Sobre maçãs, brigas de casal e uma certa sensação contemporânea de repressão emocional

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E tinha um casal brigando no mercado. Ela dizia que ele era um canalha, ele falava que ela estava sendo uma vaca, ela tentava pegar o celular da mão dele, ele se defendia com o que parecia ser um pacote amassado de pão integral, o carrinho balançando perigosamente entre os dois, uma bandeja de ovos vermelhos ali prestes a cair.

No entorno o clima era de constrangimento. Idosos desviavam o olhar, mães puxavam seus filhos para o lado, outros casais pareciam estranhamente mais interessados do que de costume no processo de escolha de congelados pro jantar – “mas amor, olha esse aqui, esse tem brócolis também” – e eu perguntava para um repositor por que não tinha mais maçã da turma da mônica no que poderia parecer uma tática de distração mas era uma dúvida genuína, já que eu sou péssimo escolhendo fruta, as maçãzinhas da turma da mônica sempre vinham muito gostosas e ensacadinhas, era bem prático, fiquei chateado de não achar.

E conforme a briga do casal foi, no caminho para o caixa, passando pelas mais diversas etapas clássicas da briga– “maluca? você tá dizendo que eu sou maluca agora, é isso?”, “eu nunca tô certo, é isso? só a princesa tá certa, eu tô sempre errado?”, “ah, mas se for assim quem não sabe se vale a pena continuar sou eu, SOU EU” – eu comecei a pensar se o problema era exatamente com o casal ou se o problema talvez fosse com todo o resto de nós.

Afinal, o casal estava ali movido pela paixão. Se eles estavam falando de assuntos pessoais num local público é porque achavam que o amor é algo tão importante que não pode esperar até chegar em casa. Se eles não conseguiam manter um tom de voz moderado é porque o sentimento era forte demais pra ficar tentando controlar. Se eles não percebiam o claro desconforto causado nas pessoas ao redor e todo mundo meio hesitante de chegar perto do freezer dos sorvetes mesmo com a promoção do pote kibon de dois litros talvez fosse porque pra eles aquela discussão era a prioridade, não as regras sociais, não o senso de etiqueta dos outros, não o sorvete tipo carioca por quatorze reais.

E talvez não devêssemos ser todos nós um pouco mais assim? Mais fiéis aos nossos ímpetos e impulsos, menos preocupados com a opinião dos outros, mais dispostos a enfrentar nossos sentimentos na hora que eles surgissem, evitando guardar rancores, evitando deixar pra depois, evitando todos os “lá em casa a gente fala disso” ou “se eu ignorar esse problema talvez ele acabe sumindo”. Não é o amor, a paixão, o que a gente sente pela pessoa que está do nosso lado razão o bastante pra deixar de lado o bom senso e o verniz de civilização e apenas se abrir na hora e da maneira que o nosso coração mandar? Não seria nossa vida melhor e mais completa se talvez tivéssemos, talvez não tanta, mas uma parte da sinceridade desse casal?

Era exatamente nesse tipo de questão que eu pensava quando, na chegada ao caixa, a mulher levantou mais ainda o tom de voz e disse “E EU VOU ENSINAR PROS SEUS FILHOS QUE SEU NOME É BICHONA, AÍ QUANDO ELES FALAREM DO PAI VÃO DIZER, PAPAI BICHONA, NA ESCOLA, VÃO TE CHAMAR DE BICHONA, QUERO VER, SEU BICHONA, PAPAI BICHONA”. E aí eu entendi que não é o coração, que não é o sentimento, que não é a urgência do amor. É que tem galera que é meio baixaria mesmo, apela demais, não tem condição.

E sigo sem achar a maçãzinha da turma da mônica.

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4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Desocupações, Gente bizarra, homens trabalhando, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, Vacilo

4 Respostas para “Sobre maçãs, brigas de casal e uma certa sensação contemporânea de repressão emocional

  1. Um post (genial) desses numa época em que Maurício de Souza trava uma batalha pela liberação da publicidade infantil? Rapaz, acho que entre as tags deveria ter um #ad ali no meio…

  2. Humberto Massa

    Acho que a maçã da Turma da Mônica tá proibida pelo governo :D

  3. fagundesfelipe2012

    Pessoas passionais: sou fã. Cara, seus textos são muito bons! As tags são hilárias.

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