Sobre barbas, onças e um certo senso de suspense e trauma matinal

Audiência-A-Praça-é-Nossa

Você estava saindo do apartamento, mais ou menos numa boa. Nesse dia não estava atrasado, nesse dia não tinha reunião, a ida pro trabalho poderia ser tranquila e sem solavancos, era só deixar uma caixa com o porteiro e pronto, dali pro metrô, do metrô uma tranquila caminhada pro trabalho, o clima parecia até ameno.

Aproximou da bancada da portaria, deu aquele bom dia. O porteiro, o mais idoso dos que revezavam na portaria, respondeu bom dia. Deixou a caixa, explicou que iam recolher naquele dia ou amanhã, ele disse que tudo bem, você disse que eram uns óculos que você tinha pedido e que deixavam provar em casa, ele disse que tudo bem, você falou que era porque o seu já tava ficando meio esquisito, ele disse que tudo bem, você agradeceu de novo, ele disse que tudo bem, você se perguntou porque sempre se explicava demais pras pessoas, imaginou o porteiro mentalizando um “tudo bem, cara, meu deus, tudo bem”. Já ia se despedir, tava dando a volta, quando ouviu a voz do porteiro te chamando. “Seu João, tava aqui com uma dúvida. Quanto tempo o senhor aguenta barbudo sem tirar?”.

E sua primeira reação foi responder que você usa barba desde a faculdade, apenas apara de tempos em tempos, ficou sem barba no máximo duas vezes, mas quando você olhou pros olhos do porteiro, notou algo estranho. Sim, ele parecia animado, ele parecia ansioso, ele parecia curiosamente animado, curiosamente ansioso. Você tentou analisar a fisionomia, você buscou sinais, mas suas apuradas habilidades de observação só te permitiam concluir uma coisa: aquele era seu porteiro. Ou alguém muito parecido. Mas provavelmente era o porteiro. E ele parecia ter feito uma piada de duplo sentido e estava querendo que você achasse que era uma pergunta sobre sua pelugem facial quando na verdade era um questionamento sobre quanto tempo você suportaria a prática da sodomia com um homem que, esse sim, possuísse pelugem facial.

E aí, como aconteceu com o personagem de Denzel Washington naquele filme sobre pilotar aviões de cabeça pra baixo, o cansaço sumiu, a tensão acabou, e o que te sobrou foi apenas o puro, simples e instintivo reflexo, só que sem as drogas pesadas e o sexo na véspera. “Pô, só te respondo se você me falar onde você escondeu a onça”. Tudo saiu numa frase só, tudo saiu com segurança, tudo saiu como um pistoleiro que dispara uma arma mais do que conhecida num duelo que ele já disputou mais de mil vezes apenas naquele pôr do sol.

A reação não foi a esperada. O porteiro parecia confuso. O porteiro na verdade parecia perplexo. “Onça? Mas…mas…que onça?”. E aí você tremeu. Você lembrou de todos os constrangimentos que suas piadas já geraram, todos os encontros que elas já prejudicaram, todos os desconfortos em eventos de família. Cada vez que você deixou sua mãe sem graça na frente de médicos, cada vez que sua namorada já olhou pra você com aquele ar de “que erros eu cometi na minha vida que me levaram a esse momento?”. Cada piada que você já lançou do palco do seu coração com a esperança de que ela realizasse um lindo crowd surf nas risadas dos amigos, mas que acabou caindo no chão frio e meio gorduroso do “mas então, galera” com um baque surdo que você imagina que soe como “twhup” ou “plohff”.

Mas agora era tarde demais. Você já havia lançado a base da piada, depois da qual não havia retorno. Você não ia inventar uma história sobre uma onça, você não ia dizer que ele não entendeu direito, você não ia apenas sair correndo da portaria em direção ao portão, ainda mais porque o portão era eletrônico e quem abria era o porteiro, isso provavelmente só iria piorar as coisas. Então você respirou fundo, endireitou a postura e mandou.

“Aquela pintada que eu te dei”

Por alguns segundos o porteiro apenas congelou. Uma expressão enigmática que flutuava entre a confusão e o terror percorria o rosto dele e você temeu pelo pior. Você havia falado sobre dar pintadas num idoso. Você era um perturbado. Você era um doente. Você teria que procurar um novo prédio, talvez um novo bairro, talvez sair do Rio após uma matéria no Meia-Hora sobre o “pintador de idosos do Flamengo”. Mas aí aconteceu. O porteiro sorriu. O porteiro abriu ainda mais o sorriso. O porteiro deu gostosas gargalhadas. O porteiro gritou “AHHHH, MAS NESSE PRÉDIO SÓ TEM FILHO DA PUTA MESMO, EU TENTO PEGAR UM E ELE AINDA ME PEGA, SÓ TEM FILHO DA PUTA HAHAHAHAHA” e juntos vocês dois sorriram o sorriso dos bons e gargalharam as gargalhadas dos justos, como apenas dois homens adultos que fazem piadas de pré-adolescente conseguem sorrir e gargalhar.

No caminho pro portão você listou mentalmente que outras piadas desse tipo você ainda tinha – a manga, aquela chupada que você me deu, a roupa, aquela rasgada que eu te dei, e algumas variações como perguntar se a pessoa gosta de laranja e oferecer um saco pra ela chupar – e sorriu para o infinito. Aí percebeu que por alguma razão, durante todo esse processo, pegou de volta a caixa com o óculos, e voltou pra entregar.

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6 Comentários

Arquivado em crise de meia meia idade, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

6 Respostas para “Sobre barbas, onças e um certo senso de suspense e trauma matinal

  1. Parabéns, João! Esse é o tipo de texto que faz rir, que faz chorar, que faz perder a fé em si próprio e na humanidade e não dar a mínima porque é engraçado pra caralho!

  2. Diogo

    Ainda encontro nos seus textos aquela graça perdida na internet que me faz rir sozinho no meu quarto. Teu estilo é sensacional, João, pena que pouco frequente!

  3. Cara obrigado por me fazer sorrir sozinho em um quarto às 10 horas da noite kkkk

  4. Silver

    Muito bom o texto, hilário e retrata a rotina simples do dia a dia..faltou a clássica: Você gosta de laranja? sim, pq? Então vou dar um saco pra vc chupar kkkk

  5. João, você prefere um solzinho na nuca ou uma chuvinha nas costas? João, você gosta de café de cafeteira ou no coador é melhor? João, estou trabalhando com árvores de natal, se você vende quatro pra mim te dou uma montada com bola e tudo!

  6. Érica

    hahahaha, céus, gargalhando no trabalho, e certamente meus companheiros trabalhativos não acreditam que essa coisa de gestão da informação é tão divertida assim… realmente não foi um bom momento para dar uma olhada no seu blog… tempos que não vinha aqui, sei lá porquê, vida chatonilda e cheia de outras leituras igualmente chatonildas… enfim… como sempre, muito bom!

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