Da nossa eterna irritação com o comum – ou “porque você odeia tanto o Latino”

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Uma coisa comum de ouvir por aí é que vivemos numa cultura da mediocridade. As pessoas não querem ver arte, as pessoas querem ver Big Brother, as pessoas não querem ouvir boa música, as pessoas querem Justin Bieber, as pessoas não querem grandes filmes, elas querem imensas franquias com carros que viram robôs. E ainda que existam ótimos argumentos tanto para questionar se não estamos realmente nos aproximando de um menor denominador comum cultural quanto para defender a graça de carros que viram robôs – sério, são carros, que viram robôs, você precisa admitir que isso é legal, vai – um aspecto dessa sensação geral de irritação sempre me pareceu muito curioso e ao mesmo tempo pouco abordado. O motivo disso nos irritar tanto.

Isso porque, se você for pensar bem, não vivemos mais num ambiente em que sejamos necessariamente obrigados a conviver com a cultura popular predominante da mesma maneira que antes. Não somos mais dependentes do rádio como única fonte de música, não somos mais dependentes da televisão aberta como única fonte de programação, não somos reféns do cinema da nossa cidade como único canal de acesso a filmes. Podemos selecionar o que ouvimos na internet, podemos escolher o que vemos entre diversos canais, podemos escolher praticamente qualquer filme já lançado em sites de streaming. Mas mesmo assim, nos irritamos com o destaque dos filmes que não gostamos, das músicas que achamos vazias, dos programas que consideramos sem conteúdo.

E por mais bonito que possa soar, não acredito que isso seja uma preocupação com o atual estado da arte no ocidente, sabe? “Ah, mas o sucesso coisas assim impede que as coisas verdadeiramente boas recebam atenção”. Não, não é o caso. O sucesso do Justin Bieber não impede que o seu primo compositor de folk coloque vídeos no youtube, a existência do Big Brother não impediu que gravassem Breaking Bad, Sharknado não está retroativamente apagando a obra completa do Ingmar Bergman e garantindo que apenas filmes sobre tubarões voadores sejam feitos. Se formos ser sinceros, mas sinceros mesmo, vamos precisar admitir que essa discussão não é sobre arte, não é sobre o futuro, não é sobre o Justin Bieber. Ela, muito provavelmente, é sobre nós.

A verdade é que nós, talvez por uma característica humana, talvez por um traço de sociedade que se manteve até hoje, associamos a arte ao sublime, ao especial, ao que está acima de nós. Esperamos que nossos artistas sejam dotados de habilidades mágicas, que tenham trajetórias extremas, que se destaquem por conseguir produzir coisas que nós, nem mesmo em um milhão de anos, conseguiríamos replicar, exatamente por serem pessoas, num certo grau, superiores.

Por isso, quando lidamos com uma era moderna onde as ferramentas artísticas estão acessíveis, onde as possibilidades de exposição, tanto para os talentosos quanto para os não talentosos, são gigantescas, existe um choque natural de descobrir que o artista, aquele que antes imaginávamos intocável, como numa casta superior, pode ser alguém aparentemente tão capacitado quanto nós, apenas talvez mais esforçado, atirado, ousado. E existe uma boa razão para que quando as pessoas querem ofender uma obra de arte digam “ah, mas até eu poderia fazer isso”. Nós apenas não sabemos lidar com essa sensação.

Não criticamos o Latino, ou o Justin Bieber, ou o Kleber Bambam, ou qualquer outro artista de capacidade questionável por causa da sua incapacidade no seu ofício ou o dano que ele causa ao gênero artístico em que atua. Criticamos pessoas assim porque elas parecem ter exatamente o mesmo nível de aptidão que nós, mas estão lá fazendo sucesso, ganhando fortunas, vivendo a vida que não vivemos, enquanto nós vivemos vidas normais e reais, sem aquele glamour, sem aquela atenção, sem aquelas possibilidades. Odiamos esses artistas porque, exatamente por não conseguirem transmitir para nós a distância que os artistas realmente talentosos possuem, eles nos lembram que qualquer um poderia estar lá, e se nós não estamos isso é, ao menos em parte, responsabilidade nossa e de mais ninguém.

