Da irracionalidade esportiva coletiva que chamamos de quarta-feira à noite

Como boa parte da população brasileira eu sou apaixonado por futebol. Fui educado jogando e acompanhando o esporte, cresci completando álbuns de figurinhas da copa, me tornei um homem adulto que freqüenta estádios, paga mais caro para ver jogos em hd na televisão e briga com outros homens adultos por causa de pontuação em fantasy games de futebol – o que talvez seja uma boa razão para repensar o número de vezes que eu disse “adulto” nesse último parágrafo.

Mas mesmo sendo apaixonado por futebol e tendo essa paixão como uma coisa natural pra mim, conforme eu fui crescendo e levando uma vida mais e mais “adulta”, eu comecei a notar que para uma parcela também significativa da população o futebol não apenas não tem nada de natural como também representa um transtorno constante, interminável e contra o qual eles vêem impotentes, já que bem, não chamam o Brasil de país do futebol pelo fato de que tratamos a bola rolando como um hobby e a gente pega super leve com essas coisas.

Isso porque, quando se trata de futebol, as pessoas se acostumaram a aceitar muitas coisa. Não falo apenas de questões grandes, como o investimento público em estádios que supera o realizado em outras áreas esportivas, o apoio do governo aos clubes, perdoando dívidas que eu duvido que ele perdoaria se fossem relacionadas ao seu imposto de renda – dificilmente teremos uma pedromania pra te dar isenção esse ano, seu Pedro – ou mesmo todas as questões que ficam nesse meio e que mostram que talvez seja mesmo interessante rediscutir a relação entre o futebol e a gestão dos nosso recursos.

Não, eu falo de coisas um pouco menores. Falo do fato de que numa quarta-feira é considerado socialmente aceitável que seu vizinho abra a janela 23:00 pra gritar “chupa” durante uma partida, coisa que você seria profundamente criticado se fizesse na segunda durante um episódio especificamente emocionante de “The Good Wife”. Falo do fato de que em dias de final de campeonato as pessoas se sentem liberadas para soltar fogos, independente de hora e local, como se isso não fosse acordar seu bebê de colo e deixar os animais da sua casa se preparando para um apocalipse canino que possivelmente nunca vai vir. Falo do receio de sair com seu filho nas cercanias de um estádio porque num dia de futebol as pessoas se acham no direito de mexer com os outros na rua de uma maneira que não fariam quando voltam da missa da terça de manhã.

E falo dessas coisas porque se as coisas grandes dependem de grandes discussões e necessitam de grandes soluções – não acredito que eu vou resolver os problemas da relação clube/empresa/governo nesse post – todas essas outras coisas dependem apenas das pessoas que gostam de futebol, como eu, lembrarem que existem as pessoas que talvez não gostem tanto assim de futebol, possivelmente como você. Isso porque, da mesma maneira que é irreal pra quem gosta de futebol imaginar uma pessoa apenas dormindo cedo na quarta-feira, imagino que também seja absurdo pra um fã da ginástica o fato de que, sempre que acontece a prova do cavalo nas olimpíadas, eu me sinto absolutamente frustrado pelo salto não ser sobre um cavalo real. Sério, seria bem louco. Pensa, um cavalo, cara.

Então, ainda que talvez num momento de emoção acabe sendo complicado segurar um grito mais contundente, uma manifestação mais passional, uma incitação mais hostil pra que o árbitro receba amor não solicitado através do bumbum, é sempre válido fazer um esforço pra lembrar que na casa ao lado, no prédio vizinho, sentado ali perto no ônibus, pode ter alguém que está apenas tentando levar a sua vida tranquilamente, sem sustos, e que não poderia se importar menos com o fato de que com essa zaga não vai dar, o Ney Franco não tem condição de treinar handebol infantil, a diretoria só pode estar de brincadeira. Afinal, qualquer um de nós iria ficar no mínimo chateado se, tendo uma reunião de manhã no outro dia, fosse acordado por volta de meia noite com um grito de “AQUI É ALICIA FLORRICK, CARALHO, PORRA, PAU NO CU DE VOCÊS TUDO NESSA MERDA, PORRA, CARALHO, PORRA. CU.”. Eu iria ficar bem confuso, sério.

(texto originalmente publicado, com algumas alterações e bem menos palavrões, na Revista Em Minas)

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