3 breves momentos de sutil terror no processo de interação humana

Parksandrec_Bendisaster

#a intimidade súbita: o ambiente é a academia, o aparelho é o supino, a carga é 40, mas o verdadeiro esforço vem quando o professor diz “vocês dois, revezando aqui”. você malha ali tem um ano, o cara já tava antes, mas vocês nunca trocaram uma palavra até esse momento e dá pra notar na feição dos dois que existia um plano quinquenal quase stalinista de manter as coisas assim. ele fala algo sobre regular o peso, você tira o fone pra responder, ele faz um comentário sobre a música na rádio, você tudo bem, aí ele ajuda a tirar um peso do caminho, você agradece. uma interação breve, uma interação simples, tudo bem menos pior do que você imaginava, você pensa. aí o professor comenta que a série tá boa, porque você tá bem suado, você diz que realmente transpira muito, é uma coisa que você tem, e aí o cara, que nunca tinha falado contigo antes e que pronunciou, nessa tarde, as três primeiras frases trocadas entre vocês dois, levanta a voz e diz “ISSO AÍ SUANDO DESSE JEITO QUANDO TRANSA DEVE SER UMA CHUVARADA DO CACETE NA CARA DA MINA, NÉ? ELA DEVE ACHAR QUE TÁ NUMA CACHOEIRA, PLOFT PLOFT SÓ ÁGUA, SÓ ÁGUA, É UMA DUCHA NA GAROTA”. “bem menos pior do que eu imaginava”, é a frase que você tinha dito pra você mesmo.

#o risco de ficar marcado pra sempre por causa de uma frase: daí que naquele ambiente você sempre foi calado. não interagia muito com as pessoas, não havia ganho intimidade com ninguém, num jogo de war você estaria com todos os seus exércitos num território chamado “na suinha” e teria atirado os dados debaixo da cama. chegava, resolvia seus problemas, saia e tal qual o lateral-esquerdo maxwell na copa do mundo no máximo cumprimentava uma pessoa imaginária pra passar um senso de que alguém lá conhecia você. e estava indo tudo muito bem, claro. você não precisava de mais do que isso em termos de interação humana e aquelas pessoas também não nutriam a menor curiosidade em relação a você, o que te permitia ser apenas mais uma presença anônima no local, sem ajudar e não prejudicar o dia de ninguém. e assim foi durante dias, semanas, meses, anos. até que um dia, você tava perto da janela, olhou de relance e um pombo voou de frente na direção do vidro. bateu. caiu. você tomou um susto. mas não foi um susto leve. foi um susto forte. quer dizer, não foi um susto forte. foi um susto forte pra cacete. quer dizer, não foi um susto forte pra cacete. foi um susto que você gritou CARALHO, POMBO, PUTAQUEPARIU, RATO DE ASA DO CACETE VAI DAR SUSTO NA CARALHA DA SUA MÃE, SEU BICHO SUJO DO INFERNO, CACETE DE CARALHA DE POMBO DE MERDA. agora todo mundo te conhece como “o cara que odeia pombos”.

#a piadinha tópica que cai no limbo das diferenças cognitivas: poucas coisas são mais perigosas do que hábitos e reflexos. você se acostuma com teto alto vai bater com a cabeça quando morar num local menor, você se acostuma com uma família barulhenta e quando almoça na casa dos outros parece que está gritando com as crianças, você tem o hábito de dormir sozinho e na manhã seguinte à noite em que perdeu a virgindade acorda empurrando a garota da sua cama porque MEU DEUS TEM UMA PESSOA NA MINHA CAMA QUE MERDA É ESSA. e claro, você se acostumou a fazer piadinhas. pai fazia piadinha, mãe faz piadinha, namorada faz piadinha, amigos fazem piadinha, daí você faz piadinha. até que um dia, num ambiente em que não se costuma fazer piadinha, você vai e faz piadinha. uma piadinha inocente, uma piadinha boba, uma piadinha daquelas do tipo “ah, mas quem nunca, né? risos”. mas a galera não conhecia a piadinha. a galera não tava familiarizada com a piadinha. a galera não manjava o pequeno paranauê retórico da piadinha que consiste em falar o “quem nunca?” não para solidarizar com a ação realizada mas sim para enfatizar com ironia o quão bizarra é a situação observada. em suma, agora acham que uma vez você já bebeu urina. é uma história meio longa.

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5 Comentários

Arquivado em Rio, Sem Categoria, situações limite, Vacilo, Vida Pessoal

5 Respostas para “3 breves momentos de sutil terror no processo de interação humana

  1. Flá

    Estou oficialmente me proibindo de ler seu blog no trabalho antes que comecem a achar que eu me divirto anormalmente fazendo planilhas.

  2. RF

    Cara, a gente não se conhece e tal, mas eu só queria dizer: obrigado.

  3. O cara das piadinhas. Eu sou esse cara. O que não quer dizer que não tenha gritado com pombos selvagens em algum momento da vida. Ou que não me identifique com o momento na academia. Quem nunca, né?

  4. anaspol

    Gosto de ler esses textos e ficar imaginando se aconteceu tudo desse jeito, se é baseado em fatos reais ou, pior, se você imaginou tudo por conta própria, mesmo!

  5. leslie-swanson

    tô planejando ir em todos os teus textos pra falar que puta que pariu tu é sensacional. não sei se quero ser você, casar contigo ou só te prender no porão acorrentado em um palquinho de stand up pra em entreter depois de um longo dia de trabalho (dou vt e vr)

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