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10 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, homens trabalhando, Internet, Sem Categoria, situações limite, teorias

10 Respostas para “Da nossa eterna irritação com o comum – ou “porque você odeia tanto o Latino”

  1. Republicou isso em Letrificandoe comentado:
    Os textos são sempre divertidíssimos! Hoje tem um mais sério, mas com ótimas ideias. Afinal, por que o Big Brother nos incomoda tanto?
    Só uma coisa: meu ataque de pelanca no post abaixo sobre Jogos Vorazes ainda faz sentido, tá? Ou não?

  2. PUTA QUE PARIU JOÃO OBRIGADO

  3. Grande… muito bom ler isso no momento em que cumpro o aviso prévio pra me dedicar entre outras coisas, à música hehehehehehehehehe

    E isso é sério e verídico, apesar dos risos ;)

  4. Tudo sempre sobre nós. Certeiro.

  5. Cano

    Isso, garoto. Muito sábio!

  6. Se o Justin Bieber canta “oh baby” numa floresta e ninguém tá lá pra ouvir, ele realmente tá fazendo barulho?

  7. Texto bem diferente do usual por aqui, cheguei a pensar no início que era uma mezzo brincadeira, mezzo provocação, mas com o desenrolar dos argumentos vi o negócio era a sério. Ainda mais depois de ler os comentários, com concordância geral. Assim, apesar de acompanhar o blog há bastante tempo, vim fazer o primeiro comentário.

    Entendo perfeitamente a crítica ao ego, realmente há esse viés “se eu poderia fazer, é medíocre”. O que aliás, paradoxalmente, cria a singela (e engraçada) situação de uma pessoa egoísta se considerando medíocre sem perceber. Mas, voltando, esse é o motivo dos invejosos.

    Há uma grande parte da sociedade (com margem de erro do Ibope) que se ressente verdadeiramente pela qualidade duvidosa daquilo. Eu mesmo, na falta de exemplo melhor, não me importo nem um pouco com Latino pegar uma música estrangeira, deturpá-la sem dó nem piedade e ganhar dinheiro com isso. Ótimo para ele. Eu no lugar dele não teria coragem de pôr a cara na rua. O que incomoda de fato é o que aquilo está trazendo para a sociedade. Na maioria dos casos, seja Latino, ex-BBB, o que for, o problema é sim dano que ele causa na sociedade. Por um lado, inspira a futilidade, mediocridade, vulgaridade e vários outros ade, reafirmando e dando aval a valores muito questionáveis. É um funk ostentação velado. Por outro, não traz nada de novo. Um desses inventores americanos que não recordo dizia que se andarmos pelos caminhos já traçados, a única coisa que vamos conseguir é chegar aonde já chegaram. Eu acho que vamos na verdade é ficar em círculos, correndo atrás do rabo (do jeito que a coisa está, com trocadilho).

    A função do artista tem que ser mudar o mundo, as pessoas, fazer com que se questionem e evoluam. Suassuna dizia que a massificação baixa a qualidade artística para a mediocridade. Gauguin (última citação, juro) dizia que há uma grande demanda pelo medíocre. Claro que meu primo, gênio do folk, pode botar o vídeo no youtube. Mas e aí? O poeta tem que comprar pão e o padeiro não aceita views no youtube, nem likes no facebook. Views no youtube podem até dar uma remuneração, mas a não ser que seja algo na casa dos milhões, é melhor nem considerar. Meu primo e seu folk não tem como disputar lugar com sertanejo universitário e pagode, pois “é isso que vende”. Breaking Bad é um acidente de percurso, uma aposta com investimento pesado. Mas quantas séries boas não saem do papel por não terem zumbis no enredo? Os filmes de Ingmar Bergman não estão sendo retroativamente apagados, mas estamos sendo privados de quantos novos diretores por causa de Michael Bay?

    Por mim, Latino pode tomar café da manhã todos os dias com croissants feitos por um chef francês, eu prefiro ir na padaria da esquina e comprar meu pão sabendo que, se não estou causando impacto positivo no mundo, pelo menos não estou causando impacto negativo.

    • Dora

      Puxa, muito bom.
      Estava pensando exatamente isso, mas com preguiça de comentar, e eis que você falou o que eu queria falar (e talvez até escolhendo melhor as palavras).
      Também acho que o que me ofende não é que vários famosos são “gente normal” com um QI abaixo da média, mostrando ao mundo sua mediocridade. Eu não sinto raiva porque eles são famosos e eu não, porque eles ganham mais grana que eu que estudei a vida toda e blá blá blá.
      O que me dá raiva é o espaço dispensado a esse tipo de arte. É não dar paridade de espaço para todo tipo de arte, para que os espectadores tenham opção.
      Como alguém pode gostar de algo mais erudito se a maior parte do tempo só é mostrado pra ela expressões artísticas rasas que não lhe exigem a menor complexidade?
      Então, para concluir, o que eu considero aviltante é não dar possibilidade de escolha. Milhares de pessoas não sabem procurar o canal “arte 1” na tv a cabo, por exemplo. Elas assistem a globo. E a globo gasta horas de sua programação promovendo um programa como o big brother, não dando escolha a seu espectador, nem mostrando a ele que ele poderia gostar de algo minimamente mais complexo do que vida dos outros.

