Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #41

jammed

#o solução retroativa: e aconteceu um problema. é daquele problema que fica na zona cinza entre o problema grave, a perda pessoal, e o problema pequeno, a inconveniência da vida. o tipo de problema que poderíamos caracterizar como “problema meio foda”. seu computador pifou com a sua monografia dentro, perderam sua mala no aeroporto com suas roupas, estourou feio o cano do seu banheiro, chegou na cidade e o hotel alega que sua reserva não tá constando. você tá baqueado, tá chateado, destino te estapeou com a luva áspera da mágoa surpresa, mas você ainda acredita no semelhante e, visando obter o máximo de retorno possível, faz aquele post no facebook. “alguém sabe de um cara que recupera hd?”, “alguém já passou por isso com a tam?”, “conhecem encanador bom na zona sul?”. é um pedido de coração aberto, é uma solicitação focando nos amigos, é aquela mão de bytes estendida no cyberespaço em busca de um braço forte e ombro amigo que indique alguém que não cobra 300 reais só pela visita na zona sul, você compra as peças. surgem os amigos. um diz que vai ver com um primo que passou a mesma coisa, outro te recomenda um links, vários apertam no botão “solidário com sua dor ainda que não possa ajudar” do facebook.

até que vem ele, claro. sim, ele. o fera que, diante da sua situação complicada, diante do seu momento de dor, diante de um contexto em que você tá possivelmente usando calça jeans da sua namorada numa cidade estranha ou se preparando pra digitar novamente 80 páginas sobre como as mudanças que o super-homem sofreu durante os últimos 50 anos refletem a sociedade norte-americana desse mesmo período, acha que a melhor solução é te dar a chamada dica retroativa. não, ele não vai te recomendar um técnico. não, ele não vai falar do balcão da infraero. claro, ele nem vai mencionar seu jorge, encanador barateiro, que cobra praticamente o preço de custo porque na verdade trabalha pra não ficar sozinho em casa. nada disso. ele vai parar na frente do computador dele, estalar os dedos, ver a caixinha do facebook e digitar “você devia ter feito backup desses arquivos”.

porque, é claro, é isso que você quer escutar. depois de perder todo o seu trabalho, todos os seus arquivos, toda as suas músicas, aquele vídeo que você tava terminando de editar, realmente é disso que você precisa, de ser lembrado que se você tivesse feito backup tudo ainda estaria ali. “você devia ter confirmado a reserva por telefone”. claro, porque você não pensou nisso nenhuma vez. não, depois de pagar o dobro pra dormir num pulgueiro e dois viciados tentarem entrar no seu quarto durante a noite chutando a porta é claro, é evidente, que em nenhum momento te veio a mente que confirmar a reserva teria sido uma boa e ainda bem que você pode contar com aquele cara, aquele cidadão, aquele campeão, pra te lembrar disso no facebook. “Despachar a mala de vez em quando dá problema”. realmente, porque enquanto você usava uma camisa com estampa “bem vindo a bh”, uma cueca virada ao avesso e seu short do pijama, que, você descobriu nessa viagem, ficou pequeno demais e agora dá uma certa destacada nas polpinhas da sua bunda, o espectro de um universo alternativo onde sua mala viajou na cabine não te assombrou em momento algum, sua confiança no transporte aéreo segue igual, sua fé na companhia não sofreu absolutamente nenhum abalo.

mas como num daqueles momentos em que seu irmão queria te irritar e ficava passando a mão na frente do seu rosto dizendo “não tô te encostando, não tô te encostando”, você sabe que o protocolo social tá contra você. ainda que não tenha ajudado em nada, ainda que tenha apenas te irritado, ainda que talvez tenha feito de propósito e você imagine que existe um círculo especial do inferno pra esse tipo de gente, junto com seus colegas de trabalho e a galera que comenta “sai e nem chama” em todas as fotos de balada, você se segura. respira fundo. curte as sugestões boas, responde os comentários de apoio. segue em frente. duas horas mais tarde, você sentado no chão do banheiro semi-inundado, esperando o técnico chegar, recebe uma mensagem pelo facechat. nela diz apenas “viu a dica que eu te mandei no face? sempre bom mandar uma revisão nesses canos, sabe?”.

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3 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Internet, situações limite, teorias, Vacilo, Vida Pessoal

3 Respostas para “Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #41

  1. Polyana Amorim

    HAHAHA
    voltando pra graduação apenas para fazer monografia sobre ~as mudanças que o super-homem sofreu durante os últimos 50 anos refletem a sociedade norte-americana desse mesmo período~

  2. paulotf

    Essa camisa “bem-vindo a BH” é uma liberdade poética ou existe de verdade?

  3. Mas é de uma sofrência enorme ter que lidar com esse tipo de gente. Tá vendo, você não deveria ter postado esse caso no Facebook..

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