Mini-conto #19 – “Submarino”

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Primeiro eu tinha que esquecer o seu sorriso. Esquecer a sua boca, esquecer as covinhas do seu rosto, esquecer o jeito como a sua franja caía pela sua testa, como você prendia o cabelo atrás da orelha. Depois esquecer a sua risada, esquecer o som da sua voz, esquecer o seu jeito de cantarolar, esquecer o sotaque que você achava que tinha perdido mas eu notava, esquecer o jeito como você piscava pra mim quando achava que ninguém estava olhando.

Depois seriam as coisas maiores. O seu jeito de encostar os pés nos meus na cama, o gosto da sua boca, a sensação da sua cabeça no meu ombro enquanto a gente assistia algum filme chato no sofá, as suas mãos debaixo da minha camisa pra se esquentar quando sentia frio. Os abraços quando a gente se encontrava, os beijos quando a gente se despedia, você apertando a minha mão quando alguém estranho passava do nosso lado na calçada.

E eu também ia ter que esquecer os eventos, claro. Desde o dia em que você bateu o carro ou a noite em que eu fiquei preso fora de casa até o primeiro beijo, o primeiro eu te amo, aquele jantar em que eu disse que a gente deveria namorar, involuntariamente fiz uma citação do Poderoso Chefão e você disse que se sentiu como se tivesse colocado um cavalo morto na minha cama. Provavelmente também vou ter que esquecer os cavalos, o Coppola e os filmes com o Marlon Brando.

Também temos as coisas, claro. Me livrar dos discos que você esqueceu aqui, deixar de lado os filmes que a gente viu juntos, não abrir mais os livros que tem dedicatória sua, parar de usar as camisas que você me deu. Talvez trocar o armário que você escolheu comigo, tirar os móveis da posição que você deixou. Fingir que você não tem nada a ver com a compra da geladeira, porque ela eu acho que não tenho dinheiro pra repor e caixas de isopor não soam muito práticas.

Então, com tudo esquecido, com tudo trocado, sem fotos suas pela casa, sem o risco de esbarrar no seu shampoo na hora do banho, sem o medo de olhar pra estante e ter uma foto sua ou abrir uma gaveta e ter uma blusa que você esqueceu, eu sinceramente achei que podia dar certo. Talvez saindo mais, passando menos tempo em casa, tentando não esbarrar com os amigos de sempre, não ir nos bares de sempre, eu achei que realmente podia funcionar.

Mas sempre tem alguma coisa, sabe? Uma música tocando ao fundo, uma reprise na televisão, uma garota no metrô que mexe no cabelo do mesmo jeito que você. Um livro que você me deu vira filme, uma foto sua aparece dentro da lista telefônica, alguém numa mesa me pergunta por você. Você pode não acreditar, mas uma vez eu fui numa festa à fantasia e quando topei com um cara vestido de Don Vito tive que voltar pra casa e acabei assistindo Sintonia de Amor duas vezes seguidas. Não foi legal. E eu nem sabia que ainda faziam listas telefônicas.

E aí eu lembro de tudo, sabe? Eu lembro da sua boca, eu lembro das covinhas do seu rosto, eu lembro do jeito como a sua franja caía pela sua testa, de como você prendia o cabelo atrás da orelha. Eu lembro da sua risada, da sua voz, do seu sotaque, das suas piscadinhas. Do seu jeito de encostar os pés nos meus, do gosto da sua boca, da sensação da sua cabeça no meu ombro. Dos abraços, dos beijos, de você segurando a minha mão.

Nessa hora dá vontade de ter tudo isso de volta. Os discos, os filmes, os livros, as camisas. Trazer de volta o armário, voltar os móveis pra posição antiga – até hoje eu tropeço na escrivaninha durante a noite – e de vez em quando, não vou mentir, eu chego quase a sentir vontade de abraçar a geladeira. Mas aí eu respiro fundo e eu penso que na verdade o que eu preciso não é lembrar e sim esquecer. E primeiro, bem, primeiro eu tenho que esquecer o seu sorriso

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8 Comentários

Arquivado em cinema, citações, contos, crise de meia meia idade, homens trabalhando, referências, romantismo desperdiçado, Sem Categoria

8 Respostas para “Mini-conto #19 – “Submarino”

  1. tulio11

    Tão “500 Dias Com Ela”.

    João, manda um roteiro de comédia romântica pro Marc Webb pra ver se ele larga aquele Homem-Aranha..

  2. Gustavo


    alex turner é uma pedida perfeita pra esse texto
    sorte aí, joão…

  3. João Baldi Jr.

    alex turner muito clássico
    (e apenas informando que continuo namorando, antes que alguém leia o texto, ache que é real e tá acontecendo agora e comece a adicionar minha namorada no facebook)

  4. Diogo

    Bem na ferida, João, bem na ferida.

  5. Gabriel

    Muito bom o texto, João! O li lembrando de minha namorada, e de certas sensações que eu meio que deixei de lado, tão boas sensações. Vou reavê-las o quanto antes. Inclusive, essa referência quase me levou as lágrimas, pois o filme foi o estopim da nossa relação.

  6. Confesso que li o texto esperando por um twist de zoeira ao fim mas que bonito.

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