Sobre duas lições aprendidas em um voo da Tam, o pior ser humano do mundo e a webcelebridade Inês Brasil

old plane

lição #1: nunca acredite que ja viu de tudo sobre um certo tema, conceito ou situação.

daí que você viaja bastante de avião. tem namoro à distância, tem viagem de trabalho, tem parente fora, tem férias, graças a deus que tem férias, tem bastante viagem. e daí você acha que já acostumou com aeroporto, já pegou as manhas do avião, já se ligou no mistério no que tange ao transporte aéreo no brasil. só vai pra perto do portão quando o voo tá confirmado, tem malinha do tamanho exato do bagageiro, sabe que a pressão funciona tanto com um funcionário da gol quanto propostas de acordo do prometor funcionam com um integrante da cosa nostra.

ao mesmo tempo, pelo tanto de viagens que já fez, você também começa a achar que já viu tudo de escroto que pode acontecer num aeroporto. o cara tentando entrar no avião com uma pizza pronta, o cidadão fumando na poltrona, a senhora que vomitou do seu lado, mudou de poltrona, você tentou mudar de poltrona, a comissária não deixou, você viajou cheirando vomitinho, o campeão tentando colocar uma prancha de surfe no compartimento de bagagem, o passageiro que incentivava o filho a chutar mais forte a poltrona da senhora da frente. na sua cabeça filhadaputice era cambalhota e você era o cinegrafista do cirque du soleil. não tinha como te impressionar.

até que você embarca, você senta, estão sendo fechados os bagageiros, umas malas estão no corredor. a comissária de bordo pergunta de quem são as malas. uma passageira diz que são dela, mas que ela tinha colocado no espaço de bagagem. a comissária parece confusa. a passageira parece confusa. se recordam que um cara que estava com uma mala imensa reclamando de não ter onde colocar e não querer despachar agora está sentado no conforto da sua poltrona. como uma onda, a realidade começa a vir. passa pelas primeiras fileiras, chega na galera do meio, alcança a passageira e a comissária.

o cara tinha tirado as malas da mulher, colocado no chão, colocado a dele no lugar, deixado as malas dela no chão pra serem despachadas. os passageiros acompanhavam atônitos. o co-piloto havia aparecido no meio do corredor e balbuciava “mas que filho da puta”. eu, um homem que já viu um motorista de ônibus parar a viagem pra perguntar o caminho pros passageiros, sabia que algum limite na ética do transporte havia sido quebrado. a comissária de bordo, atônita, buscava uma solução. a passageira, indignada, gritava a frase “EU SOU CLIENTE BLACK NESSA PITOMBA, EU SOU CLIENTE BLACK NESSA PITOMBA”. jesus, onde quer que estivesse, chorava.

lição #2: nunca duvide da capacidade da vida de, ainda que fria e cruel, oferecer momentos de poesia e lirismo quando se torna especialmente necessário. e isso inclui sim bordões.

enquanto isso, na poltrona diretamente à frente da minha, a webcelebridade inês brasil se encontrava sentada. discreta, contida e absolutamente gente como a gente, inês havia se mantido relativamente tranquila durante toda sua presença no avião, reagindo elegantemente a uma breve confusão sobre estar na poltrona correta e lidando com muita classe aos olhares curiosos que lhe eram dirigidos. conversava contidamente com seu empresário – um rapaz de vinte e poucos anos que parecia um tanto quanto confuso sobre suas atribuições – e acompanhava a situação das malas com o mesmo misto de incredulidade e indignação que todos os demais presentes no avião.

e a discussão sobre as malas foi, é claro, se tornando mais séria. a comissária de bordo tentava conter os ânimos, a passageira dizia que sabia quem tinha tirado as malas e ia tirar satisfações, o co-piloto ainda balbuciava “mas que tremendo, sério, tremendo filho da puta”, o responsável não se acusava, o problema começava a implicar em atraso da decolagem, algumas crianças já choravam. a passageira então começou a variar entre “EU MESMA VOU TIRAR ESSAS MALAS” e “EU NÃO VOU DESPACHAR, EU NÃO VOU DESPACHAR”, tudo isso revezando com “CLIENTE BLACK NESSA PITOMBA” e ficou claro que ela iria a qualquer momento tirar a mala do homem do bagageiro, colocar as dela de volta, surrar o homem com as malas até todo mundo ter que ser retirado de dentro do avião.

nesse momento inês, mostrando que a arte se revela é para o coração do artista e que o gênio pode precisar de apenas um momento para mostrar sua genialidade, acerta o corpo na cadeira. dá uma pausa. olha para seu empresário. ergue sua voz apenas o bastante para não gritar mas ser ouvida por todas as fileiras da parte inferior do avião. e comprovando que na vida existe poesia, que o lirismo não morreu, que as narrativas pessoais ainda podem ser ter fechos como as da ficção, solta uma frase que, se fosse toda aquela situação um quadro do antigo programa zorra total, seria exatamente o bordão perfeito para o momento, a catchphrase exata para a situação.

“AH, MAS ESSA BRANCA É DO BABADO, HEIN?????”

o resto foi apenas raiva, ranger de dentes, malas atiradas no chão, um garotinho que ficou chutando a minha poltrona durante os 50 minutos da viagem. acreditei que paulo silvino pudesse estar me esperando na área de retirada de bagagem mas acho que aí já sonhei demais.

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7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Internet, situações limite, Vacilo

7 Respostas para “Sobre duas lições aprendidas em um voo da Tam, o pior ser humano do mundo e a webcelebridade Inês Brasil

  1. Nayana

    Você é apenas top
    2016 vou desejar que continue vivo o brilho desse blog

  2. paulovelho

    Sério, cara… se você fosse um jogo de cartas, você seria Cards Against Humanity.

  3. anaspol

    Hahahahahahahahahahahaha no máximo eu presenciei reclamação de roubo de travesseiros no voo de volta dos EUA!

    Aqueles travesseirinhos tosqueira de cortesia!

    Inês Brasil no mesmo voo, ainda por cima!

    Que Andar do Bêbado!! <3 <3

  4. O texto é tão bom que me despertou certo sadismo. Que 2016 traga muitos mais voos infernais pra você e, com certa sorte e resignação, vontade de escrever a respeito.

  5. Gab

    Men.ti.ra.
    Quero uma viagem dessas em 2016.

  6. Camila

    Inês é muito S2

  7. brandina

    Não quero mais viajar com você.

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