Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #73

manseekingwoman_finale

#o arquivo confidencial: quase sempre se trata de uma amizade de intensidade baixa pra média, vamos dizer assim. uma pessoa que você conheceu sim, conheceu até bastante, e com quem viveu algumas situações, criou até uma boa intimidade, mas durante um período relativamente limitado de tempo, o que faz com que vocês tenham histórias mas não exatamente um vasto repertório delas. é aquele colega de trabalho de quem você foi muito amigo por seis meses mas depois foi transferido, é aquela menina da turma de inglês com quem você andou direto durante um ano mas depois trocou de cidade, é aquele bróder gente boa da pelada de terça que teve filho e aí não apareceu mais pra jogar.

aí um dia você encontra ele ou ela no facebook. já é amigo de um amigo comum, tá numa foto com alguém de lá da sua cidade, foi marcado num daqueles posts de “e a galera nunca mais, né?” e você tem uma vaga lembrança dos momentos, da amizade legal, e ainda que saiba que dificilmente ela vai ser retomada, é alguém gente boa do seu passado que você gostaria de saber como tá, o que virou, pra onde foi. adiciona, trocam umas mensagens, rola aquela eterna falsa promessa de tomar um chopp juntos quando estiverem na mesma cidade (“se vier no rio me liga”, mas você não deu seu telefone, não atende números que não conhece, na verdade se mudou do rio em 2005)

e tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, tá tudo muito bacana, tudo muito bonito, até que você percebe que da mesma maneira que os generais romanos tinham alguém ao lado deles pra lembrá-los de que eles eram mortais, esse seu amigo, que você conheceu quando ainda era jovem, ainda era quebrado, ainda era vidaloka, parece sentir no fundo do coração que tem a obrigação moral de também te lembrar que em algum momento da sua vida você foi mais jovem, mais quebrado, mais vidakola. e aí começa.

você postou imagem daquela viagem de férias bacana, aquela neve gostosa da europa, aquele gorrinho de bolinha que sempre que visto no armário te faz sorrir? “cara, tu aí nesse frio me lembrou aquela noite que tu dormiu debaixo da carreta vomitado em joão monlevade, lembra? festa do marcão. grande marcão, vou marcar ele aqui”. marcado na fotinha da galera do escritório em barzinho simpatia da zona sul? “só no esquemão agora, hein, fera? lembro de quando você passou aquele mês todo comendo só salsicha por falta de dinheiro e depois teve aquela diarréia feia, recorda? nos tempos da república ainda, manja? grande república, vou marcar a galera da república aqui”. atualizou status bacaninha sobre aniversário de namoro falando que tá feliz, que tá alegre, que cada momento com a gatinha é uma explosão de amor? “ah, cara, que bom que achou alguém pra você, era tão triste te ver bêbado tomando aqueles foras e depois chorando emborcado e lambido por um cachorro na calçada. grande calçada, vou marcar ela aqui”. você nem sabia que a calçada tinha facebook.

e não é que você sinta vergonha do passado, não é que você se arrependa exatamente das coisas que fez. você sabe que todos cometem erros, você sabe que o menino é o pai do homem, ainda que talvez não fosse conseguir manter a guarda por muito tempo, mas mesmo assim considera um pouco demais sua namorada que te conheceu aos 25 descobrir pelo facebook seus vacilos dos 16, seus colegas de trabalho que te veem como sério e caxias saberem que uma vez você correu pela estrada coberto apenas com uma capivara empalhada, qualquer pessoa que conviva com você hoje saber dos lamentáveis episódios ocorridos no açude do vicentão em 2006. com a consciência meio pesada você configura o facebook pra não mostrar suas postagens pra certos amigos, esse incluído. larga o mouse com a sensação de dever cumprido.

em algumas madrugadas o perfil do facebook “calçada de viçosa” ainda te manda convite pro candy crush soda. mas você apenas respira fundo e recusa porque sabe que a vida é foda assim mesmo.

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2 Comentários

Arquivado em Sem Categoria, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

2 Respostas para “Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #73

  1. Essas redes ditas sociais tem esse papel maravilhoso de nos humilhar. Depois conta mais da capivara empalhada.Estou em Viçosa desde 2005 e só vi as que ficam na beira da reta.

  2. Te falar que tenho uns assim lá, até modifiquei o lance de marcar só com a minha autorização por causa desses doidos…

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