Grandes pequenos momentos conversacionais presenciados em aeroportos #67, #68 e #69

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#67 – o  telefonema ostentação:  quase sempre acontece numa fila. Pode ser a fila do embarque, poder ser a fila pra despachar mala, pode ser a fila pro detector de metais. Alguém na sua frente, ou atrás de você está falando ao celular. Mas não falando ao celular como você costuma estar num aeroporto, se despedindo da sua mãe, avisando pra namorada que vai chegar mais tarde. Não, essa pessoa está falando ao celular coisas importantes, ela está decidindo problemas, ela está tomando decisões. E ela está fazendo isso num volume muito alto, quase sempre mencionando o quão importantes são essas decisões, o quão críticos são esses problemas, o quão importantes são essas coisas importantes, além de sempre destacar, num volume mais alto ainda, o destino da viagem e quanto tempo ela vai ficar nesse lugar. Exemplo ilustrativo do telefonema ostentação: “Não, Selma, DIRETORA DE ESTRATÉGIA, eu não posso falar agora porque O PRESIDENTE me mandou nessa VIAGEM PARA MILÃO, onde estarei COMANDANDO A NEGOCIAÇÃO com os italianos, DURANTE SETE DIAS. E não, meu telefone IPHONE BEM CARO não tá com problemas de volume, por que você tá perguntando isso?”

#68 – a conversa impessoal pessoal demais: sempre começa de maneira inofensiva. Uma reclamação sobre o tempo, uma dúvida sobre o portão de embarque, um comentário bem humorado sobre o amendoim servido na viagem, “que nem mendorato é”. Aí vem as perguntas. Qual o seu destino, se já conhece a cidade, se é fácil pegar táxi. Diante dessa simpatia, diante dessa curiosidade, você se sente obrigado a no mínimo retribuir as perguntas com, não sei, alguma outra pergunta. E é aí que você é fisgado, porque era exatamente esse o pretexto que essa pessoa queria para transformar aquela conversa de rotina num papo muito pessoal. “Visitar a família ou negócios?” Ambos, porque ela tá indo conhecer a mãe que a vendeu quando ela ainda era bebê. “Planos pra páscoa?” Nenhum desde que numa sexta-feira santa ela perdeu o marido num acidente de carro. “Já esteve aqui em São Paulo antes?” Sim, em todas as audiências da longa batalha judicial pela guarda das crianças. Você não sabe o que responder, você não sabe pra onde olhar e quando pergunta “pode dar licença pra eu ir ao banheiro?” ouve um “vem sendo complicado me movimentar por causa da perna mecânica, mas vou tentar”.

#69 – noite da conversa morta-viva: você já está sentado, ajeitando o seu cinto, quando ele chega. Vocês se cumprimentam, ele faz alguma observação sobre o avião, você responde, ele sorri, vira pro lado, a conversa acaba. Ou parecia acabar, porque cinco minutos depois ele faz um novo comentário, indiretamente ligado ao assunto anterior, que você também responde, ele replica, vocês sorriem, a conversa acaba. Ou foi isso que você pensou, porque dez minutos depois ele vira pra você, diz uma coisa, você tem dificuldade pra lembrar qual era o assunto, ele comenta, ele sorri, você sorri, ele vira pro lado, a conversa acaba. Mas na verdade não acabou, porque quinze minutos depois ele volta ao mesmo assunto, você não se lembra mais, tenta fingir que não ouviu, ele te cutuca, você responde, ele sorri. Você finge dormir, ele mexe na sua camisa, faz um comentário, você percebe que está preso numa conversa de schrodinger, que sempre estará meio viva ou meio morta, se tranca no banheiro, ele bate na porta, faz um comentário. Sorri.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Grandes pequenos momentos conversacionais presenciados em aeroportos #67, #68 e #69

  1. o #69 é o puro psicopata…nas minhas viagens sempre tive azar,uma vez de sentar ao lado de um cara que roncava mais forte do que o barulho do motor do avião quando decola,outra foi com Italianos que estavam suando,a transpiração era de um odor acre de uma comida típica que o seu organismo não havia se acostumado,numa outra vez foi ao lado de um pirralho que desenhava feito o Napoleon Dynamite e ficava perguntado o que eu achava da “arte” que ele havia desenhado,bem essas foram as minhas péssimas experiências de voo,o resto dormir e acordei no meu local.
    Só tive sorte uma vez,quando eu tinha uns 10 anos,quando sentei do lado de duas universitárias gatas,mas aí era eu um garoto que desenhava feito o Napoleon Dynamite.

  2. anaspol

    Geralmente me dou bem com pessoas que sentam ao meu lado nos aviões. Quando tinha netbook, costumava assistir a seriados e eles geralmente acompanhavam ou perguntavam qual era o seriado, inclusive.

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