Novas aventuras em lo-fi #21

travolta

[este texto pode conter spoilers para aqueles que ainda não assistiram o filme “garota exemplar”. sério, pode mesmo. não é uma ameaça vazia. ainda que, num certo grau, todo texto pode conter spoiles pra “garota exemplar”, né? assim, falando em termos de possibilidades e tal]

Uma coisa que eu sempre gostei, desde moleque, é a chamada “música com historinha”. Sim, é bacana aquela canção num esquema mais lírico, é fera um verso mais livre, é bonito quando a coerência vai pro espaço e tão ali apenas umas palavras legais e a pessoa tá gritando que quando ela se sente metal pesado e mente e é fácil o tempo todo, mas um lado meu sempre admirou demais o esforço necessário pra contar, de maneira rimada, uma historinha, seja essa uma trama em que você descobre que o chico mineiro era [spoilers] seu legítimo irmão ou uma em que um bróder conta que ele conheceu a menina, escreveu o nome dela na mão, a chuva apagou como numa propaganda de corsa. Em suma, historinhas.

E de todas as músicas com historinha poucas até hoje me fascinaram mais do que “Escape”, ou “The Pina Colada Song”, do artista Rupert Holmes. Isso porque, ainda que à média distância ela possa parecer apenas uma canção setentista sobre drinks exóticos ela é, na verdade, uma das mais perturbadoras e tensas narrativas sobre infidelidade, crise nos relacionamentos e o fardo do eterno romance que o ocidente já chegou a produzir. Acompanhem comigo.

Tudo começa com o protagonista que é, basicamente, um canalha. Isso porque enquanto sua namorada dorme, ele, na cama em que ela está deitada, analisa anúncios de jornal na coluna de contatos pessoais. Assim, de cara você já sabe que tá lidando com um sujeito baixaria, que limites éticos vão ser rompidos como papel toalha molhado, que a decência vai ser uma distante placa vista de longe através do espelho retrovisor do carro da lascívia.

E nessa atividade de ler os anúncios ele topa com um que considera interessante, escrito por uma garota. Nele ela procura um homem que goste de pinas coladas, de banhos de chuva, que não curta yoga, que seja ao menos espertinho. Que goste de fazer amor à meia-noite nas dunas, algo que eu, pessoalmente, acho meio perigoso, e que tenha interesse de fugir com ela. Note que a autora do anúncio claramente também não tá brincadeira, porque assim, já é encontrar, tomar umas bebidas e ir rolar pelado na areia. É um lance meio hardcore mesmo.

Isso mexe com o cara. Ele começa a se justificar, ele fala que o relacionamento caiu na rotina, ele fala que a magia acabou. Você sabe que ele vai responder o anúncio mas você não acredita, a mulher ali na cama, não tem como ser tão babaca, mas já tá respondendo, claro que dá pra ser babaca. E ele já vai na veia, claro. Curte pinas coladas, curte aquele pega-pega hidratado pela chuva, não gosta de comida saudável, prefere um champanhão bacana. Quer encontrar no outro dia meio-dia e já iniciar os trabalhos, sem burocracia, num barzinho ali da vizinhança. Note que o fera, após trocar uma mensagem já fala em “cut trough all this red tape”, como se eles não estivessem marcando uma foda já pelo jornal, no primeiro reply, já pro dia seguinte. Como eu disse, é um cara baixaria. Destaque também pra ele se gabar de uma resposta que, na boa, é basicamente o anúncio da guria com umas duas palavras trocadas.

Dia seguinte tá ele no bar, todo malandro, olhando pra porta, aquela cervejona na mão quando quem chega. Ela, a namorada dele. E aí, amigo, aí é pra mim um dos momentos de maior tensão psicológica da história da música, porque segura esse contexto. Você tá ali, canalhão, marcou encontro com a gata, sua namorada em casa. E aí, BAM, chega tua namorada no local do encontro. É coincidência? É armação? É teste de fidelidade do João Kléber? Você corre pro banheiro e espera ela ir embora? Você fica na mesa e aguenta o parabéns? Vai partir pro ataque? Vai ficar na defensiva? Começa a gritar “mamão” e simula um derrame? É, amigo, aí ninguém sabe. Aí a vida é uma lava e seca samsung e você tacou fora o manual.

Mas o cara não se abala. O cara segura. O cara respira. O cara olha no olho da gata e diz que não sabia que ela curtia pinas coladas, e banho de chuva, sentir o oceano e beber um espumantão nota 10. Não estava ciente que ela curtia um sexo na madrugada nas dunas, fala que ela é a garota que ele procurava, manda aquele papinho de fugir. E aí, aí vem outra pica moral, vamos admitir.

Porque ok, você tava querendo trair sua namorada. Você respondeu o anúncio, você foi canalhão, tava lendo seção de encontros na cama. Mas e essa guria? Bem, essa guria tava escrevendo anuncinho aí procurando homem pelas suas costas, fera. Mas cadê capital moral pra você criticar, certo? Porque se você criticar a guria ela apenas joga na sua cara que você respondeu, mas se você disser que só respondeu porque ela escreveu ela pergunta o que você tava procurando em seçãozinha de encontro de jornal, que é a mesma pergunta que você faria. Os dois se olham no pub, a cerveja esquenta no copo, ninguém quer fazer uma cena, mas é impossível confiar no outro de novo depois disso. Ninguém vai comer batatinha hoje. Vocês fingem sorrir.

Neste momento não sei vocês mas eu acabei de notar que o fim da canção “Scape” é basicamente o fim do filme “Gone Girl” mas com bebida de guarda-chuvinha. Grande filme, grande canção.

E sim, eu ainda tô com “Gone Girl” meio na cabeça. Aquele filme é bem assustador.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, homens trabalhando, Music Review, Sem Categoria, situações limite, Vacilo

Uma resposta para “Novas aventuras em lo-fi #21

  1. “a decência vai ser uma distante placa vista de longe através do espelho retrovisor do carro da lascívia” e ” a vida é uma lava e seca samsung e você tacou fora o manual” = tipo de expressões que nenhum outro autor em português (ou em qualquer outra língua) ousaria usar.
    alguém, por favor, dê logo um prêmio literário pra esse cara.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s