Doenças da modernidade: caso #3, a “lesão físico-cognitiva”

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A lesão físico-cognitiva: Nome dado a um grupo de lesões de pequena e média gravidade que tem como principais traços em comum o fato de que a) são infligidas pela vítima a si mesma, de maneira involuntária e b) o dano psicológico gerado por elas é sempre tão ou mais sério do que o dano físico. Isso acontece porque sendo quase sempre a lesão resultado de um descuido ou distração, a vítima sofre tanto com a dor física da contusão quanto com a humilhação de saber que é ela mesma a responsável direta ou indireta pelo ferimento, levando a momentos de desequilíbrio emocional, auto-recriminação ou apenas de questionar a própria capacidade de residir sozinha em um ambiente onde também estão presentes lâminas afiadas e caixas metálicas de onde sai fogo.

Abaixo seguem alguns dos mais comuns exemplos de lesão físico-cognitiva:

#a topada – suave é a noite, é a noite que você sai da cama pra beber uma águinha no meio do quente verão carioca. aproxima a mão do interruptor, chega a esboçar o gesto mas não, considera que não precisa, conhece o apartamento, se ligar a luz vai demorar mais pegar no sono depois, dá pra ir pra cozinha numa boa. passa pela porta do quarto, dribla a mesa da cozinha, aproxima da bancada e aí acontece. ela a topada, já que a mesa não estava onde você driblou, na verdade a bancada ainda tava lá longe, você nem tava dormindo no quarto, pegou no sono na sala. bateu o dedinho com vontade. encosta na parede pra tirar o pé do chão, não tinha parede, caiu de costas, bateu de leve na prateleira. foi apoiar na mesa pra levantar, puxou um fio, caiu o notebook no seu ombro, esticou a mão de novo, bateu num copo, tem vidro e água no chão agora. são três da manhã e você tá deitado no chão molhado em posição fetal porque tem medo de se mexer de novo e acionar o código de lançamento de seis ogivas nucleares russas. na verdade você tinha dormido na cozinha.

#o corte – parecia simples. você colocou o dedo no anelzinho da lata, segurou a lata com uma mão, puxou com a outra. a lata não abriu, sua mão voltou no seu rosto, o anelzinho soltou. você procurou o abridor de latas na gaveta. não achou o abridor de latas. pegou uma faca. seu avô abria lata com faca, não pode ser tão difícil. colocou a faca no ladinho da tampa, bateu com a palma da mão na base da faca. nada. bateu mais forte. nada e a faca quase escapou. lembrou que seu avô também costumava saber dizer a hora olhando pro sol e se barbeava usando o que parecia ser uma faca cega e um toco de madeira em chamas. pegou o o batedor de bife. respirou fundo. bateu o batedor de bife na base da faca, que pressionou a ponta, que pressionou a lata, onde a ponta da faca escorregou e foi pra sua mão. crise na gávea. sangue no dedo. sangue na lata. enrola num pano a mão com sangue. não pensa no sangue. tenta fazer com a outra mão. faca escapa e quase cai no pé, lata cai no dedão, encharcou o pano de sangue. vai pegar outro pano na gaveta. acha o abridor. abre a lata. tem certeza que não caiu sangue dentro da lata mas o molho tem um gosto especial nesta noite. o gosto da derrota. você imagina seu avô num plano superior fingindo que não te conhece.

#a queimadura – você jogou um cubo de gelo dentro do óleo fervendo. não é isso que você vai contar pra namorada, não é a explicação que você vai dar pra sua mãe, quando foi comprar a pomada você disse que tava fritando batata. e você tava fritando batata. mas antes resolveu jogar um cubo de gelo no óleo fervendo. te pareceu uma boa ideia na hora. em dados momentos você não sabe o que fazer com você mesmo nessa vida. em certas noites você chora baixinho olhando pro teto. uma vez você colocou o celular com a câmera ligada dentro da geladeira pra ver se a luzinha desligava mesmo depois de fechar a porta. você já tinha 28 anos quando isso aconteceu.

#a queda – existe uma lógica toda particular para uma boa queda na rua. você nunca cai de madrugada, nunca tropeça na rua deserta, nunca cai prende o pé trilha de calçamento caótico onde saltos se quebram e cadeiras de roda emperram. não, você derrapa no liso. você desliza no regular. você despede da gatinha, caminha em direção ao infinito com um sorriso no rosto e pisa em falso na pedrinha portuguesa, bate de joelho no poste, tenta segurar mas cai. você aperta a mão do futuro chefe, tenta dar o saltinho por cima da corrente do estacionamento, o pé trava, vai de peito, cai. você tá subindo a escada do metrô distraído, quase cai, todo mundo repara, você dá aquele sorriso de quem escapou por pouco, se distrai mais ainda, agora sim cata cavaco, tenta equilibrar o corpo, bate numa idosa, tá lá no chão, cai. na verdadeira queda o que cai não é tanto o seu corpo, mas sim a sua dignidade, o que dói não é tanto sua bunda, é sua confiança na sua própria capacidade de lutar contra a gravidade. e as pessoas apontando, isso dói bastante também. quando é perto de turma de colégio é bem chato, eles ficam rindo.

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3 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, Desocupações, Sem Categoria, Vacilo, Vida Pessoal

3 Respostas para “Doenças da modernidade: caso #3, a “lesão físico-cognitiva”

  1. O que me irrita é que eu vou caindo em câmera lenta, aqueles 83kg de Marta caindo bem devagar, passo por passo: opa tropecei, vamos tentar com o outro pé, ele não funciona, estou indo pra frente, droga preciso soltar isso que estou segurando, puta merda voou longe pra caralho e fez o maior barulhão, ai cacete lá vai a mão no chão, tomara que eu não quebre o pulso, puta que pariu meu joelho, ok vou só terminar de cair agora, quem sabe consigo ficar em posição fetal e fazer de conta que isso não aconteceu. No terminal Santana. No meio da tarde. Meu deus um moço de muleta tá vindo. Moço não me humilha desse jeito. Tô ótima não foi nada obrigada.

  2. Diogo

    A lâmpada apaga mesmo?

  3. Juba

    Adorei o texto, as tags e o comentário da Marta, porque eu também caio assim.

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