Você não é o que você ouve (ou lê, ou assiste) ou “Rob Gordon estava meio errado”

falamsana

Seres humanos são criaturas complicadas. E não falo apenas por todos os momentos em que você vê alguém fazendo algo absurdo, inexplicável ou apenas constrangedor e se vê coçando a cabeça e dizendo “é, complicado…” mas porque somos realmente complexos, em qualquer nível de análise.

Temos traços de personalidade conflitantes, atitudes contraditórias, um processo de comunicação cheio de sutilezas e nuances, uma variedade de características positivas e negativas imensa demais para ser realmente catalogada. Como eu já disse, somos complicados.

E por isso um recurso que sempre usamos, pra lidar com as outras pessoas e com toda a complexidade que elas representam, é a generalização, a simplificação, que é a nossa maneira de deixar de lado toda essa complicação e tirar daquela pessoa uma sinopse, uma imagem aproximada, sem ter que navegar em todos os detalhes que formam aquela personalidade. Por exemplo, Pedro não é “um cara tímido porém carente que lida com suas inseguranças usando o humor como escudo”. Pedro é “metido a engraçadão”. E pronto.

Esse mesmo processo, de reduzir alguém a uma característica principal porque ia dar trabalho demais pra analisar todas as características de todo mundo, acontece muito quando estamos falando de outros traços até menores, como gosto musical, hábitos de leitura ou fimes favoritos. Quem nunca ouviu alguém dizendo que “nunca ficaria com alguém que não ouve rock” ou que “odeia esses pseudo-cults que gostam de filminho europeu”, como se uma ou outra característica definisse tudo que fosse essencial sobre a personalidade de um possível parceiro, não tendo muita importância todo o resto?

Não que todo mundo não goste de topar com pessoas que tem gostos parecidos. Alguém que conhece as mesmas músicas, alguém que leu os mesmos livros, alguém que entende aquela referência ao mesmo filme não tão bom e quando você diz “mããããe, o bolo de carne” não fica te olhando como se você tivesse algum grave problema mental que ela está sem graça de mencionar ali, na frente de todo mundo. Claro, essas coisas são ótimas, mas dificilmente elas são o mais importante num parceiro.

Primeiro porque num relacionamento de verdade, ainda que esses elementos em comum aproximem, não vai ser a paixão pelo Murakami que vai te fazer perdoar uma traição ou as noites juntos vendo Mazaroppi que vão salvar um namoro. São coisas mais importantes, são coisas mais complicadas, são coisas que a gente não descobre vendo como a pessoa se comporta na seção de dramas da locadora. E claro, se não for um relacionamento sério eu duvido que você dispense alguém na saída de uma boate porque discorda dela em relação ao Paulo Coelho ou porque as suas visões sobre o cinema iraniano hoje são irreconciliáveis. Apenas acho que não, fera.

Então acho que a gente devia pegar mais leve nessas coisas, sabe? Não é por ela gostar de Luan Santana que ela não é sua alma gêmea, não é por ele falar de Truffaut na mesa que não pode dar certo. Não é por só conhecer arte seqüencial através da turma do Chico Bento que ela tem menos a oferecer e nem é por ouvir sinfonias na hora de correr que ele é um esnobe. Pessoas são complexas, pessoas tem nuances e quase sempre é exatamente nesses detalhes e nessas diferenças que achamos as coisas mais fascinantes. Mesmo que seja com Luan Santana tocando ao fundo. Um meteoro de paixão é até um conceito bem foda se você for pensar, tipo um Armageddon com a Drew Barrymore, bem louco e tal.

 (este texto foi publicado, totalmente de trás pra frente, na Revista em Minas)

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