Mais algumas recentes adições ao guia cada vez mais pessoal de desconfortos cotidianos

troy-and-abed

#Você não lida bem com elogios, então sua primeira reação é dizer que não foi nada. “Não foi nada, que isso”, você diz. A pessoa insiste e você tenta dizer que não foi algo especial, nada de mais. “Você faria igual, sério, foi bem ok”. A pessoa não deixa quieto e diz que não tem nada de ok, ela nunca faria algo assim, foi bacana mesmo. “Que isso, é você sendo gentil, certeza que tem um monte de gente que faria melhor, claro”. A pessoa definitivamente gostou e diz que não, cara, melhor que ela já viu na vida, foi espetacular mesmo. “Mas foi na sorte, sabe? Tipo, eu não consigo sempre fazer assim, né?”. Mas o cara te acha um gênio, ele gostou mesmo, ele curtiu muito. “Não, mas você não tem ideia, esse saiu bom, você gostou, mas o resto? Pô, faço muita merda, é que você me viu numa hora boa, sabe? Assim, uma em um milhão”. Mas o cara não pára, ele diz que tá lindo, ele fala que tá sensacional, ele quer te dar um abraço. E então você diz que não. Que não é assim. Que você não é tão bom. Que é tudo uma farsa. Que você não faz aquilo tão bem, que você não é um bom profissional, não é um bom filho, que queria ser um namorado melhor, que fez aulas de natação mas não se sente seguro na piscina, que as vezes cospe quando fala, que não consegue mais viver essa mentira e quando você tá começando a mencionar que chorou logo após a sua primeira vez o cara já foi embora e bem, como eu tava dizendo, você não lida bem com elogios.

#São 16:30 da tarde e você está no escritório/cozinha/mesa do bar. Nesse exato instante seu colega chega/o telefone toca/seu conhecido aparece. Ele pergunta se você está com pressa, se pode conversar, e você mentalmente reflete que seu próximo compromisso é apenas as 17:00, quando você precisa ir para casa/tirar o pãozinho de queijo do forno/ligar pra sua namorada. Ou seja, você tem tempo. Tipo, meia hora, bastante tempo. E a pessoa começa, primeiro comentando sobre o tempo, depois eventos recentes política no rio, desdobramentos da copa, mas e esse gol mil do Túlio, né? E tudo vai bem até que lá pelas 16:50 você percebe que aquilo que pra você era o cerne da conversa era na verdade apenas um preâmbulo porque aquela pessoa que ter contigo um papo sério®. Sim, ela tem algo a te contar, ela tem um assunto sensível pra dividir, ela tem algo de importante pra te informar. E é exatamente quando bate 16:58 que ela entra no assunto, que é algo como crise no relacionamento, doença na família, problema no trabalho, algo que ela te conta entre soluços, com a cabeça baixa e a mão no seu ombro, num fluxo de palavras que apenas te impede de dizer algo como “me deixa só telefonar pra desmarcar uma coisa” ou “pera só eu dar uma passadinha na cozinha”. Ao fundo você sente o distante cheiro do pãozinho de queijo queimando e pensa se você é o ser humano mais mesquinho do universo. Era a sua marca favorita, aqueles que você gosta de rechear com requeijão.

#Você está no bar. O chopp corre entre as mesas como as profecias diziam que o leite e o mel correriam pelo chão da terra prometida, se leite e mel tivessem colarinho. Você está distraído por um caldinho de feijão especialmente caprichado no bacon quando ela aparece. Ela tem um folheto, ela é de uma organização, ela quer a sua contribuição. Você explica que não tem dinheiro, só usa visa, que não tá com tempo, parou só pra lanchar, que não entende da causa, entende apenas do prazer do caldinho de feijão caprichado no bacon. Ela argumenta que precisa de pouco, você diz que não tem nada, ela fala que é pra uma boa causa, você diz que nunca questionou isso, ela fala que todo mundo tá ajudando, você diz “que bom”. Aí ela olha nos seus olhos e diz pausadamente que entende, que existem pessoas pra quem um chopp é mais importante do que uma criança doente passando necessidade, que ela entende você não ter dinheiro pra ajudar alguém que nunca vai ver a vida adulta, que é natural você não ter tempo pra quem pode não ter mais tempo nenhum. Você olha pro chão, dá pra ela os cinco reais que tinha separado pro metrô. O gosto do caldinho de feijão agora não é mais o mesmo e o bacon parece ter sido retirado de um grande porco chamado traição.

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4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Desocupações, homens trabalhando, Rio, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

4 Respostas para “Mais algumas recentes adições ao guia cada vez mais pessoal de desconfortos cotidianos

  1. Cara, seu texto tá show! O melhor que já vi na vida, espetacular mesmo. Você é um gênio, tá sensacional! Você merece um abraço!

  2. Diogo

    sério®

    hahahaha

    Outro texto sensacional João e aqui eles não acontecem um em mil!

  3. Lucas

    Cara, eu amo esse blog!

  4. Que texto sensacional! Enquanto Lemos dá pra imaginar a situação cômica se passando no nosso cotidiano, algo que Luís Fernando Veríssimo Tenta mas pra mim nunca conseguiu!

    Cara, você é um gênio!

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