próprio.

  3. O ‘taxista que exige concorcordância’ (TQEC), é na verdade o pior tipo de pessoa que existe! Acredito que eu perca uns 5 anos de vida a cada vez que eu tenho que dizer “é, isso aí é complicado” quando na verdade tô pensando “não tem nada de complicado, o cu é seu por acaso”?

  4. Uma vez peguei um taxista que conversava pra caraca,sendo que ele gostava de conversar olhando para a pessoa ao invés de olhar para a pista,parecia q

  5. You put the lime in the couonct and drink the article up.

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