Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

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Na chamada Terra #2 eles não se conheceram. Os pais dela tinham ido pra outros país a trabalho, ele quase nunca saía do interior, se cruzaram uma vez num aeroporto, ele teve a sensação de que aquela garota era familiar, de um jeito esquisito, mas não se preocupou muito.

Na Terra #4 eles se conheceram uma noite numa festa, ela era namorada de um amigo do irmão, ele era o cara contrariado bebendo drinks com guarda chuvinha. A festa não foi boa, duas garotas passaram mal, um amigo vomitou num chapéu, dois caras foram colocados pra fora. Pessoas se perderam no estacionamento, no final os dois acabaram tendo que dividir um táxi. Ele achou que ela era bonita, ela achou que ele era engraçado, ele pensou em pedir o telefone dela, ela pensou que, se ele pedisse, ela não poderia dar. Se despediram um pouco sem graça, ela deixou dinheiro a mais na parte dela da corrida, ele só notou depois, se sentiu culpado. Nunca mais se viram.

Nas terras #5, #7, #18 e #77 eles ficaram uma vez, numa festa, num churrasco, numa boate, numa biblioteca, mas não se viram de novo porque um deles tinha bebido demais e perdeu o telefone do outro, porque um deles voltou com um ex-namorado, porque um deles mudou de cidade, porque um deles estava envolvido num secreto projeto espacial visando repelir uma invasão alienígena e aquela era a última noite em terra antes da missão. Ela até pensou em explicar tudo isso mas desistiu quando notou que ele tinha medo de altura.

Na Terra # 19 eles tinham se apaixonado quando ela era estagiária num projeto dele, na #27 ela era a chefe e os dois se encontravam escondidos numa salinha do quinto andar, na #133 eles davam aulas juntos e na #878 ela era dona de uma pequena livraria e ele era o herdeiro de um grande conglomerado de editoras e a relação que começava com desprezo e hostilidade acabava se tornando amor verdadeiro. A ciência nunca conseguiu explicar porque todos os relacionamentos nessa terra específica aconteciam de acordo com clichês de comédias românticas.

Nas terras #789, #29, #111, #112 e #9 eles terminaram com seis meses, oito meses, dois anos, três anos e meio, quatro anos e sete meses de namoro, por imaturidade dele, por que ela não estava mais apaixonada, porque eles não conseguiram ficar na mesma cidade, porque ela conheceu outro cara, porque os dois viram que funcionavam melhor apenas como amigos. Em outras doze terras eles ficaram juntos por mais de cinco anos, em oito pela vida toda, em cinco eles tiveram filhos, em todas elas o nome do garoto era Toni, em duas tinha uma menininha chamada Ana. Em uma ele morria, mas ela colocava a mente dele num computador e juntos eles combatiam o crime. A Terra #54 era meio esquisita mesmo.

Na Terra #78 o primeiro beijo deles foi no planetário. Na #90 foi num barco, na #34 ela estava bêbada e eles se beijaram logo antes dela pegar no sono na frente da tv. Na Terra #889 ela uma vez atirou um copo nele durante uma briga, na #90 ele passou uma noite em claro encostado na porta do apartamento dela pedindo desculpas, na #66 os nazistas ganharam a segunda guerra mundial e quanto menos se falar dessa terra melhor.

Terra #345 eles tinham se visto só uma vez, mas nunca esquecido um do outro, #684 eles eram a dupla campeã de imagem e ação do bairro, #342 eles se conheceram duas vezes porque ele não reconheceu aquela garota branquinha com a câmera e ela não reconheceu aquele cara sem a fantasia de cachorro e a arma de paintball. Na Terra #777 ela era um cara, ele era uma garota, ela costumava dizer que ele era muito chorona, precisava controlar um pouco melhor os sentimentos.

Na Terra #1 ele estava saindo do táxi na frente do prédio dela, torcendo pra ela querer voltar, torcendo pra tudo dar certo.

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5 Comentários

Arquivado em contos, Ficção, séries canceladas, Sem Categoria, situações limite

5 Respostas para “Mini-conto #20 – “Sobre a terceira temporada de Fringe”

  1. Excelente esse texto, mesmo mesmo. Não consigo nem ao menos me expressar direito…

  2. Eu não vi Fringe, mas imagino que o princípio básico aí seja o mesmo do Multiverso em que Stewie e Brian viajam em “Uma Família da Pesada”, certo?

  3. Fringe, para mim, era a melhor série já produzida aqui e em todos universos paralelos. Amei seu conto e ele me fez sentir saudades!

  4. Já te disse que eu dormia todas as vezes que tentava assistir a Fringe?

    Mas se Fringe fosse um seriado que apenas e despretensiosamente se limitasse a narrar universos paralelos, ele não apenas iria durar infinitamente como sim, eu iria assistir e, provavelmente, gostar.

    Curti, Jane! Sdds justwrapped <3

  5. Depois de muita risada a reação final do post não poderia ser diferente a um *ohhhhhhh* pela cena fofinha.
    Cara, me pergunto se os números dessas Terras saíram aleatoriamente além de no final sempre fica aquela dúvida de até que ponto você está falando de coisas que aconteceram com você, hehehe.

    Nunca vi Fringe, deu vontade de assistir :D

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