      • andré

        Concordo com voces, Gustavo e Dora

        Gosto bastante dos posts do blog e fui lendo esse com a sensação de: “agora não, agora eu discordo”. Entendo o ponto, é algo que deve ser questionado, mas discordo.

        Carros que voam, por mais legais, por mais válidos, por mais próximos do que possamos esperar de entretenimento, não são arte. Não no contexto em que são produzidos e apresentados, com um estudo minucioso de como se fazer dinheiro por trás da criação. E por mais que às vezes pareça que sim, nao podemos dissociar a racionalidade por trás disso do quão artístico isso é.

        Não digo que artista é meu primo tocando folk no youtube e o cara que tem dinheiro não é. O folk do meu primo pode ser, alias, pouquissimo artistico também. E a música do Caetano Veloso, que é bem rico(e que ganhou dinheiro fazendo música), com uma poesia imensa. Digo que o que vemos no latino, big brother, filmes com grandes explosões e algumas péssimas atuações é algo pensado a priori para fazer grana, e não para expor os sentimentos de ninguem.

        É muito difícil avaliar a sinceridade de um artista ao escrever, compor, fotografar, pintar. Por isso a linha é muito tênue. Mas quando o Jorge Vercilo escreve Me joguei de onde o céu arranha/Te salvando com a minha teia/Prazer!/Me chamam de Homem-Aranha/Seu heroi!… , ou a letra toda, não existe sinceridade. Existe um grandissimo kitsch.

        A chateação nao é por fazer dinheiro: o Messi faz dinheiro sem arte e tudo bem, eu me entretenho em vê-lo jogar. Nem por achar que o artista é um ser superior. É com a sensibilidade, com a falta de sensibilidade com que se produz o que é produzido hoje e colocado como arte. Arte é outra coisa, o Messi não faz arte em campo, nem o Latino faz arte nas suas letras. E sensibilidade todos nós temos.

        A boneca Maria Eugênia, que o Kleber bambam fez no fim do primeiro big brother, fui genuína, sensível, tradução e metáfora. não foi feita pensando em quanto dinheiro ela iria gerar. talvez pela boneca ele seja artista, e acho que sim. mas pelo resto ele é só produto de uma emissora treinada pelas mesmas pessoas que fazem os carros voar.

  8. Melissa Souza.

    Ótimo texto, como sempre!
    Mas, não concordo que nosso sentimento contrário ao da grande maioria se equivale à isso: “Pensar se ele faz porque eu não posso fazer”. Não tenho um pingo de sentimento de inveja, penso muito diferente. Penso assim: “Se eu posso estudar, tem um pouco mais de discernimento daquilo que é melhor, por que o outro não pode ter também?”. Realmente posso fazer sucesso lançando minhas artes nas redes, mas é como o comentário acima mostra: Likes não pagam as contas.
    Por isso, somos obrigados a ver grandes artistas, com almas revolucionárias que lutam por mudar, transformar e marcar espaço deixados de lados, ou até mesmo caindo no esquecimento. Não criticamos os artistas, criticamos o público dele. As pessoas não conseguem ter um meio termo, amam, ou odeiam. Quer conhecer um artista? Conheça o público dele! Faça essa avaliação e me fala do nível cultural do público alvo destes programas. Quem nunca assistiu BBB que atire a primeira pedra, mas quando a vulgaridade e promiscuidade precisam ser partes fundamentais de um programa, ela já perde toda a credibilidade de um público mais pensante. As pessoas se contentam com pouco, infelizmente. Acho errado falar que quem é contra, ou, odeia é invejoso, ou vaidoso demais. É simplesmente impossível assistir a qualquer coisa que desrespeite sua inteligência, assim como novelas, BBB, livros ridículos que uma pessoa de nível básico escreveria. Não devemos nos acostumar com o pouco, com o ralo, mas sempre com o melhor.

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